Na semana passada, tratei de Lula e Gelson Merísio (https://www.4oito.com.br/blog/artur-fabro/post/os-palanques-da-eleicao-de-2026-em-santa-catarina-parte-1-16691). Hoje é a vez da parte 2 da nossa série "Os palanques da eleição de 2026 em Santa Catarina", com Flávio Bolsonaro e Jorginho Mello.
Quem é Flávio Bolsonaro?
Flávio Nantes Bolsonaro nasceu em Resende, no sul fluminense, em 30 de abril de 1981. Tem 45 anos, é advogado e empresário. É o filho mais velho de Jair Bolsonaro e de Rogéria Nantes Braga, primeira mulher do ex-presidente. É irmão de Carlos Bolsonaro (PL), hoje candidato ao Senado por Santa Catarina, e do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, e meio-irmão de Jair Renan (PL). Michelle Bolsonaro (PL), terceira mulher do pai, é sua madrasta.
Sua trajetória política é inteiramente carioca e começa cedo. Elegeu-se deputado estadual pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ) em 2002, aos 21 anos, e reelegeu-se em 2006, 2010 e 2014, somando quatro mandatos consecutivos. Em 2018, elegeu-se senador, com mandato que vai até 2027. Passou por sete legendas ao longo do percurso: PP, PFL, PSC, PSL, Republicanos, Patriota e, desde 2021, PL.
É candidato à Presidência pelo PL nas eleições de 2026, com o deputado federal Alfredo Gaspar (PL) como vice. A candidatura foi oficializada em convenção nacional em São Paulo, com a presença do presidente argentino Javier Milei. Concorre sem coligação, em chapa pura.
A candidatura de Flávio não emergiu de prévias, nem de pesquisas nem de disputa interna. Foi indicado pelo pai em dezembro do ano passado, em anúncio feito por rede social, preterindo o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), preferido do centrão e do mercado, que optou por disputar a reeleição em São Paulo.
Análise do desempenho eleitoral recente de Flávio Bolsonaro
Flávio construiu o início de sua carreira em eleições proporcionais. Como dito, foram quatro mandatos consecutivos de deputado estadual na ALERJ, um resultado sólido, mas obtido num tipo de disputa que, no caso dele, foi vencida a partir de um eleitorado que o sobrenome já mobilizava na Zona Oeste e nos redutos militares e policiais do Rio.
Em disputas majoritárias, o histórico é mais curto e tem duas entradas opostas. Em 2016, foi candidato à Prefeitura do Rio e terminou em quarto lugar. Em 2018 elegeu-se senador pelo Rio de Janeiro, então pelo PSL, com 4.380.418 votos, ou 31,36% dos válidos. Venceu Arolde de Oliveira (PSD), o ex-prefeito Cesar Maia (DEM), o então senador Lindbergh Farias (PT), que tentava a reeleição, e o deputado federal Chico Alencar (PSOL), nomes tradicionais da política fluminense.
Repare, leitor, na distância entre os dois resultados, separados por apenas dois anos. Entre 2016 e 2018 não houve mudança de trajetória pessoal de Flávio, o que houve foi a candidatura presidencial do pai, que o alçou a um cargo de maior relevância.
Quem é Jorginho Mello?
Jorginho dos Santos Mello nasceu em Ibicaré, no Meio-Oeste catarinense, em 15 de julho de 1956. Tem 70 anos e mudou-se ainda criança para Herval d'Oeste. É formado em Estudos Sociais pela Unoesc e em Direito e Administração pela UniSul. Foi registrado em cartório já com o diminutivo.
Começou como vereador em Herval d'Oeste, ainda muito jovem, e depois ingressou por concurso no antigo Banco do Estado de Santa Catarina (BESC), onde permaneceu por quase duas décadas e chegou à diretoria.
Voltou à política em 1994, elegendo-se deputado estadual. Cumpriu quatro mandatos consecutivos na ALESC, entre 1995 e 2010, presidiu a Casa em 2009 e, nessa condição, assumiu interinamente o governo do Estado. Elegeu-se deputado federal em 2010, pelo PSDB, e reelegeu-se em 2014. Em 2018 conquistou uma das vagas ao Senado e tornou-se vice-líder do governo Bolsonaro no Congresso. Em 2022 foi eleito governador e renunciou ao Senado, sendo substituído pela suplente Ivete da Silveira (MDB). É o presidente estadual do PL.
Disputa a reeleição pela coligação "Fé no Trabalho e Pé na Tábua". O vice é Adriano Silva (Novo), ex-prefeito de Joinville, e a chapa ao Senado é formada por Carlos Bolsonaro (PL) e Caroline De Toni (PL). Além do PL, integram a aliança Podemos, Novo, Republicanos, a Federação PSDB/Cidadania, Democracia Cristã, Avante e Agir.
Análise do desempenho eleitoral recente de Jorginho Mello
Jorginho Mello nunca perdeu uma eleição.
Ele ocupou quase todos os cargos eletivos possíveis da política catarinense: vereador, deputado estadual, deputado federal, senador e governador. Isso resulta em mais de cinquenta anos de vida pública.
Em 2022, Jorginho terminou o primeiro turno com 38,61% dos votos válidos, contra 17,42% de Décio Lima (PT). No segundo turno fez 70,64%, cerca de 2,98 milhões de votos, contra 29,3% do petista. Foi o maior percentual obtido por um governador eleito no Brasil naquele ano e o maior já obtido por um governador em Santa Catarina. Jorginho saltou de 38,61% para 70,64% entre um turno e outro, um acréscimo de 32 pontos. Nenhum candidato constrói isso sozinho em três semanas. O que ocorreu foi a consolidação, no segundo turno, de todo o campo que se opunha ao PT num estado que, no mesmo dia, deu 69,27% a Jair Bolsonaro.
Note, leitor, que os porcentuais de Jorginho e Jair em 2022 em Santa Catarina são praticamente idênticos: 70,64% e 69,27%. Jorginho, assim como Flávio em 2018, ascendeu pela onda bolsonarista, porém, na segunda ocorrência dela.
Até agora, todas as pesquisas divulgadas o mantêm Jorginho na liderança folgada e apontam vitória em primeiro turno, inclusive com uma intenção maior que a de Flávio no estado (que na Quaest aparece com 45% no primeiro turno), o que sugere que talvez seja o filho de Bolsonaro quem precise mais de Jorginho neste momento, e não o contrário.
Na semana passada, Merísio aparecia como a parte mais fraca de uma chapa cuja candidatura nacional é competitiva. Aqui é o contrário: o palanque catarinense é mais forte do que a candidatura que ele sustenta. Flávio Bolsonaro disputa a Presidência sem coligação. Jorginho Mello disputa a reeleição com oito partidos e mais de 50% das intenções de voto em todos os institutos.
Isso produz uma qustão que vale acompanhar até outubro: a transferência de votos raramente funciona de baixo para cima. Em 2022, foi Bolsonaro quem puxou Jorginho em Santa Catarina. Em 2026, o PL catarinense precisa que o fluxo se inverta, que o governador puxe o presidenciável. Não é impossível, mas é o movimento mais difícil da engenharia eleitoral, e é sobre ele que a campanha do PL no estado terá de trabalhar.
Na próxima semana, será a vez de Ronaldo Caiado e João Rodrigues.
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