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Um novo jeito de comprar

De olho no consumidor: setor de atacados se expande na região; para não ficar para trás, supermercados apostam na inovação e migração
Por Lucas Renan Domingos Criciúma, SC, 21/09/2018 - 11:30Atualizado em 21/09/2018 - 11:38
Foto: Guilherme Hahn / A Tribuna / Especial
Foto: Guilherme Hahn / A Tribuna / Especial

A instabilidade da economia brasileira e os gráficos apresentando dados ainda tímidos para demonstrar uma recuperação efetiva, momentaneamente freada pelo período eleitoral, causam impactos. Em tempos de recessão, o planejamento, o estudo de novos caminhos e a reorganização têm sido fatores que norteiam o dia a dia das empresas do país, que tentam superar o momento com maior tranquilidade e, por vezes, também do cidadão comum que sente o peso da inflação em seu bolso. 

Assim como indústrias, estabelecimentos e negócios têm colocado na ponta da caneta e no papel as receitas e despesas buscando manter o balanço no positivo, a população também se preocupa em equilibrar as contas a pagar com o salário recebido. Com o aumento da inflação e o dinheiro diminuindo, a tendência é que o consumidor passe a buscar novas possibilidades de compra, pensando em qualidade e bons preços na hora de adquirir um produto. 

Entre as contas a serem pagas ao fim do mês do cidadão brasileiro, estão as  alimentícias, a ida ao mercado para abastecer a casa. Na hora de escolher quais serão os alimentos presentes na dispensa, os consumidores têm se preocupado primeiro com o preço. Com isso, uma nova tendência, antes voltada para a venda às pessoas jurídicas, tem ganhado espaço também entre as pessoas físicas: os atacarejos. 

Momento econômico do Brasil faz com que população saia em busca de melhores preços e novos modelos de negócios aproveitam para surfar a onda
Foto: Guilherme Hahn / A Tribuna / Especial

A alternativa de um novo formato

“Depois da crise em 2008, esse novo formato de negócio tem ganhado mercado. Assim como na década de 80 e 90 houve o crescimento das grandes lojas de supermercado, o momento agora é dos atacarejos”, aponta o vice-presidente de atacados da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Santa Catarina (Fecomércio SC), Telmo Sandro Poli. 

A expansão do modelo de negócio é ainda novidade no Brasil, indícios de que pode ganhar mais força. Os atacados surgiram no país há pouco mais de 20 anos e, dali para frente, começaram a abocanhar parte do mercado antes dominados pelos supermercados. “Independentemente de crise ou não, a verdade é que eles caíram na graça dos clientes. Os atacadistas passaram a investir em estruturas bonitas, proporcionando uma melhor experiência de compras não só para pequenos comerciantes, mas para as famílias”, acrescenta Poli. 

Não é à toa que o que antes era conhecido como atacado hoje teve a nomenclatura alterada para atacarejo, que nada mais é do que um grande espaço de compras com uma menor quantidade de itens à disposição do consumidor, serviços mais enxutos – diferente de um supermercado que oferece açougue, padaria e demais setores – e preços atraentes. 

“Foi justamente por conta dessa adesão das pessoas físicas, somadas a pessoas jurídicas, que o termo atacarejo apareceu. Uma mistura de atacado, para quem deseja comprar em quantidade, mas também uma opção de varejo para o público em geral”, afirma o vice-presidente de atacados da Fecomércio SC. 

O momento econômico faz com que as pessoas busquem praticidade com economia”, 
Celso Furtado, gerente nacional de marketing do Fort Atacadista

Acompanhando o Estado e o Brasil

Na região da Associação dos Municípios da Região Carbonífera (AMREC), a aparição do formato é ainda mais recente. No ano passado, uma das maiores redes do Brasil instalou sua primeira loja na localidade, no município de Içara. Trata-se de uma unidade de operação do Fort Atacadista.

A empresa já está com uma segunda loja sendo construída na cidade de Criciúma, vizinha de Içara. Em Içara, o investimento, de R$ 40 milhões, inicialmente gerou mais de 400 empregos diretos e indiretos. A nova loja em Criciúma está projetada para gerar e mesma quantidade de postos de trabalho, evidenciando a potencialidade da região para receber novos empreendimento do porte. “As novas unidades do setor que estão chegando à região Sul de Santa Catarina não são uma exclusividade da localidade. Este segmento vem ganhando força em todo o território nacional e o nosso Estado tem sido atrativo para esse modelo de negócio. Para se ter uma ideia, o Atacadão, maior rede do Brasil, já possui cinco unidades aqui”, cita Poli. 

Primeiro ano positivo

A inauguração do Fort Atacadista em Içara aconteceu em agosto de 2017. E os números da unidade justificam a tendência dos investimentos na região. Em média, a loja do Fort em Içara recebe mais de 75 mil clientes por mês. Por dia, atualmente, a loja recebe, aproximadamente 2,6 mil clientes. A grande maioria vem de Içara e Criciúma, mas há moradores de outras cidades próximas. 

Depois de inaugurar loja em Içara, empresa agora foca na inauguração da unidade de Criciúma
Foto: Daniel Búrigo / A Tribuna

“A nossa marca se fortaleceu em todo o Estado. O momento econômico faz com que as pessoas busquem praticidade com economia. O Fort acaba atendendo essa grande demanda”, pontua o gerente nacional de marketing do Fort Atacadista, Celso Furtado. “Apesar de ter sido um ano difícil, temos mantido nosso plano de expansão. São três lojas prestes a serem inauguradas e mais de dez projetadas para o ano que vem”, garante.  A região demonstrou a carência que tinha do investimento de um atacarejo. Na avaliação do gerente do Fort Içara, Anderson Rodrigues, o próprio público demonstrou isso. “A cidade e toda a vizinhança nos acolheu de forma surpreendente, realmente abraçaram o Fort e sua proposta de reunir qualidade e preços baixos em uma loja moderna. A região estava carente de um comércio neste segmento, ofertando preços honestos, uma ampla variedade de itens e ainda com a opção de compra no atacado e no varejo” completa.

A representatividade do varejo como forte concorrência

Ao entrar na região Sul de Santa Catarina, os atacarejos começaram a atuar em uma localidade cuja presença da concorrência é forte. O varejo possui nesta zona do Estado o seu berço. Foi na localidade que iniciou a atividade de três das cinco maiores redes de supermercados de Santa Catarina. São elas o Angeloni, o Giassi e o Bistek. Daqui elas começaram a se proliferar para o restante do território catarinense. 

Além delas, aproximadamente mais 15 empresas, somando algo próximo de 100 lojas, estão presentes no Sul. Em toda Santa Catarina, o valor estimado em vendas para o ano de 2018 nos supermercados está girando em torno de R$ 21 bilhões ao fim do período. Deste montante, 15% são gerados somente na parte debaixo do mapa do Estado. Ampliando ainda mais os números, o setor é o último da cadeia de abastecimento. Do que é produzido no Brasil, 70% passa pelas redes até chegar à casa do cliente final. 

Das cinco maiores redes de supermercados do Estado de Santa Catarina, três iniciaram na região 
Foto: Guilherme Hahn / A Tribuna / Especial

Por isso, os supermercados têm figurado entre as principais atividades econômicas da região Sul de Santa Catarina. “Você pega um Angeloni, por exemplo, toda a sua administração fica instalada na cidade de Criciúma. Isso representa empregos, renda, comércio e impostos gerados”, enumera o presidente da Associação Empresarial de Criciúma (Acic), Moacir Dagostin. 

Segundo ele, a região por muitos anos teve segmentos que se destacaram, como foi o caso do carvão, depois a cerâmica, entre outros. “Hoje já não tem mais isso. Houve uma pulverização da economia. Temos a presença forte das empresas químicas, do plástico, dos tecidos e os supermercados também estão neste grupo”, frisa Dagostin. 

Apesar da representatividade do varejo na AMREC, o presidente vê com bons olhos a chegada dos novos investimentos. “Nossa região precisa disso. Apesar do momento econômico, estamos conseguindo respirar. Somente neste ano conseguimos gerar mais de 600 novos empregos. Quanto mais empresas vierem para cá, melhor. O ramo de atacado e os supermercados geram bastante renda, com certeza são setores fundamentais para nossa economia”, destaca.

No fazer diferente, a força dos supermercados 

Com tamanha expressão, os supermercadistas não querem ficar para trás. Para driblar a concorrência de um novo formato que se instala na região e vencer uma economia pouco pujante, a alternativa encontrada é inovar. O vice-presidente regional Sul da Associação Catarinense dos Supermercados (Acats), Nazareno Dorneles Alves, reconhece que a atual situação do país tem prejudicado o desenvolvimento. Nos últimos dez anos, o setor supermercadista apresentou um crescimento médio anual de 4,9% e a proposta é manter os índices positivos.  

“Os grandes desafios enfrentados pelos empresários do setor, que tem um dos níveis concorrenciais mais altos da nossa economia, é manter a lucrativide dos negócios em um ambiente econômico desfavorável”, revela Alves. A saída tem sido prezar ainda mais pela qualidade do atendimento para manter os atuais clientes e continuar atraindo outros. 

“A Acats tem se debruçado mensalmente pensando em como nos mantermos competitivos em uma situação de turbulência econômica e com um novo formato entrando em nossa região de atuação. A frente encontrada para trilhar esse caminho tem sido o investimento na capacitação de gestão”, argumenta o vice-presidente. 

De acordo com Alves, a prioridade tem sido conseguir alcançar maiores resultados com menores custos. Ou seja, a intenção é a otimização do atendimento, proporcionando uma melhor experiência de compra ao cliente. “Quando falamos em investimento de capacitação e treinamentos, não é somente na operação. Isso gira também em torno precificação, mix de produtos, renovação do mix, mudanças de leiaute e formatos de lojas diferentes”, complementa. 

Supermercado de Criciúma é o primeiro do Sul a ter self checkout
Foto: Guilherme Hahn / A Tribuna / Especial

Apostar também nas tecnologias

Um dos exemplos recentes da tentativa de melhor a experiência dentro da loja é a novidade presente na região Sul. Desde o início do mês de setembro, a rede de supermercados Manentti instalou em duas de suas lojas o self checkout. O equipamento consiste em um caixa de pagamento em que o cliente possui autonomia para fazer o fechamento de suas compras. É o próprio consumidor quem passa as suas mercadorias e finaliza o seu atendimento. 

“São iniciativas como essa que a Acats tem apoiado e dado o suporte necessário para os supermercados do Estado implantarem em suas unidades”, analisa Alves. Só que, para manter a competividade dos supermercados, as ações vão além das possibilidades incrementadas pelas redes. 

Um futuro mais promissor para o setor também passa pelo Governo Federal e Estadual, pelo Senado, Câmara dos Deputados e Assembleia Legislativa. Foi por isso que foi fundada a União Nacional do Comércio e Serviços (UNECS), em que a Acats está inserida. 

“Pela UNECS nos relacionamos com deputados e senadores para fortalecer nossos pleitos nacionais e mostrar a força de nossa base no país. Nosso setor tem se esforçado para oferecer a contribuição e mover a engrenagem da economia. Queremos gerar empregos e ser a fonte de impostos para que o Governo transforme aquilo que arrecada em canais propulsores de desenvolvimento. Não é o que acontece. As estruturas públicas de Governo em todos os níveis estão obesas, ineficientes e provocam descrença na população porque só arrecadam para se autossustentar, sem dar nada em troca”, enfatiza.

A volta às origens pode ser o caminho de conciliação

O vice-presidente regional Sul da Acats lembra ainda que o retorno às origens pode ser um caminho a ser seguido pelos supermercadistas para manterem as suas atividades em crescimento. Foi nos bairros que surgiram as antigas mercearias e que depois se desenvolveram para grandes lojas de supermercados e se tornaram um setor importante para a economia do Estado. 

Com os atacarejos avançado nas regiões centrais dos municípios, existe a possibilidade do surgimento de uma tendência da volta aos bairros das lojas voltadas para o varejo, pensando na proximidade com os consumidores da periferia.

“Já é uma realidade. É perceptível que não se estão inaugurando grandes lojas de supermercados. O que está se desenhando é realmente isso, a força dos supermercadistas voltarem a ser os bairros. Os grandes centros serão disputados por novos formatos”, comenta Alves. 

A mesma opinião tem o vice-presidente de atacados da Fecomércio SC, Telmo Poli. Ele aponta que o mercado, da forma que está se encaminhando, pode, sim, ter espaço para todos. “Os mercados de vizinhança continuam crescendo. A nossa atuação não é retirar a clientela dos mecados. Pelo contrário. Os atacados são responsáveis por 52% das mercadorias que chegam aos varejos de bairro”, afirma. “Inclusive o setor tem buscado parcerias com indústrias e pequenos empreendedores para criação de programas de fidelização com as pessoas jurídicas que se abastecem no atacarejo”, observa Poli. 

Foto: Guilherme Hahn / A Tribuna / Especial

Ajudando os outros setores

Mantendo a competitividade entre o atacado e o varejo, quem também pode se beneficiar são os pequenos produtores. O vice-presidente da Acats ressalta que a região Sul de Santa Catarina se destaca. Na cidade de Tubarão, a produção de carne suína tem despontado no Estado. A agricultura familiar também vem forte. 

“Tudo que sai dessas propriedades acaba desembocando nas redes de supermercados daqui e também dos atacados”, lembra. O que falta, na visão de Alves, é levar para frente a iniciativa de atrair novas indústrias para o Sul. “Sem indústria, não tem riqueza, não tem emprego, não tem renda, não tem comércio. Agora, se entrar dinheiro novo aqui, todos se beneficiam”, diz. 

A migração como um rumo da expansão

Se a o caminho para algumas redes de supermercados pode ser os bairros, há redes que preferem seguir o rumo de continuar presente nos grandes centros. O rede Giassi Supermercados possui 15 lojas no ramo de varejo espalhadas por Santa Catarina. Ao todo, são mais de 6 mil funcionários. Só que, recentemente, a marca se rendeu ao atacarejo e lançou a sua própria empresa no ramo. 

No dia 30 de agosto, foi inaugurada no Bairro Cidade Alta, na entrada do município de Aranguá, o Combo Atacadista, a nova unidade operacional da rede. A estrutura soma 5,2 mil metros quadrados de área de vendas e 13 mil metros quadrados de área construída, 20 checkouts e mais de 380 vagas de estacionamento. 

Apesar de ser estar à frente de uma das maiores marcas de supermercados do estado, o diretor presidente da Rede Giassi Supermercados, Zefiro Giassi, acredita que sempre haverá espaço para ambos os segmentos. “Vínhamos nos planejando para entrar no atacarejo há algum tempo. É um segmento que está expandindo e não poderíamos deixar de investir”, analisa. “Realmente se fazia a necessidade de um novo empreendimento deste estilo. O Sul do Estado de Santa Catarina tem muitos pequenos comércios que deixariam de se abastecer em nossas lojas para ir para a concorrência”, aponta. 

Zefiro Giassi na inauguração do Combo Atacadista / Foto: Daniel Búrigo

Já pensando no futuro

Por mais que a recessão econômica tenha alavancado o setor de atacarejo, o empresário acredita que o modelo de negócio veio para ficar. A empresa já projeta até mesmo novas lojas no novo formato. 

“Essa foi a primeira de uma série de unidades que devemos abrir. Não podemos parar. Uma loja nesse estilo tem um custo administrativo. Só que três delas, isso pouco aumenta. As despesas são diluídas. Temos um projeto quase concluído de um novo empreendimento e iniciados os estudos de outro. Em 2019, queremos abrir mais duas unidades e a região de Criciúma deve ser contemplada”, adianta o direto presidente. 

Pode vir mais

E, caso a economia demore a se recuperar, outras redes podem seguir o mesmo destino quando se pensar em novas expansões. “Basta ver o mercado. No nosso Estado, cindo redes de supermercados já ampliaram suas operações indo para o atacarejo, entre elas, a Rede Giassi, uma das maiores do Estado”, finaliza o vice-presidente da Acats.