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O “cartucho americano” e o comércio de água no trem, numa sucessão de lembranças

Por Aderbal Machado 03/12/2022 - 07:00
O “cartucho americano” e o comércio de água no trem, numa sucessão de lembranças

Comprar “cartucho americano”, água, cocada, pastel no trem marcava bem aquele tempo de guri, quando, com papai, seguia de Araranguá para Criciúma, com papai indo a serviço, na condição de advogado da CBCA. 

A oferta, a cada parada nas estações, se multiplaca. Um vendedor atrás do outro, sistematicamente. A mim, vejam só, parecia escandaloso vender água. Imaginava: tem em todos os lugares – é só jogar o balde no poço e pronto. Tinha pra mim ser uma excrescência natural. A inocência histórica...

Imagem: FCC - Prefeitura Municipal de Criciúma

Adorava, no curso da viagem, aquele som das rodas do trem passando pelas intersecções dos trilhos: ta-tac-ta-tac-ta-tac-ta-tac-ta-tac. Em compensação, os senões: a fumaceira preta invadindo os vagões, empurrada pelo vento. Cheiro ruim do carvão. E não raro se impregnava nas roupas. E muitas vezes a fuligem sujava a gente todinha. 

Uma hora e meia, com paradas e tudo, era o quanto durava a viagem. De ônibus também, mas o trem era mais cômodo. Quando se decidia pelo ônibus, muito raramente, mil paradas também pelo meio do caminho. E a voz inconfundível do motorista: “Maracajá, quem fica...”

E lá se ia o pessoal descendo. Chamava-se “pinga-pinga”. Tinha os diretos, como hoje. Mais caros na tarifa. Como hoje.

Em algumas ocasiões, papai, pela pressa e pelo conforto, convocava o Pedrinho, tradicional “motorista de praça” do Araranguá, seu amigo pessoal, para nos levar. Eu adorava. O Pedrinho ia conversando o tempo inteiro e a gente podia curtir a paisagem sem atropelos e sem aglomero. 

Até hoje sinto nas narinas aquele cheirinho de café novinho e dos pastéis dos bares de Criciúma, ao desembarcar na estação. E me conforta saber que vivi tudo, de corpo presente.

É forçoso ficar matutando, como em tantas lembranças daqueles tempos, o quanto de perdas tivemos de romantismo, de improvisos, de incômodos que hoje nos dão saudades – pois, nas comparações temporais, vimos o romantismo inocente indo embora. Muito dele já foi. Os mais velhos sabem disso como eu. E sentem saudades como eu. 

Era o tempo das conversas diretas, vis-à-vis, sem disfarces. O mundo era o melhor psicólogo para mentes confusas. Tudo simples, direto, sem sombras. Ah...

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