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Quando o eleitor vira soldado

Nikolas Ferreira e André Janones mostram como a disputa pela Presidência se transformou em uma batalha por engajamento e pertencimento

Por Laércio Menegaz Jr Criciúma, SC, 24/10/2026 - 10:09 Atualizado há meio minuto
Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados/Bruno Spada/Câmara dos Deputados
Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados/Bruno Spada/Câmara dos Deputados

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A eleição presidencial será decidida no domingo, mas as campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro já têm dois personagens que disputam o protagonismo fora da urna. Curiosamente, os dois são mineiros, deputados federais e especialistas em transformar seguidores em militantes: Nikolas Ferreira e André Janones.

De um lado, a “Tropa do Flávio”. Do outro, o “Exército do Lula”. O vocabulário militar não apareceu por acaso. Nos dois campos, a comunicação deixou de pedir apenas apoio e passou a distribuir missões. O eleitor é convocado a compartilhar, comentar, ocupar as ruas, defender uma bandeira e combater a narrativa adversária. A lógica é de mobilização permanente.

Nikolas chega  a esta reta final com uma força eleitoral impressionante. Reeleito deputado federal com mais de 3,1 milhões de votos, tornou-se o mais votado da história para o cargo. Nas redes, o alcance é ainda maior. Levantamento do Instituto Democracia em Xeque mostrou que seu engajamento cresceu mais de 514% na passagem do primeiro para o segundo turno, somando 50,7 milhões de interações no período analisado.

Janones não tem a força política de Nikolas. Longe disso. Mas deu novo ritmo à comunicação de Lula no segundo turno. O canal “Exército do Lula”, no WhatsApp, ganhou milhões de integrantes em poucos dias e passou a funcionar como uma central de convocação digital. No mesmo levantamento, o engajamento do deputado cresceu quase 272%, com 23 milhões de interações. Até a abertura recorrente de seus vídeos — “Pessoal, urgente!” — virou meme. E, nesta eleição, o meme também é ferramenta de campanha.

Os números ajudam a explicar a importância dos dois. Mas há uma diferença essencial: interação não é voto. Uma postagem pode circular milhões de vezes entre pessoas que já estão convencidas. Ainda assim, o engajamento sustenta o entusiasmo da base, amplia o alcance das mensagens e pode fazer alguém sair de casa para votar. Em uma disputa apertada, essa capacidade conta muito.

A movimentação mais interessante, porém, está fora das telas. Janones ajudou a reacender uma militância petista que parecia menos presente durante boa parte do governo. A esquerda voltou a ocupar grandes atos de rua.

No campo adversário, Nikolas participa de uma operação semelhante, só que em outra direção. O “Bloquinho do 22” levou a campanha de Flávio a cidades do Norte e do Nordeste com trio elétrico, música e estética de carnaval. Em vez de reproduzir apenas a imagem tradicional dos atos bolsonaristas, a direita procura falar a linguagem de uma região historicamente decisiva para Lula.

Perceba a inversão: a esquerda tenta recuperar as ruas e cores nacionais; a direita incorpora a festa de rua nordestina. São movimentos de ocupação do território simbólico do adversário. A intenção é comunicar que o eleitor que antes se identificava com o outro lado também pode encontrar lugar neste grupo.

É aí que aparece uma das principais características da política brasileira desde a virada de 2018. Campanhas não disputam somente a avaliação do governo, o desempenho da economia ou a comparação de propostas. Disputam identidades. Para uma parcela do eleitorado, a pergunta “a qual grupo eu pertenço?” passou a ter tanta força quanto “quem pode governar melhor?”. E as redes sociais são especialmente eficientes em reforçar essa identidade.

As duas campanhas sabem que grande parte do eleitorado já chega ao segundo turno com uma convicção formada. Por isso, dedicam tanta energia a validar sentimentos, manter a torcida em movimento e levar os próprios apoiadores às urnas. Convencer o indeciso continua importante, mas impedir a desmobilização dos convencidos também pode decidir uma eleição.

Nikolas e Janones compreenderam essa lógica e a executam com enorme habilidade, cada um à sua maneira. O êxito de suas estratégias, entretanto, não deveria nos fazer confundir popularidade digital com qualidade do debate público. É possível vencer a guerra da atenção e deixar em segundo plano a discussão sobre os problemas reais do país.

No domingo, um dos lados vencerá a eleição. As tropas vão comemorar ou lamentar, e os comandantes políticos colherão os dividendos de sua influência.

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