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Primeiro debate entre Lula e Flávio Bolsonaro: por ora, nenhum fato novo

Por Artur Fabro 19/10/2026 - 07:00 Atualizado há meio minuto

Foi preciso esperar até a última semana da campanha para ver Lula e Flávio Bolsonaro frente a frente. Durante todo o primeiro turno, os dois líderes das pesquisas fugiram dos debates. O único realizado na TV, pela Band, em 23 de agosto, reuniu Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury; Romeu Zema desistiu horas antes.

A Globo cancelou o seu, previsto para 1º de outubro: Lula já havia decidido não ir, e Flávio desistiu horas antes, acusando o TSE de "censura". A Record e o consórcio de veículos também desmarcaram os seus, no primeiro e no segundo turno, por falta de confirmação ou por "incompatibilidade de agendas".

Os embates da noite

O formato do debate da Band previa dois blocos de confronto direto, o primeiro e o terceiro, com tema livre e tempo administrado pelos próprios candidatos. No primeiro, cada um dispunha de um banco de 15 minutos para usar como quisesse. Pessoalmente, considero essa parte do formato exagerada e culpada pela quantidade de análises posteriores que consideraram o debate muito raso e, em certas partes, beirando a baixaria.

Mesmo assim, selecionei quatro momentos que considerei relevantes: dois pelo conteúdo, nos quais houve apresentação de propostas, e dois pela repercussão, entre os mais polêmicos da noite.

Pelo conteúdo

  • Na segurança pública, tema da primeira pergunta dos mediadores, que citava as 40.775 mortes violentas do ano anterior, Flávio prometeu classificar PCC, CV e milícias como organizações narcoterroristas: “Vou declarar guerra ao narcoterrorista”. Também defendeu penas mais duras e a criação de mais de 500 mil vagas em presídios. Lula defendeu a atuação conjunta de União, estados e municípios e a criação de um Ministério da Segurança Pública, cobrou de Flávio apoio à PEC da Segurança e citou a lei antifacção aprovada em seu governo.
  • Na saúde, Flávio anunciou Claudio Lottenberg, ex-presidente do Hospital Albert Einstein, como futuro ministro e prometeu “padrão Einstein no SUS”, com prontuário eletrônico único, telemedicina e inteligência artificial para reduzir as filas. Lula perguntou se a proposta significava privatizar o sistema e lembrou os 716 mil mortos da pandemia. Flávio reconheceu que “a saúde não foi uma área que tivemos o melhor resultado” no governo do pai e lembrou que a vacina tomada por Lula foi comprada por Bolsonaro.

Pela repercussão

  • Questionado por Lula sobre a defesa de um policial militar acusado de matar uma criança de cinco anos, Flávio respondeu citando o voto nos presídios, onde votam presos provisórios: “Quase 100% dos presos perigosos votaram em você”. Lula rebateu com uma referência a Jair Bolsonaro, que cumpre em prisão domiciliar a pena de 27 anos e 3 meses pela trama golpista: “Que vote 100%, até teu pai”.
  • Em outro momento, Lula perguntou onde seria feito o “tesouraço”, o corte de gastos proposto por Flávio. “Nas suas viagens com a Janja. R$ 7 milhões que você já gastou com a Janja”, respondeu o senador. Lula o chamou de “malandro carioca, que finge que não finge e mente descaradamente”; no bloco seguinte, Flávio se solidarizou com os moradores do Rio “que foram chamados de malandros”.

O tabuleiro, pra mim, continua o mesmo

Um debate só vira fato novo quando tem potencial para mexer com dois grupos: os que ainda estão indecisos, um contingente aparentemente pequeno, pelo que mostram as últimas pesquisas, e os que pensam em se abster no segundo turno, cerca de 20% a 21% do eleitorado nas últimas eleições presidenciais. 

Esses eleitores dificilmente se movem com uma troca de acusações como a que vimos ontem. O mais provável é que debates como esse reforcem a sensação de que nenhum dos dois candidatos merece o voto.

Debates raramente decidem eleições no Brasil; a exceção sempre lembrada é 1989, quando a edição do último confronto entre Collor e Lula, exibida no Jornal Nacional, ficou marcada como decisiva. Sem um episódio dessa magnitude, o debate da Band só confirmou o que as pesquisas já mostravam: uma eleição decidida mais pela rejeição ao adversário do que pela adesão ao próprio candidato.

Por ora

A não ser que as pesquisas desta semana nos mostrem o contrário sobre os efeitos do debate de ontem, resta-nos o debate da Globo, na sexta-feira (23), logo depois do Jornal Nacional. Tradicionalmente o de maior audiência, será também o último antes da votação.

Até lá, fato novo, se houver, tende a continuar vindo das fontes que já conhecemos.

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