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Reportagem Especial

Entre recomeços e oportunidades: imigrantes transformam o mercado de trabalho em SC

Número de estrangeiros no estado saltou de 11,6 mil para 72,7 mil entre 2010 e 2022

Por Lucas Mackowieski Criciúma, SC, 08/09/2026 - 09:32 Atualizado há 9 segundos
Trabalhadores estrangeiros já ocupam diferentes funções em empresas catarinenses | Foto: Lucas Mackowieski/4oito
Trabalhadores estrangeiros já ocupam diferentes funções em empresas catarinenses | Foto: Lucas Mackowieski/4oito

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Em um estado onde grande parte da população tem raízes estrangeiras, principalmente europeias, Santa Catarina tem se consolidado, nos últimos anos, como um dos principais destinos de quem deixa para trás o lar, os amigos e a família em busca de uma nova vida. A diferença agora está em quem chega. Se, no passado, italianos, alemães, poloneses e outros povos atravessaram o oceano para começar uma história por aqui, hoje são venezuelanos, cubanos, haitianos e pessoas de outras nacionalidades que cruzam fronteiras em busca de oportunidades.

O movimento aparece nos números. Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, Santa Catarina tinha 11.671 estrangeiros vivendo no estado. Em 2022, eram 72.793. Considerando também os brasileiros naturalizados, o número passou de 17.623 para 83.708 no mesmo período. A participação desse grupo na população catarinense também cresceu: de 0,28% para 1,10%.

A chegada de estrangeiros acontece ao mesmo tempo que Santa Catarina enfrenta outro movimento populacional e econômico importante: o estado tornou-se o principal destino de migrantes de outras partes do Brasil e vem convivendo com uma demanda crescente por trabalhadores em diferentes setores.

Entre 2017 e 2022, 503.580 pessoas que viviam em outros estados passaram a morar em Santa Catarina. No caminho inverso, 149.230 deixaram o território catarinense. O resultado foi um saldo positivo de 354.350 moradores, o maior do país no período.

É nesse cenário que duas necessidades se encontram. De um lado, pessoas que deixam seus países carregando formação, experiências e a necessidade de reconstruir a própria vida. Do outro, empresas que procuram trabalhadores para manter suas operações e, cada vez mais, começam a enxergar nos estrangeiros algo que vai além do preenchimento de uma vaga.

Para alguns, a primeira oportunidade pode estar longe da profissão exercida no país de origem. O diploma pode ficar guardado, o idioma pode ser uma barreira e até mesmo entregar um currículo pode parecer um desafio. Mas o primeiro emprego também pode representar o começo de uma trajetória completamente diferente.

Do diploma na Venezuela à liderança em Santa Catarina

Antes de chegar ao Brasil, Luís Felipe Rodriguez tinha uma rotina profissional diferente da atual. Nascido na Venezuela e formado em Educação Física, com especialização em educação para pessoas com necessidades especiais, ele trabalhava em uma escola de ensino fundamental e médio em seu país.

A decisão de deixar a Venezuela veio diante da piora da situação econômica e política. De acordo com Luís, adquirir até os produtos mais básicos da cesta básica havia se tornado cada vez mais difícil. A busca por melhores condições para a família, especialmente para a filha, pesou na escolha de recomeçar em outro país.

Luís enfrentou dificuldades com o idioma e hoje ocupa uma posição de liderança | Foto: Especial 4oito

O Brasil apareceu como uma possibilidade por causa de familiares da esposa e também pela percepção de que a economia brasileira oferecia mais estabilidade. Mas chegar até aqui não foi simples. A viagem, feita com a esposa e a filha pequena, durou cerca de três dias até a fronteira. No caminho, a família precisou alternar entre ônibus, vans e caminhadas por trechos interrompidos por barreiras militares na Venezuela.

Foram necessárias várias trocas de transporte até que a família conseguisse chegar ao Brasil. A chegada aconteceu durante a noite, por volta das 22h. A família precisou passar a noite em uma quadra de futebol e, no dia seguinte, iniciou o processo de obtenção dos documentos necessários para entrar legalmente no país.

Foram cerca de seis dias até a conclusão dos trâmites, em um período em que, segundo ele, havia mais de mil famílias aguardando atendimento. A experiência marcou o início de uma nova etapa. Também foi ali que apareceu uma das primeiras barreiras que Luís precisaria enfrentar: a língua.

“Foi difícil nos adaptar a um idioma diferente”, conta.

Luís sabia que o português era a língua falada no Brasil, mas acreditava que a proximidade com o espanhol tornaria a adaptação mais simples. Na prática, não foi assim. A dificuldade com o idioma somou-se à procura por trabalho.

Durante mais de uma semana, ele percorreu estabelecimentos em busca de uma oportunidade. Em uma das tentativas, chegou a passar algumas vezes em frente ao Bistek Supermercados. Algumas pessoas disseram que ele não deveria entregar o currículo porque, por ser estrangeiro e não falar português, provavelmente não seria chamado. Mesmo assim, decidiu tentar.

Antes disso, chegou a trabalhar em uma academia por algumas semanas, aproveitando a experiência como profissional de Educação Física e personal trainer. Depois, entregou o currículo no supermercado e conseguiu uma entrevista.

A oportunidade que começou no açougue acabou levando-o a outro caminho. Luís participou de programas de trainee dentro da empresa e avançou profissionalmente até chegar ao cargo de gerente. A trajetória contrasta com o período em que caminhava pelas ruas à procura do primeiro emprego e representa, para ele, o processo de reconstrução iniciado depois de deixar a Venezuela.

Luís deixou a Venezuela com a família e encontrou no Brasil uma oportunidade para reconstruir sua trajetória profissional | Foto: Especial 4oito

“Minha decisão foi buscar um futuro melhor para minha família, em especial para minha filha”, explica.

Hoje, ele vive no Brasil com a esposa e a filha, enquanto a mãe e os irmãos continuam na Venezuela. A distância da família faz parte do preço de uma mudança que, para Luís, significou começar praticamente do zero.

“Sair de um país significa recomeçar do zero em outro país”, resume.

De Cuba a Criciúma: uma nova vida em 14 horas

A trajetória de Luís não representa apenas uma mudança de profissão. Ela também ajuda a mostrar uma característica da presença estrangeira no mercado de trabalho: a chegada nem sempre ocorre diretamente em uma função compatível com a formação obtida no país de origem.

Nesse contexto, compreender as regras do mercado local e construir uma rede de contatos é fundamental. Em alguns casos, o primeiro emprego está distante da experiência acumulada durante anos no país de origem. Ainda assim, a primeira oportunidade pode abrir espaço para outras.

Foi o que aconteceu com Emmanuel Rodrigues Ruiz, cubano que vive em Criciúma há cerca de dois anos e trabalha como operador de máquinas na Plasson do Brasil.

A trajetória de Emmanuel até Santa Catarina, porém, começou antes mesmo da decisão de deixar seu país. Nascido em Cuba, ele passou cerca de dois anos no Uruguai antes de decidir vir para o Brasil. A escolha de procurar outro destino foi motivSquanda, principalmente, pela situação econômica que, assim como na história de Luís, tornava a vida cotidiana cada vez mais difícil.

“A principal razão foi a economia. Nosso país estava muito mal e começou a ficar sem comida”, destaca.

Emmanuel conta que, em determinado momento, o salário mensal já não era suficiente para comprar produtos básicos. Para complementar a renda, fazia trabalhos como motorista de aplicativo e prestava outros serviços. O que ganhava em um único dia de trabalho extra, segundo ele, já representava uma parcela significativa do salário mensal que recebia em Cuba.

Imigrantes em SC encontram no trabalho mais do que uma oportunidade | Foto: Lucas Mackowieski/4oito

Foi nesse contexto que surgiu a possibilidade de vir para o Brasil. A escolha por Santa Catarina tornou-se definitiva quando uma tia que morava em Criciúma falou sobre as oportunidades existentes e ajudou a aproximá-lo do destino.

A mudança aconteceu de maneira diferente daquela vivida por Luís. Emmanuel saiu do Uruguai de ônibus até a fronteira e, depois, seguiu de carro para Porto Alegre e, posteriormente, para Criciúma. No total, foram cerca de 14 horas de viagem.

Quando chegou à cidade, encontrou um cenário que chamou sua atenção: obras, empresas e novos estabelecimentos que, na percepção dele, indicavam demanda por trabalhadores.

“Quando cheguei aqui em Criciúma, falavam muito que havia muitas oportunidades de trabalho, e eu percebi isso assim que comecei a procurar emprego”, conta.

O emprego veio rapidamente. Depois de providenciar a documentação necessária, Emmanuel começou a trabalhar cerca de duas semanas mais tarde. Hoje, atua na operação de máquinas em uma empresa na qual a inclusão de imigrantes é levada a sério.

O idioma, que poderia representar um dos principais obstáculos, também foi superado rapidamente. Emmanuel estima que levou entre três e quatro meses para compreender e falar português com maior facilidade.

“Peguei rápido, graças a Deus. Por isso, consegui trabalhar rápido também”, explica.

A adaptação, segundo ele, foi tranquila. Hoje, a vida construída em Criciúma inclui trabalho fixo, casa e família. Há quatro meses, Emmanuel também se casou com uma venezuelana. O novo vínculo criado com o país não lhe proporcionou apenas oportunidades de trabalho e uma nova vida, mas também trouxe amor e felicidade.

“Já casei com uma venezuelana, então agora já é fixo. Não tem como sair mais”, brinca.

A mão de obra que chega de outros países

As histórias de Luís e Emmanuel acontecem em setores diferentes, mas encontram um ponto em comum: o trabalho foi parte fundamental do processo de reconstrução da vida depois da imigração. Para as empresas, porém, a presença desses profissionais também responde a uma necessidade cada vez mais evidente em Santa Catarina.

O diretor-geral da Plasson do Brasil, Franke Hobold, acompanha esse movimento dentro da própria empresa. De acordo com ele, a presença de trabalhadores estrangeiros em Santa Catarina tornou-se mais perceptível nos últimos anos e passou a contribuir para enfrentar a dificuldade de encontrar mão de obra.

Empresas catarinenses passaram a incorporar trabalhadores estrangeiros em diferentes áreas | Foto: Lucas Mackowieski/4oito

Conforme Hobold, a Plasson conta atualmente com trabalhadores de diferentes nacionalidades, distribuídos em cargos que vão da produção de materiais a funções de maior responsabilidade. A empresa possui cerca de 900 funcionários, dos quais aproximadamente 15% são imigrantes ou pessoas que não nasceram em Santa Catarina. Para o diretor, a contratação desses profissionais ajuda a enfrentar um problema que já vinha sendo sentido pelas empresas catarinenses.

“Essas pessoas vieram para amenizar um problema muito grande com a mão de obra que Santa Catarina tem enfrentado nos últimos anos”, destaca.

A questão, no entanto, não se resume à quantidade de trabalhadores disponíveis. Hobold observa que Santa Catarina também passou a atrair profissionais estrangeiros que chegam com formação e experiência e procuram novas possibilidades de trabalho e de vida.

“Acredito que nosso estado cresceu com a presença dos imigrantes”, enfatiza.

A percepção do empresário acompanha uma transformação que pode ser observada nos números do IBGE. Em 2022, Santa Catarina tinha 83.708 estrangeiros e brasileiros naturalizados. Em 2010, eram 17.623. O número de estrangeiros, isoladamente, passou de 11.671 para 72.793 no mesmo intervalo.

Não se trata apenas de um crescimento populacional. Para as empresas, o aumento também representa uma mudança no perfil da mão de obra disponível.

“A imigração é importante para o nosso desenvolvimento, e isso tem se mostrado evidente à medida que cada vez mais pessoas, estrangeiras ou não, vêm para cá em busca de uma vida melhor”, destaca Hobold.

Quando contratar também significa acolher

Na rede de supermercados onde Luís construiu a carreira, a discussão sobre a contratação de estrangeiros também passou a ganhar outro significado.

De acordo com Camila Pastorini, diretora de Recursos Humanos do Bistek, a empresa começou, em 2022, a olhar de maneira mais estruturada para os imigrantes que chegavam em busca de emprego. A percepção era de que não bastava contratar. Também era necessário entender como receber e integrar essas pessoas.

Luís Felipe encontrou no Bistek a oportunidade que procurava depois de deixar a Venezuela com a esposa e a filha | Foto: Especial 4oito

O esforço aumentou em 2025, quando o Bistek ampliou as ações voltadas aos trabalhadores estrangeiros. Atualmente, a empresa mantém o programa “Novos Caminhos”, criado para ampliar oportunidades, auxiliar na contratação e contribuir para a integração dos imigrantes à sociedade. A proposta também mudou a forma como a empresa enxerga esses profissionais.

Em vez de considerar essas pessoas apenas para funções operacionais, o supermercado passou a observar de que maneira suas experiências e seus conhecimentos poderiam ser aproveitados em outras áreas.

“Além de pensarmos em contratar pessoas estrangeiras para trabalhos braçais, também pensamos em como elas podem nos ajudar a atender melhor os clientes, sejam eles estrangeiros ou não”, explica Camila.

A lógica também passa pela diversidade dentro das próprias equipes. O contato entre funcionários de diferentes nacionalidades pode ajudar na comunicação com clientes estrangeiros e criar um ambiente no qual essas pessoas se sintam mais próximas da empresa.

Atualmente, a rede possui 28 unidades e reúne mais de 600 imigrantes entre os funcionários. Eles ocupam desde funções operacionais até posições de liderança.

O número ajuda a mostrar que, em alguns casos, a relação entre a empresa e o trabalhador estrangeiro já ultrapassou a etapa da contratação.

Idioma, moradia e integração: os desafios além do emprego

A entrada de um trabalhador estrangeiro pode envolver desafios que não aparecem em um currículo. Além do idioma, questões como documentação, moradia, transporte e adaptação ao ambiente profissional precisam ser consideradas.

Por isso, o programa desenvolvido pelo Bistek também envolve ações de integração. A empresa conta com o auxílio de uma organização não governamental de Florianópolis, responsável por ajudar no encaminhamento e na integração dos imigrantes. Também são oferecidos auxílios relacionados à moradia, à alimentação e ao transporte. Em determinadas situações, os trabalhadores podem ser realocados para outras cidades ou estados, conforme a necessidade.

A participação de estrangeiros e brasileiros naturalizados na população catarinense passou de 0,28% para 1,10% em 12 anos | Foto: Lucas Mackowieski/4oito

Até mesmo a comunicação entre os funcionários recebeu atenção. A empresa oferece cursos básicos de espanhol aos trabalhadores responsáveis pelas contratações. Em uma dinâmica que aproxima ainda mais as duas partes, os próprios estrangeiros participam das aulas como professores.

A intenção é diminuir as dificuldades de comunicação e tornar mais simples a relação entre quem chega e quem já fazia parte da empresa.

O processo também envolve uma preocupação com a maneira como esses trabalhadores são recebidos.

“Trabalhamos com a sensibilização dessas pessoas, para que não se sintam deslocadas. Vai muito além da mão de obra delas. Poder abrir as portas para elas é importante para nós e para os nossos clientes”, destaca Camila.

Santa Catarina se transforma com quem chega de fora

O movimento observado nas empresas faz parte de uma transformação populacional maior. Os dados do Censo 2022 mostram que Santa Catarina não está atraindo apenas estrangeiros. O estado também recebeu um volume expressivo de brasileiros vindos de outras unidades da Federação.

Entre 2017 e 2022, mais de meio milhão de pessoas que viviam em outros estados passaram a morar em Santa Catarina. No mesmo período, 149.230 pessoas fizeram o caminho contrário.

O saldo foi de 354.350 novos moradores, o maior entre os estados brasileiros. A maior parte dos que chegaram veio de estados próximos:

  • 134,8 mil pessoas do Rio Grande do Sul; 
  • 96,1 mil do Paraná;
  • 62,4 mil de São Paulo.

Mas o movimento também alcançou outras regiões. Pará, Bahia, Maranhão e Pernambuco estão entre os estados que apresentaram aumento no número de pessoas vivendo em Santa Catarina.

Em 2022, o estado tinha 1.767.680 moradores nascidos em outras unidades da Federação. Em 2000, eram 758.816.

São movimentos diferentes da imigração internacional, mas que ajudam a explicar a transformação do mercado de trabalho catarinense: cada vez mais pessoas chegam de fora para viver e trabalhar no estado.

No caso dos estrangeiros, o crescimento também foi expressivo. Em 2010, eles representavam 0,19% da população catarinense. Em 2022, passaram a representar 0,96%. Quando somados aos brasileiros naturalizados, a participação chegou a 1,10%. Santa Catarina tinha, em 2022, o terceiro maior contingente de estrangeiros e naturalizados do país, atrás de São Paulo e Paraná.

Os números ajudam a dimensionar um fenômeno que aparece no cotidiano de empresas, fábricas, supermercados e outros setores. Mas não explicam, sozinhos, o que significa deixar um país para recomeçar em outro.

Muito além de uma vaga de trabalho

Para quem contrata, a chegada de estrangeiros pode representar uma resposta à falta de mão de obra. Para quem chega, o emprego pode significar muito mais do que um salário no fim do mês. Pode representar moradia, estabilidade, independência e a possibilidade de trazer a família para perto.

Emmanuel encontrou em Criciúma a oportunidade que procurava desde que deixou Cuba. Luís encontrou no supermercado uma porta de entrada para um mercado que, inicialmente, parecia difícil de alcançar.

Os dois chegaram ao Brasil por caminhos diferentes e carregando histórias distintas. Um deixou a Venezuela com a esposa e a filha depois de enfrentar uma longa viagem até a fronteira. O outro passou pelo Uruguai antes de chegar a Santa Catarina.

Nenhum deles começou no ponto em que está hoje. Luís precisou lidar com a barreira do idioma e com a desconfiança de que um estrangeiro não seria contratado. Começou no açougue e avançou até uma posição de liderança. Emmanuel chegou sem conhecer profundamente o mercado de trabalho local e encontrou na operação de máquinas uma profissão diferente daquela que exercia em Cuba.

São trajetórias que ajudam a mostrar uma mudança na relação entre imigração e trabalho. O estrangeiro que chega não traz apenas a necessidade de encontrar uma vaga. Traz uma profissão, uma experiência anterior, uma cultura, outro idioma e, em muitos casos, a disposição para reconstruir a própria vida.

Do outro lado, empresas que enfrentam dificuldades para encontrar trabalhadores começam a enxergar os estrangeiros como parte da própria força de trabalho. É uma relação que ainda envolve desafios. A adaptação não termina com a assinatura de um contrato, e a contratação não resolve automaticamente questões como idioma, moradia, documentação ou integração.

Mas, aos poucos, a presença desses trabalhadores deixa de ser uma novidade.

Um novo começo

Quando deixou a Venezuela, Luís não sabia que o caminho até o Brasil o levaria, anos mais tarde, a ocupar uma posição de liderança. O que existia era uma decisão: sair de casa para tentar garantir uma vida melhor para a família.

A profissão que exercia na Venezuela ficou para trás. O idioma precisou ser aprendido. O currículo precisou ser entregue mesmo depois de ele ouvir que não seria chamado.

A primeira oportunidade apareceu no açougue. Depois vieram os programas de trainee, as novas responsabilidades e o cargo de gerente. A trajetória não apagou a distância de casa. A mãe e os irmãos continuam na Venezuela. Mas a vida construída no Brasil passou a ter outros elementos: trabalho, família e a possibilidade de oferecer à filha o futuro que motivou a mudança.

Em uma Santa Catarina que recebe cada vez mais pessoas de fora, histórias como as de Luís e Emmanuel ajudam a dar rosto e voz a números que cresceram rapidamente.

O número de estrangeiros vivendo em Santa Catarina passou de 11.671, em 2010, para 72.793 em 2022 | Foto: Marcello Casal jr/Agência Brasil

São pessoas que chegaram em busca de uma oportunidade e encontraram no mercado de trabalho uma das primeiras portas para reconstruir a própria história. Para as empresas que abriram essas portas, o resultado também começa a aparecer: trabalhadores que chegaram para ocupar uma vaga passaram a integrar equipes, assumir responsabilidades e, em alguns casos, alcançar posições de liderança.

Como resume Franke Hobold, a presença estrangeira deixou de ser apenas uma questão de mão de obra e tornou-se mais um passo importante para o desenvolvimento de Santa Catarina.

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