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O retorno do tabagismo em nova embalagem?

Com aparência inofensiva e apelo tecnológico, os cigarros eletrônicos reacendem um hábito que a saúde pública levou décadas para conter

Por Dr. Renato Matos 08/04/2026 - 09:13 Atualizado há 1 hora

O tabagismo, durante séculos, foi incorporado à nossa cultura, vendido como símbolo de elegância — até que, décadas depois, a conta chegou.

Hoje, não se discutem mais os malefícios do cigarro.
Fumar deixou de ser símbolo de status.
Passou a ser visto como algo ultrapassado — quase constrangedor, brega.

É nesse cenário que entra em cena o cigarro eletrônico.

Colorido, tecnológico, discreto, com sabores e design atrativos — e sem o peso social que o cigarro tradicional carrega.

Mais do que um produto, ele representa uma mudança de percepção.
E esse talvez seja o seu maior risco.

Há evidências — ainda debatidas — de que os cigarros eletrônicos possam ajudar alguns fumantes a abandonar o cigarro convencional.

Mas, na prática, a maioria não abandona a nicotina — apenas muda a forma de consumo.
E outros, especialmente jovens, iniciam um caminho que provavelmente nunca percorreriam com o cigarro tradicional.

Os problemas associados ao uso do vape já começam a ser bem documentados.
Há inflamação das vias aéreas, comprometimento das defesas locais e maior vulnerabilidade a infecções.
Em pessoas com doenças respiratórias, como asma, a piora é frequente e, muitas vezes, significativa.

Não se trata de um vapor inofensivo

É uma mistura de substâncias químicas cujo impacto completo ainda está sendo revelado — mas que já demonstra sinais consistentes de dano.

E, em alguns casos, esse impacto não leva décadas para aparecer.
Ele é imediato.

Em 2019, os Estados Unidos enfrentaram um surto de uma condição até então pouco conhecida: a lesão pulmonar associada ao uso de cigarro eletrônico (EVALI).

Foram mais de 2.800 hospitalizações e 68 mortes confirmadas.

Pacientes jovens, previamente saudáveis, evoluindo com insuficiência respiratória grave, necessidade de ventilação mecânica e internação em UTI.

No Brasil, a ANVISA mantém a proibição da comercialização, importação e propaganda desses dispositivos.

Apesar disso, o acesso segue fácil

Como não são regulamentados, não há controle de qualidade.
Adolescentes os utilizam por meio do mercado ilegal, sem saber o que estão inalando.

Em um cérebro em desenvolvimento, estudos mostram associação entre o uso dos cigarros eletrônicos com:

  • déficit de atenção
  • alterações cognitivas
  • maior risco de transtornos psiquiátricos

Quando aquecidos, os componentes dos cigarros eletrônicos liberam centenas de substâncias químicas — muitas delas com potencial cancerígeno já conhecido.
Assim como no cigarro tradicional.

Além dos riscos diretos à saúde, o cigarro eletrônico traz um impacto social profundo.

Ele normaliza novamente o tabagismo.

Ao tornar o ato de fumar aceitável — e, em alguns contextos, até desejável —, esses dispositivos ameaçam desfazer um dos maiores avanços da saúde pública das últimas décadas.

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