Por muito tempo, Gustavo* (nome fictício) aprendeu a olhar para baixo. Dentro do sistema prisional, andar com a cabeça baixa e as mãos para trás não era apenas uma postura. Era parte de uma rotina marcada por regras, isolamento e pela necessidade de se adaptar a um ambiente em que cada movimento precisava ser calculado. Depois de quase oito anos encarcerado, entre Florianópolis e Criciúma, sair pelo portão do presídio não significava, necessariamente, sentir-se livre.
Era preciso reaprender a estar na rua. “Quando o preso sai do presídio para trabalhar no projeto Segunda Chance, ele esquece que não está mais preso. Para ele, ainda está lá dentro do sistema prisional. Eles andam com a mão para trás, andam de cabeça para baixo, não falam. É como se continuassem isolados”, conta Gustavo.
Foi nesse espaço entre a prisão e a liberdade que ele encontrou uma oportunidade para reconstruir a própria história. Há pouco mais de oito anos, Gustavo tomou uma decisão que considera definitiva: mudar de vida. Mesmo sabendo que teria de retornar ao sistema prisional para cumprir a pena, decidiu concluir um tratamento de dependência química, iniciado antes da prisão. Dentro da penitenciária, continuou estudando, concluiu o ensino fundamental e o ensino médio, passou no Enem e leu mais de 60 livros.
O tempo, que poderia simplesmente ser consumido pelo cárcere, ganhou outro significado.
“Quando eu decidi mudar de vida, eu vim para Criciúma, conversei com meu irmão, meu irmão e ele me deu oportunidade de eu fazer um tratamento. Enquanto eu estava fazendo o tratamento, emitiram o mandado e eu sabia que precisaria retornar para o presídio. Fui preso e concluí o tratamento dentro da penitenciária, concluí os nove meses, concluí os trabalhos e eu estou limpo já há oito anos. Então mesmo retornando para o sistema prisional, eu provei para mim mesmo e para as outras pessoas que quem quer realmente consegue mudar”, reflete.
Quando chegou ao regime semiaberto, surgiu a oportunidade de trabalhar no Projeto Segunda Chance, da Prefeitura de Criciúma. A primeira atividade foi na pavimentação. Depois vieram outras frentes, como roçada, limpeza, manutenção e serviços de infraestrutura.
Mais do que uma ocupação, a rua voltou a ser um lugar de aprendizado. “Conheci bastante gente. Hoje, quando eu vou pra rua, já não fico tão perdido, porque esse trabalho de reinserção da sociedade pelo projeto te oferece conhecer Criciúma e o pessoal de um outro jeito”, relata.
A mudança, segundo ele, também está no olhar de quem está do outro lado. “Muitas vezes, quando eles conhecem a gente, veem que a gente é uma pessoa comum, como qualquer outra. A gente trabalha, come e dorme. Todo mundo que eu conheci, que pôde me conhecer através do projeto, gostou de mim. Então através do projeto eu tive muitas oportunidades”, cita.
O primeiro passo é sair da cela
A rotina do cárcere cria marcas que nem sempre aparecem. Gustavo lembra que, para quem passa anos privado da liberdade, o primeiro contato com a rua pode ser desconcertante. O trabalhador que chega ao projeto precisa aprender novamente a conversar, circular, conviver e ocupar um espaço que durante muito tempo lhe foi negado.
“Não tinha uma vivência normal, o que me ajudou muito ali foi a espiritualidade também com o Branco, porque eu me dava com todo mundo. Podia ser convívio, seguro, polícia, coordenador, o próprio intendente, prefeitura, eu sempre tive uma boa comunicação com todo mundo. Então foi muito bom ali”, lembra.
O coordenador do Segunda Chance, Adriel Andrade, conhece esse processo por experiência própria. Ex-apenado e carinhosamente conhecido como Branco, ele passou pelo sistema prisional e hoje ocupa justamente a posição de quem recebe os homens que deixam temporariamente o presídio para trabalhar.
A experiência pessoal mudou a forma como ele conduz o projeto. Para Branco, o contato diário permite perceber que a reinserção não acontece apenas por meio de uma vaga de trabalho. É também uma reconstrução de comportamento, confiança e autoestima. “Meu cuidado é saber conversar com eles, olho no olho, transparência”, explica.
Ele diz que sua função exige firmeza, mas também compreensão sobre as marcas trazidas pelos apenados. “Porque eu tô trabalhando com gente que sofreu espancamento, que foram abusados. Essas palavras chocam ainda, são gatilhos”, conta.
A relação construída no projeto não elimina os conflitos nem garante que todos os participantes seguirão o mesmo caminho. Há casos de descumprimento de regras e até de pessoas que deixam o projeto. Para Adriel, porém, esses episódios não podem apagar as histórias de quem aproveita a oportunidade.
Uma oportunidade precisa encontrar quem quer mudar
O Projeto Segunda Chance começou a ganhar forma antes de ser estruturado como uma iniciativa municipal. A experiência inicial envolveu uma fábrica de lajotas e o trabalho de pessoas em regime semiaberto. Em 2016, a iniciativa passou a ganhar uma estrutura mais ampla.
Hoje vereador, Toninho da Figueira esteve à frente da coordenação nos primeiros anos. O projeto começou com poucos trabalhadores e cresceu conforme novas frentes foram abertas.
“Começamos com quatro homens e três mulheres na roçada e criamos a fábrica de lajotas. Chegamos a ter 60 homens pavimentando ruas, cuidando de praças, ginásios e escolas. Passaram por mim mais de 600 homens e mulheres. Muitos saíram, abriram empresas, passaram em seleções e mudaram de vida. É um projeto que traz economia para o município e salva famílias”, observa o vereador.
O trabalho também nasceu de uma necessidade concreta da administração municipal. Com obras de infraestrutura atrasadas, a mão de obra dos apenados passou a ser incorporada a serviços como pavimentação, manutenção de espaços públicos e recuperação de equipamentos.
“Fiz uma equipe para fazer pavimentação de ruas, botar meio-fio, cuidar de praças. E assim eu fiz. Consegui dar a volta e terminar as ruas no tempo que o prefeito almejava de entregar”, lembra Toninho.
Ao longo dos anos, o projeto passou a representar mais do que uma alternativa de mão de obra. Para quem está cumprindo pena, trabalhar significa também construir uma verdadeira segunda chance para a vida pessoal.
Trabalho, disciplina e uma porta para a liberdade
A oportunidade não é automática. Para sair diariamente do presídio e trabalhar, o apenado precisa cumprir critérios de comportamento e disciplina. A direção da unidade acompanha a evolução de cada interno antes de conceder benefícios.
O diretor do Presídio Regional de Criciúma, Júnior Rodrigo Fagundes, considera o trabalho uma das principais ferramentas de preparação para a liberdade.
“O trabalho é a solução para muitos problemas no sistema prisional. Para trabalhar, o preso precisa manter um histórico de bom comportamento, o que ajuda na ordem e na segurança da própria unidade. Além disso, a cada três dias trabalhados, abate-se um dia da pena. Isso dá perspectiva ao interno e reduz a massa carcerária para o Estado”, revela.
Gustavo viveu esse processo de perto. Ele explica que os anos de bom comportamento, os estudos e o trabalho contribuíram para a progressão de regime e para a conquista de novos benefícios.
“O preso quer alguma coisa imediata. Porque quando os anos passam lá dentro, realmente é muito difícil. O tempo lá dentro é muito diferente e as coisas lá dentro são iguais todos os dias”, pensa. No seu caso, a remição foi construída com trabalho, leitura e estudo.
“Eu li mais de 60 livros, eu fiz o primeiro e segundo grau, que a gente também ganha dias de remissão. Eu consegui mais de dois anos em remição. Tudo com esses trabalhos”, acrescenta.
Os números do Segunda Chance
O projeto Segunda Chance reúne diferentes frentes de trabalho para pessoas privadas de liberdade em Criciúma e municípios da região. Atualmente, cerca de 400 homens estão envolvidos em atividades de trabalho, entre vagas vinculadas à Prefeitura, empresas e outros parceiros. Em Criciúma, 27 apenados do regime semiaberto atuam diretamente pelo projeto. Em Forquilhinha, são outros três.
Além das atividades externas, há 21 pessoas trabalhando em cozinha e padaria dentro do sistema prisional e outras 28 em serviços de manutenção e construção. No trabalho com empresas, são 53 apenados distribuídos entre a TotalPlast e a ESAF Esquadrias, em Urussanga.
O trabalho é remunerado com um salário mínimo. Desse valor, 30% são destinados ao fundo penitenciário, 30% ficam reservados em uma poupança para o período posterior à saída do sistema e 40% podem ser utilizados pelo trabalhador e pela família. O programa também permite a remição da pena: a cada três dias trabalhados, um dia da condenação é reduzido, conforme as regras aplicáveis.
O salário que vira uma reserva para o recomeço
O trabalho também produz uma consequência que vai além da rotina: dinheiro guardado para o momento em que a liberdade chegar.
No modelo adotado pelo projeto, o pagamento é dividido entre diferentes finalidades. Parte é destinada ao custeio do sistema prisional, outra é depositada em uma poupança para o momento da saída e o restante pode ser utilizado pelo trabalhador e pela família.
Dilberto Carlos Oliveira passou dois anos e meio no sistema prisional e ficou entre oito e nove meses no Segunda Chance. Ao sair, encontrou uma reserva financeira construída durante o período de trabalho.
“Eu saía com um troco pra gastar com a família e pra poder voltar pro presídio, e o restante quando a gente sai do presídio. Saí com R$ 5 mil”, comenta.
O dinheiro, porém, não resolve o principal problema de quem deixa o sistema prisional: ser aceito novamente.
“Graças a Deus hoje já tô trabalhando, recomeçando do zero. Mas o mais difícil, é o pessoal aceitar a gente, para você voltar para a sociedade”, desabafa.
A “motinho” e o que existe depois do portão
Dilberto hoje trabalha com limpeza urbana. Antes disso, passou pelo Segunda Chance e construiu uma relação próxima com Branco e com um dos encarregados da equipe, Seu João.
Depois de deixar o projeto, recebeu ajuda para conseguir um novo emprego. A conquista seguinte foi uma motocicleta. "Eu devo muito favor a eles, porque eles me ajudaram bastante. O seu João fez de tudo por mim, eu tô empregado hoje, graças a Deus não ganho tão mal, e tenho minha motinho 0km”, se emociona.
A motocicleta pode parecer um detalhe diante de uma história de anos de prisão. Para Carlos, não é. Ela representa autonomia. É uma coisa concreta que pode ser comprada com o dinheiro de um trabalho honesto. É também uma espécie de prova de que existe vida depois do cárcere.
Mas a saída não significa que a luta acabou. Para progredir para o regime aberto, o apenado deve conseguir um emprego em dois meses, sob risco de regressar ao presídio.
“É difícil, gente, tu conseguir trabalhar. Tu sai do presídio, a juíza te dá 60 dias pra trabalhar e comprovar. Em 60 dias, se não trabalhar, tu volta pro presídio”, conta.
O prazo torna ainda mais pesada a barreira do preconceito. A pessoa deixa a prisão com a necessidade de conseguir um emprego, mas carrega consigo justamente a informação que pode fazer uma empresa fechar a porta.
“Todo mundo erra, mas a gente só quer uma chance para trabalhar e recomeçar”, conclui.
Quando a oportunidade vira profissão
A mesma lógica aparece na Penitenciária Feminina de Criciúma.
Durante quatro anos e 11 meses no regime fechado, Lívia* (nome fictício) trabalhou diariamente dentro da unidade. Quando progrediu para o semiaberto, passou a atuar na jardinagem pelo município. Depois, encontrou uma oportunidade diferente: um convênio com a indústria têxtil Ufo Way.
No setor de acabamento, aprendeu a profissão de passadeira. A dedicação chamou a atenção da empresa e, depois de cumprir a pena, ela foi contratada formalmente.
Hoje, além de trabalhar na função, Lívia ocupa outro papel: é “madrinha” de novas trabalhadoras. Recebe quem chega, ensina o ofício e acompanha os primeiros passos de outras mulheres que estão percorrendo um caminho semelhante.
“Eu percebi que precisava mudar de vida, aproveitei todas as oportunidades que tive. Queria trabalhar, me esforçar e mudar a minha realidade”, diz.
A trajetória também mudou a maneira como ela enxerga o próprio passado.
“Eu confio muito em Deus e sabia que o meu bom comportamento me abriria portas. A gente está aqui porque errou no passado, mas agora é tempo de recomeçar e fazer tudo diferente”, avalia.
Na Ufo Way, são 104 mulheres do regime fechado e outras 45 do semiaberto. A parceria com a empresa começou em 2018, com uma unidade de acabamento de peças em jeans instalada dentro do sistema prisional, onde cerca de 100 mulheres trabalham em dois turnos. Desde 2022, as internas do semiaberto passaram a atuar diretamente na fábrica. Ao todo, 18 mulheres já foram efetivadas pela empresa, quatro delas permanecendo atualmente no quadro.
Para as mulheres, o trabalho também é uma forma de recuperar a identidade
Na unidade feminina, o trabalho representa renda, capacitação e preparação para a saída. Mas existe um obstáculo que permanece quando a pena termina: o preconceito.
Virginia Gabriela Gonzales, diretora da unidade, afirma que essa é uma das principais dificuldades enfrentadas pelas mulheres.
“A maior dificuldade que a mulher enfrenta ao cumprir a pena é conseguir uma colocação no mercado devido ao preconceito. Quando parcerias abrem as portas, elas aprendem uma profissão, juntam dinheiro e percebem que são capazes de ter o próprio sustento sem voltar a cometer erros”, conta.
A Ufo Way mantém convênio com o sistema prisional desde 2018. Dentro da unidade, mulheres trabalham na produção e no acabamento de peças. No regime semiaberto, outras deixam diariamente o presídio para atuar na fábrica.
“Entendemos que é mais que uma atividade profissional, pois o trabalho representa autonomia, responsabilidade e pertencimento. É uma oportunidade que elas têm de ressignificar as experiências e se preparar para o novo começo. O trabalho dignifica, inclui e pode ser o primeiro passo para uma nova trajetória”, afirma Josiane Scussel, gerente de RH da Ufo Way.
Virginia destaca que a experiência profissional não termina necessariamente com o convênio.
“Elas aprendem uma profissão e depois podem inclusive montar o próprio negócio. No entanto, a maior dificuldade enfrentada quando cumprem a pena ainda é conseguir um emprego no mercado formal devido ao preconceito. Aqui mostramos que elas podem sim voltar a ter uma vida normal, inclusive elas usam uniformes da empresa como qualquer funcionário”, adiciona.
Uma segunda chance não apaga o passado, mas escreve um novo futuro
Existe uma diferença importante entre ressocializar e apagar o que aconteceu. O Projeto Segunda Chance não transforma todos os participantes em histórias de sucesso. Há quem não cumpra as regras, quem abandone o trabalho e quem volte a cometer crimes. Branco conhece esses casos e faz questão de não esconder essa parte da realidade.
Para ele, contar apenas as histórias positivas seria tão equivocado quanto reduzir todos os participantes aos crimes que cometeram.
A experiência de Gustavo ajuda a explicar essa diferença. Ele não nega o passado. Fala sobre ele como algo que precisa ser enfrentado, mas não necessariamente como uma sentença para o resto da vida.
O sistema prisional, na visão dele, pode ser um lugar de punição, mas também precisa oferecer caminhos para quem demonstra disposição para reconstruir a própria trajetória.
“Muitas vezes as pessoas pensam: ‘Ah, é preso, tem que estar lá preso, não pode dar oportunidade’. Só que, se não der oportunidade pro preso ou pra aquela pessoa que tá ali, nunca vai ter como mudar”, analisa o coordenador.
É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas sobre quem está ou esteve atrás das grades. Ela passa a alcançar quem está do lado de fora.
O desafio que começa quando a pena termina
A liberdade é o objetivo. Mas também pode ser o momento mais difícil. Dentro do sistema, existem regras, rotina, trabalho, estudo e acompanhamento. Do lado de fora, a responsabilidade volta a ser quase integralmente individual. É preciso encontrar emprego, reorganizar a família, lidar com o dinheiro, reconstruir relações e enfrentar o olhar de quem conhece o passado.
Dilberto resume a dificuldade em uma palavra: aceitação. “O ruim é voltar pra vida real, o pessoal nos aceitar. A gente errou, mas a gente se arrepende do que fez, a gente quer voltar pra sociedade, espero que a sociedade entenda”, desabafa.
E há uma contradição difícil de ignorar: a sociedade cobra que quem cumpriu pena não volte a cometer crimes, mas, muitas vezes, fecha as portas justamente quando essa pessoa tenta encontrar uma forma legítima de sobreviver.
Branco conhece esse conflito porque já esteve dos dois lados. Para ele, o debate sobre segurança não pode começar apenas depois que o crime acontece.
“Parece que é muito mais cômodo investir em segurança do que na educação, lá na raiz do problema. Depois sai correndo ali desesperado, porque na segurança nós temos que contratar mais polícia, nós temos que fazer mais Guarda Municipal, nós temos que fazer mais isso, tudo isso por falta de ver o problema na raiz, lá no seio da família”, reflete.
O que significa recomeçar
No fim, uma segunda chance não é um prêmio. Não significa esquecer o crime, negar a responsabilidade ou ignorar as vítimas. Significa admitir que uma pena tem um fim e que, depois dela, existe uma escolha que também interessa à sociedade: o que fazer com a pessoa que está voltando.
Em Criciúma, essa resposta passa por uma enxada, uma máquina de pavimentação, uma máquina de costura, uma sala de aula, uma biblioteca, um salário guardado e, principalmente, uma porta aberta.
Para alguns, o recomeço começa no momento em que recebem o uniforme de trabalho.
Para outros, começa quando conseguem comprar alguma coisa com o próprio dinheiro.
Para Gustavo, começou muito antes, ainda dentro da prisão, quando decidiu que os anos atrás das grades não seriam os únicos anos de sua vida.
E, para quem ainda está dentro do sistema, talvez a primeira mudança seja simplesmente levantar a cabeça.
“Então mesmo retornando para o sistema prisional, eu provei para mim mesmo e para as outras pessoas que quem quer realmente consegue mudar”, conclui Gustavo. "Eu lutei contra mim todos os dias, completei meus estudos e hoje em dia a minha vida está indo para frente também", finaliza.
A segunda chance, afinal, não termina quando o portão do presídio se abre. É justamente ali que ela começa.
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