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Apostas online já fazem parte da vida financeira de 17% dos brasileiros, aponta estudo

Levantamento da Anbima mostra que busca por dinheiro rápido, lazer e sensação de controle estão entre as principais motivações

Por Gabrielle Rebelo 06/09/2026 - 07:05
Estudo buscou entender quem são os apostadores, por que eles apostam e qual é a relação da prática com o dinheiro | Foto: Canva/4oito
Estudo buscou entender quem são os apostadores, por que eles apostam e qual é a relação da prática com o dinheiro | Foto: Canva/4oito

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As apostas online já fazem parte da rotina de 17% da população economicamente ativa do Brasil. O dado faz parte de um estudo da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), que buscou entender quem são os apostadores, por que eles apostam e qual é a relação da prática com o dinheiro.

O tema também foi analisado pelo Consultor de Investimentos Arthur Lessa durante o programa 60 Minutos, da Rádio Som Maior. Para ele, um dos pontos mais preocupantes é a forma como parte dos brasileiros passou a colocar aposta e investimento em uma mesma lógica.

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“As pessoas deixavam de investir para apostar e muitas vezes colocando na mesma caixa mental de ‘eu não vou investir para aumentar o meu patrimônio, eu vou apostar para aumentar o patrimônio’”, explicou.

Segundo o levantamento, o apostador brasileiro tem, em média, 35 anos, é majoritariamente homem e 37% gastam R$ 100 ou mais por mês com apostas. Entre as principais motivações, 39% afirmam apostar em busca de ganhos rápidos, especialmente em momentos de necessidade. Outros 32% enxergam a prática como diversão e 20% associam as apostas à ideia de investimento.

A aposta como alternativa financeira

Levantamento também aponta que deixar as apostas não necessariamente ocorre de forma linear | Foto: Senado/4oito

O estudo mostra que as apostas não são percebidas apenas como entretenimento. Em diferentes contextos, elas podem ser relacionadas à tentativa de complementar a renda, lidar com dificuldades financeiras ou buscar uma sensação de controle sobre o dinheiro.

Arthur Lessa chama atenção justamente para essa mudança de percepção. “Estratégia, retorno, rendimento, às vezes alavancagem, o pessoal acha que é bom”, afirmou. Segundo ele, o uso dessa linguagem pode fazer com que a aposta seja confundida com uma aplicação financeira.

O estudo aponta que, em contextos de menor renda, apostar pode se aproximar de estratégias de sobrevivência e da tentativa de resolver necessidades imediatas. Já entre pessoas com maior estabilidade financeira, a prática tende a aparecer mais relacionada ao lazer.

Quatro perfis de apostadores

A pesquisa identificou quatro principais perfis de pessoas que apostam: adepto da fortuna, matador de leões, expert da realidade e caçador de emoções. Os grupos não são fixos e uma mesma pessoa pode transitar entre diferentes perfis ao longo da vida, dependendo do momento financeiro e das condições do cotidiano.

O adepto da fortuna vê na sorte uma possibilidade de mudar rapidamente de vida. Já o matador de leões aposta diante de situações de aperto financeiro, buscando dinheiro rápido para lidar com necessidades imediatas.

O terceiro perfil, chamado de expert da realidade, acredita ter método e conhecimento suficientes para controlar os resultados. É justamente sobre esse comportamento que Arthur faz um alerta.

“O terceiro aqui é o que mais se engana. E normalmente é o que mais se enche o peito para falar, que é o expert da realidade”, afirmou.

Para ele, a falsa sensação de domínio sobre as apostas esportivas pode fazer com que o apostador continue colocando dinheiro em jogo por acreditar que possui uma vantagem sobre os demais.

Já o caçador de emoções apresenta maior estabilidade financeira e utiliza as apostas principalmente como forma de lazer e entretenimento. Mesmo nesse caso, o estudo ressalta a importância de observar quando a prática deixa de estar dentro de um orçamento destinado à diversão.

Bets e jogos contínuos têm dinâmicas diferentes

O estudo também diferencia as apostas esportivas, conhecidas como bets, dos chamados jogos contínuos, como cassinos online e o “tigrinho”.

As apostas esportivas estão ligadas a eventos específicos, com começo e fim definidos, enquanto os jogos contínuos possuem um fluxo mais imediato e repetitivo, sem interrupções claras. Por isso, tendem a favorecer maior frequência e permanência na atividade.

Na avaliação de Arthur, essa facilidade de acesso é um dos fatores que agravaram o problema nos últimos anos. “As bets online pioraram muito porque fica ao acesso todo mundo. Você não tem que ir na banca do jogo do bicho, escondido, para apostar. Você abre no celular e enquanto está no banheiro você consegue apostar.”

Plataformas estimulam a permanência

Apostas online já fazem parte da rotina de 17% da população | Foto: Canva/4oito

Outro ponto destacado pelo estudo é o papel do ambiente digital. Notificações, recomendações automatizadas, bônus, recompensas e outros recursos podem estimular decisões sucessivas e tornar a experiência mais rápida e contínua.

Arthur compara esse mecanismo ao funcionamento das redes sociais. “É o mesmo sistema da rede social. É para a gente ficar preso ali, preso pela tua dopamina cerebral.”

Segundo ele, a velocidade das plataformas pode dificultar a interrupção da prática, principalmente quando o usuário recebe novos estímulos para continuar jogando.

O levantamento também aponta que deixar as apostas não necessariamente ocorre de forma linear. Relatos de ex-apostadores mostram tentativas de controle, períodos de pausa e retornos à prática.

Para Arthur, o ambiente e as condições financeiras também influenciam nesse processo. “Se continua endividado, assim que der um aperto vai tentar de novo, porque agora vai. Se todo mundo em volta fala de aposta, vai apostar também.”

A pesquisa reforça que as apostas precisam ser compreendidas dentro de um contexto mais amplo, que envolve situação econômica, ambiente digital, relações sociais e a maneira como cada pessoa enxerga o dinheiro.

Aposta não é investimento

Ao comentar o estudo, Arthur Lessa encerrou a análise com um alerta sobre a expectativa de enriquecimento rápido. “Dinheiro rápido é perigoso.”

Para ele, a promessa de retorno elevado deve ser encarada com cautela, principalmente quando aparece associada a discursos de estratégia ou rentabilidade. “Você não vai ficar rico com aposta, você provavelmente vai ficar mais pobre com aposta.”

O estudo da Anbima aponta justamente para a necessidade de ampliar a educação financeira diante desse cenário. A proposta é considerar não apenas informações técnicas, mas também as condições econômicas, as motivações, o ambiente digital e a relação das pessoas com risco, controle e expectativa de ganho.

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