Na quarta-feira passada, último dia do prazo das convenções, Flávio Bolsonaro (PL) encerrou a novela mais arrastada desta pré-campanha e anunciou seu vice. Depois de semanas prometendo uma mulher, de preferência de outro partido, para ampliar seu alcance entre o eleitorado feminino, terminou com Alfredo Gaspar (PL), deputado federal e ex-procurador-geral de Justiça de Alagoas. Esta decisão sela a candidatura do Partido Liberal à Presidência da República em chapa pura e sem coligação, como se esperava que ocorresse, apesar das tentativas de última hora de trazer Republicanos e Podemos.
A imprensa nacional tratou o episódio como costuma tratar a escolha dos vices, ou seja, somente como uma questão de nome. Proponho outra análise. A vaga de vice é o ponto sensível em que o sistema político brasileiro apresenta uma de suas contradições.
Na semana passada, abordei nesta coluna o conceito de presidencialismo de coalizão, que o cientista político brasileiro Sérgio Abranches formulou em 1988. Retomo uma parte do que escrevi: “O argumento é que o Brasil combina, de forma rara, presidencialismo, representação proporcional e multipartidarismo, e o resultado é que nenhum presidente jamais teve maioria própria no Congresso. Governar aqui significa, necessariamente, construir coalizão, que não se confunde com a coligação eleitoral, mas dificilmente se forma sem ela”. A coligação eleitoral, como também argumentei na semana anterior, é o primeiro movimento dessa coalizão de governo, pois quem embarca numa candidatura em agosto já calcula com quem vai negociar em janeiro.
Dito isto, a vaga de vice precisa cumprir, ao mesmo tempo, duas funções que puxam em direções opostas.
Como instrumento de coalizão, ela pede um vice forte, parceiro, com partido robusto, bancada e capilaridade. Quanto mais forte, mais sólida a aliança e mais tranquila a governabilidade. Por essa lógica, convém buscar o vice mais poderoso possível.
Como cargo constitucional, porém, esse mesmo vice forte se torna um risco, porque a própria Constituição de 1988 o esvazia. O artigo 79 diz o seguinte: “Substituirá o Presidente, no caso de impedimento, e suceder-lhe-á, no de vaga, o Vice-Presidente”. Parágrafo único: “O Vice-Presidente da República, além de outras atribuições que lhe forem conferidas por lei complementar, auxiliará o Presidente, sempre que por ele convocado para missões especiais.” Ou seja, função própria nenhuma, apenas as que o titular quiser e quando quiser.
Isto nos leva a crer que o vice é um subordinado estranho: depende do titular para ter o que fazer, já que só exerce funções delegadas, mas não depende dele para existir politicamente, porque chegou ao cargo pelo mesmo voto e carrega base própria. O titular pode esvaziá-lo de atribuições; não pode retirá-lo da chapa nem da linha sucessória.
Guardado esse critério, vejamos as, até agora, duas chapas mais competitivas de 2026 a nível nacional e em Santa Catarina.
Lula (PT) e Geraldo Alckmin (PSB) repetem a chapa vitoriosa de 2022. À primeira vista, Alckmin é vice de peso, ex-governador do maior estado e duas vezes candidato à Presidência. A particularidade está em outro lugar: ele deixou o PSDB que ajudou a fundar e filiou-se ao PSB, não comandando nem a bancada nem a máquina do partido. Lula encontra nele um vice forte na imagem, fraco na estrutura, e por isso institucionalmente seguro.
Já Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar fecharam a parceria no apagar das luzes do calendário eleitoral. Gaspar parece ser um correligionário competente, ex-procurador-geral de Alagoas, mas sem base nacional própria. Pela mesma régua que faz de Alckmin um vice seguro para Lula, Gaspar é um vice seguro para Flávio, só que aqui a segurança institucional coincide com a fraqueza da coalizão. Onde Lula pôde se dar ao luxo de um vice sem base porque já tem coalizão, Flávio tem um vice sem base porque não conseguiu (ou não quis) formá-la. Somente o tempo dirá quais as vantagens eleitorais de se possuir um vice como Gaspar, já que, ao contrário de Alckmin, ele ainda não ocupou o cargo. O fato de Gaspar vir de um estado do Nordeste (onde Lula lidera as pesquisas e Flávio precisa melhorar) e ter sido relator da CPMI do INSS também pesa politicamente a seu favor, principalmente se considerarmos que ele utilizará de sua experiência na CPMI para questionar com mais propriedade o governo Lula.
O tabuleiro estadual reproduz em partes o argumento anterior, mas com algumas ressalvas.
Jorginho Mello (PL) e Adriano Silva (Novo) são um exemplo curioso das vantagens da coalizão. O governador trocou a vice atual, Marilisa Boehm, do próprio PL, por Adriano Silva, ex-prefeito de Joinville, o maior colégio eleitoral do estado, e filiado ao Novo. O Novo está longe de ser considerado um grande partido em Santa Catarina (onde tem um deputado estadual, um federal e um punhado de prefeitos e vereadores), mas a estratégia do governador, que possui nove siglas em sua coligação, aparenta ter sido a de buscar um nome jovem, bem avaliado e de um colégio eleitoral grande, ainda que, como na análise feita sobre Alckmin e Gaspar, não possua poder suficiente, à primeira vista, para ameaçá-lo no futuro.
Com João Rodrigues (PSD) e Carlos Chiodini (MDB), ambos de partidos considerados do centrão, a lógica da coalizão é mais tradicional, no sentido de que as vagas de vice e senado foram claramente utilizadas pelo PSD para consolidar a aliança com MDB e União Progressista, aliás, uma aliança inédita em Santa Catarina. Chiodini é um político de carreira reconhecido no MDB estadual e nacional, possuindo vida política própria e não dependendo de Rodrigues caso ambos sejam eleitos. Nesse aspecto, a tese do vice fraco politicamente e forte na imagem não é tão presente aqui, mas sim um vice forte no aspecto partidário e que dá sustentação a uma coalizão até então difícil de se realizar.
De todo o processo eleitoral que desembocará em outubro, o vice é a peça que o eleitor menos escolhe. Um cargo sem tarefa definida, escolhido por cálculo mais que por vontade popular. O eleitor decide o seu voto pelo primeiro nome da chapa; deveria, porém, olhar com mais atenção para quem aparece na segunda linha.
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