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O calor que se passa nos ônibus

A nada mole vida dos passageiros do transporte público em Criciúma
Por Émerson Justo Criciúma - SC, 04/02/2019 - 09:40
Daniel Búrigo / A Tribuna
Daniel Búrigo / A Tribuna

O verão de 2019 está sendo um dos mais quentes dos últimos anos. Na última quarta-feira, a Estação Meteorológica do Iparque, no bairro Sangão, registrou a temperatura de 40,1°, a mais alta em Criciúma desde dezembro de 2017. O climatologista da Epagri, Márcio Sônego, conta que o diferencial deste ano está sendo a sequência de dias com temperaturas acima dos 35°. A previsão para fevereiro é que a sucessão não se repita por tanto tempo, mas os dias quentes continuarão presentes na vida dos criciumenses.

Com as temperaturas elevadas, a população sofre ao sair na rua ou ficar em ambientes que não são climatizados. Entre essas pessoas, estão os usuários do transporte coletivo de Criciúma, já que os veículos não possuem ar condicionados. Diante do elevado número de passageiros no mesmo ônibus, a situação fica ainda mais complicada.

A reportagem de A Tribuna embarcou em um ônibus troncal, um dos amarelinhos – que são os mais modernos de Criciúma – em circulação pela Avenida Centenário. Era tarde de sexta-feira e fazia mais de 30 graus. A aposentada Margarida Mendes, moradora do Bairro São Luiz, utiliza o ônibus diariamente. Na tentativa de amenizar o calor, ela anda sempre com um leque de tecido para se abanar. “Em dias quentes é horrível. As pessoas têm que ir e voltar do trabalho passando calor. Já chega no local todo suado e fedendo. Os ônibus são super cheios, daí fica muito quente mesmo. Esta é uma forma que tenho de tentar me refrescar, mas mesmo assim é bravo”, fala.

Na avaliação dos passageiros, a tarifa é cara

Para o pedreiro Sidnei Patrício Oliveira, pelo valor que é cobrado pela passagem, os veículos deveriam ser equipados com aparelhos de ar condicionado. A tarifa de ônibus em Criciúma é um das mais caras em Santa Catarina. Se comprada antecipadamente pelo cartão eletrônico Criciumacard Cidadão, a passagem custa R$ 3,90. Na catraca, o valor é de R$ 4,25. “Além de ser caro, não temos conforto. Se fosse algo bom, justificaria o preço. Com as lotações, ainda temos que ficar de pé, o que piora ainda mais a situação, já que cansa mais”, comenta.

Oliveira ainda alerta o perigo de pessoas com idades mais avançadas. “Em horários de pico, fica insuportável dentro do ônibus. Para as pessoas idosas, é mais difícil ainda. Com o abafamento, elas podem ter um infarto em dois toques”, afirma.

As altas temperaturas aumentam a espessura do sangue, fazendo subir a pressão e a frequência cardíaca, o que eleva o risco de problemas. Para quem sofre com colesterol alto, hipertensão arterial ou pressão alta, a ameaça é ainda mais grave.

As artimanhas dos passageiros

A dona de casa Sirlei Demétrio conta que para evitar problemas sempre leva uma garrafa de água. “Como já sei que não tem ar condicionado nos ônibus e é muito quente, não saio sem. Sempre carrego para me manter hidratada, é preciso para não ter nenhuma complicação”, ressalta. Já a estratégia adotada pela doméstica Tarcísia Vitali é carregar uma toalha. “Não pode faltar neste calor. A situação no transporte público é crítica, então, uso para estar sempre secando o suor. Ajuda um pouco”.

O aposentado Manoel Pereira de Aguiar tem carro, mas resolveu usar o transporte público para ir até o Centro. Porém, ele conta que se arrependeu. “É bem complicada a situação. Moro no Bairro Mãe Luzia e estou há mais de uma hora no calor esperando para ir embora. Quem tem carro não está valendo a pena andar de ônibus. Se tivesse ar condicionado seria bom, talvez valesse a pena. Só imagino quem já vem cansado do trabalho, com um calor desses cansa mais ainda”, reflete.

ACTU sem previsão de investir

Os ônibus do transporte coletivo de Criciúma não possuem ar condicionado, somente sistema de ventilação. Para ter um ambiente climatizado nos locais, precisaria ser feita a instalação dos equipamentos. Segundo o analista Financeiro da Associação Criciumense de Transporte Urbano (ACTU), Vilson Amaral, a parte operacional do órgão desconhece alguma ideia de efetivar esse investimento.

“Neste calor muito se comenta sobre ar condicionado, mas a diretoria da ACTU não nos passou nada a respeito até o momento. Nós somos delegados pelo poder público, pela DTT, se vir a acontecer alguma coisa, eles que vão estar solicitando e conversando com a diretoria. Se os diretores estão pensando em algo a respeito ou conversando com a DTT, nós da parte operacional ainda não fomos informados. Todas as decisões partem deles, não de nós, apenas executamos o que eles ordenam. Se existe esta conversa, até o momento não temos esta informação”, salienta.

Todo o custo do serviço de transporte coletivo de Criciúma é pago pelos usuários do sistema. Se o Município obrigasse as empresas concessionárias a instalar ar condicionado e mantê-los ligados, haveria impacto na tarifa, a não ser que houvesse um subsídio da Administração Municipal. Para saber o valor do acréscimo da passagem, necessitaria de um estudo de viabilidade, que entre as informações necessárias, precisaria conhecer o preço das instalações. “Como não estamos a par da situação, não tenho a mínima ideia do quanto custa isto por carro”, reitera Amaral.

Anos atrás foi feito um processo licitatório para a renovação da frota de ônibus, e equipar os carros com os aparelhos de ar condicionados era um dos itens exigidos. Porém, o certame não teve andamento. Nesta época foi realizada uma consulta pública para saber se os usuários concordavam com um acréscimo na tarifa para ter climatização nos ônibus, mas a ideia foi rejeitada. Entretanto, neste período houve o surto da gripe influenza H1N1, o que fez com que as pessoas optassem por manter os vidros abertos para circulação de ar.

Muito calor pelo Brasil

Em Florianópolis, janeiro veio com 72 novos ônibus para os usuários, 11 deles com ar condicionado. Mas ainda está longe de a maioria dos 550 carros estarem servido com a necessária melhoria. Na Capital, a tarifa básica está em R$ 3,80.

Em Porto Alegre, apenas 37% dos 1.620 ônibus em circulação contam com ar condicionado. Na capital gaúcha a passagem custa a partir de R$ 4,30. Em São Paulo, 70% dos 14,3 mil ônibus que circulam não contam com climatização, e a passagem custa a partir de R$ 4,30. No Rio de Janeiro, 54% dos 7 mil ônibus circulantes não são equipados com ar, e a tarifa custa a partir de R$ 3,95.