Em 2012, um adolescente de 13 anos deu entrada em um hospital de Brasília com uma crise de asma. Menos de 24 horas depois, estava morto. Era Marcelo Dino, filho do hoje ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino. Anos mais tarde, a Justiça reconheceu falhas no atendimento.
O caso expõe uma pergunta desconfortável: como uma doença tão comum ainda pode matar?
A resposta começa por um erro de percepção. A asma costuma ser vista como algo leve e episódico — “uma bombinha resolve”. Na realidade, é uma doença inflamatória crônica das vias aéreas: mesmo sem sintomas, a inflamação persiste em silêncio e, diante de um gatilho, pode evoluir rapidamente para uma crise grave. Só entre 2019 e 2023, mais de 12 mil brasileiros morreram por asma, segundo dados do Ministério da Saúde — muitos por causas evitáveis.
Durante décadas, o tratamento se organizou em torno do alívio imediato. O paciente sentia falta de ar, usava a bombinha de salbutamol, melhorava — e seguia a vida. Mas esse tipo de medicação alivia o sintoma sem tratar a inflamação que está por trás dele. A crise seguinte continua à espreita.
Hoje, esse paradigma mudou. A Global Initiative for Asthma, que reúne especialistas de vários países e publica as diretrizes internacionais da doença, não recomenda mais o uso isolado desses broncodilatadores — nem mesmo em casos leves. O foco se deslocou: tratar a inflamação desde o começo, com corticoides inalados. No Brasil, o próprio SUS disponibiliza gratuitamente essas medicações, isoladas ou combinadas com broncodilatadores de ação prolongada.
E é aqui que aparece um descompasso pouco discutido fora dos consultórios. Muitos pacientes evitam o corticoide inalado por medo de efeitos colaterais — apesar de sua baixa absorção e alto perfil de segurança. Ao mesmo tempo, recorrem com frequência ao corticoide sistêmico — aquele que é administrado por via oral ou injetável. E não apenas nos prontos-socorros: muitas vezes, ele é iniciado em casa, por familiares bem-intencionados, ao primeiro sinal de piora.
A lógica parece razoável — agir rápido para evitar uma crise grave —, mas é enganosa. O corticoide sistêmico tem indicação precisa, sobretudo em exacerbações moderadas a graves, e não deve funcionar como estratégia preventiva caseira. Usado repetidamente, pode causar hipertensão, alterações glicêmicas, ganho de peso, osteoporose e maior risco de infecções. Mais importante: precisar dele com frequência costuma ser o sinal mais claro de que a asma está mal controlada. O problema não é a crise pontual — é o tratamento de base que está falhando.
E o problema é estrutural. Segundo a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, apenas 12,3% dos asmáticos brasileiros têm a doença bem controlada. A ampla maioria convive com algum grau de descontrole — e com o risco de crises evitáveis.
Nos casos mais graves, a medicina avançou de forma significativa: terapias imunobiológicas agem diretamente sobre os mecanismos da inflamação e, quando há indicação precisa, também estão disponíveis gratuitamente pelo SUS.
A asma é comum, mas não é trivial. É potencialmente grave e, na maioria das vezes, controlável com tratamento adequado. As ferramentas para evitar mortes como a de Marcelo Dino existem — e hoje são melhores do que eram então.
O caminho para usá-las, no entanto, não passa pelo balcão da farmácia. Passa por uma consulta com um médico experiente em doenças respiratórias, capaz de tratar não apenas a crise, mas a doença que vive entre uma crise e outra.
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