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Ressaca para Lula; expectativa para Flávio

Uma análise do primeiro turno das eleições de 2026

Por Artur Fabro 05/10/2026 - 09:55 Atualizado há quase um minuto

Um primeiro turno não previsto

Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente de Lula (PT) no primeiro turno da eleição presidencial, realizado ontem. Com 100% das urnas apuradas, o senador teve 47,03% dos votos válidos (56,1 milhões), contra 45,16% do presidente (53,9 milhões), uma diferença de 2,2 milhões de votos. Os demais candidatos, somados, ficaram com 7,81% (9,3 milhões de votos). Ou seja, mais uma vez a terceira via não vingou e foi incapaz de desarticular a polarização entre bolsonarismo e lulismo.

Dos 158,7 milhões de eleitores aptos, 33,4 milhões não foram às urnas, uma abstenção de 21,08%, a maior desde 1998. Entre os que compareceram, os votos brancos (1,84%) e nulos (2,93%) somaram cerca de 6 milhões. Ao todo, mais de 39 milhões de eleitores não escolheram nenhum candidato.

Em 2022, foi Lula quem saiu do primeiro turno na liderança, com 48,43% contra 43,20% de Jair Bolsonaro. Agora a situação se inverte. Pela segunda vez desde que a reeleição foi permitida, um presidente candidato a novo mandato termina o primeiro turno atrás do desafiante; a primeira foi justamente a de Jair Bolsonaro, quatro anos atrás.

Lula chega ao segundo turno, marcado para 25 de outubro, na posição de quem precisa virar o jogo, algo que nunca ocorreu na história das eleições presidenciais brasileiras. Flávio sai fortalecido, com uma votação que poucos institutos de pesquisa conseguiram captar.

A ressaca de Lula

O dado mais revelador do domingo não é o voto de Lula, mas o de Flávio. Na véspera, a Quaest, um dos institutos que mais se aproximaram do resultado, registrava 46% dos votos válidos para o presidente e 45% para o senador. Lula terminou com 45,16%, praticamente o que a pesquisa lhe atribuía.

Quem cresceu foi Flávio. Ele fez cerca de dois pontos a mais do que a Quaest indicava, praticamente no limite da margem de erro, o que mostra que havia uma tendência no ar. A urna apenas completou o movimento.

A ressaca do governo é a de quem descobriu o próprio teto de votos. Para chegar a 50% mais um, Lula precisa de quase cinco pontos além do que teve no primeiro turno. E os votos que sobraram, menos de 8% dos válidos, foram em boa parte para candidatos que disputaram o eleitorado de oposição ao governo, como Caiado, Zema e Renan Santos.

Flávio venceu em 15 estados e no Distrito Federal, contra 11 de Lula, e virou Minas Gerais e Tocantins, que o petista havia levado em 2022. Minas tem peso especial: desde 1989, todo candidato que venceu ali também venceu a Presidência. A vantagem de Lula no estado, de 49,7 mil votos em 2022, virou uma desvantagem de quase 600 mil.

No Nordeste, Lula venceu nos nove estados da região, mas com proporção menor do que em 2022 em todos eles. No Piauí, caiu de 74,2% para cerca de 71%; na Bahia, de 69,7% para 66,1%; no Ceará, de 65,9% para 63,2%.

A expectativa de Flávio

Do outro lado, a conta é mais confortável. Com 47,03%, Flávio precisa de cerca de três pontos para vencer. E, como dito, o estoque de votos disponível está, em boa parte, no campo da direita.

Há também um compromisso prévio. Em junho, Caiado relatou que ele, Zema e Flávio haviam reforçado, num encontro em Belo Horizonte, a tese de unidade no segundo turno para derrotar o PT; o próprio senador fez declaração semelhante. Se esse acordo se confirmar nos próximos dias, a oposição entra no segundo turno somando forças, e o governo, procurando aliados.

Os primeiros sinais vieram ainda no domingo à noite. Zema declarou que estará contra o PT onde quer que o partido esteja no segundo turno, embora sem citar o nome de Flávio. Augusto Cury foi na direção oposta e anunciou que deixará a política, descartando apoiar qualquer candidato. Caiado e Renan Santos aparentemente liberaram seus eleitores. Resta saber se, mesmo sem anúncios oficiais, algum deles acabará entrando na campanha de Flávio por outros caminhos.

Um alerta precisa ser feito: voto não se transfere em bloco. Parte do eleitorado de Caiado, Zema, Renan Santos e Augusto Cury pode anular, faltar ou até migrar para Lula. Flávio carrega, além disso, o desgaste do caso Banco Master, que o ligou a Daniel Vorcaro. Lula, por sua vez, também tem pontos fracos que podem ser mais explorados na campanha do segundo turno. Ainda assim, o balanço parece indicar uma migração maior de votos para Flávio.

O Congresso que sai das urnas: uma terceira onda bolsonarista (2018, 2022 e 2026)

O resultado mais duradouro de domingo está no Congresso Nacional. O PL elegeu 121 deputados federais, contra 99 em 2022, a maior bancada de um único partido desde a Constituição de 1988, e abriu mais de 30 cadeiras de vantagem sobre a federação liderada pelo PT.

No Senado, o movimento foi o mesmo. O partido elegeu 19 senadores e deve chegar a 28 das 81 cadeiras a partir de 2027. Isso é mais do que o recorde de 27 senadores que o antigo PMDB passou a ter após a eleição de 1998. Em Santa Catarina, no Distrito Federal, em Mato Grosso do Sul e em Rondônia, o PL ficou com as duas vagas em disputa.

Nenhum partido terá maioria sozinho, e o centro (PSD, Republicanos, MDB e a federação União Progressista) seguirá decisivo para qualquer governo. Mas o peso relativo mudou. Se reeleito, Lula terá de governar com o maior partido da Câmara e do Senado na oposição. Se eleito, Flávio começa o mandato com a maior bancada própria de que um presidente já dispôs desde 1988.

O PL também ganhou um argumento de governabilidade que não tinha na véspera; o PT, por sua vez, pode apresentar a reeleição de Lula como contrapeso a um Congresso inclinado à direita. Qual dessas leituras vai convencer o eleitor indeciso pode ser uma das chaves para compreender o segundo turno.

Santa Catarina: consolidação da hegemonia do PL

Se no país a disputa ficou aberta, em Santa Catarina ela praticamente não existiu. Flávio teve 66,65% dos votos válidos no estado, e o PL venceu em todas as frentes. Jorginho Mello foi reeleito no primeiro turno com 68,98% (2,94 milhões de votos), a maior votação em primeiro turno da história do estado, tendo Adriano Silva (Novo) como vice.

No Senado, Carol De Toni (PL, 2,69 milhões de votos) e Carlos Bolsonaro (PL, 2,04 milhões) ficaram com as duas vagas e ultrapassaram o recorde de votos de Luiz Henrique da Silveira em 2010, que fez 1,78 milhões. Somados a Jorge Seif, eleito em 2022, darão ao PL as três cadeiras catarinenses a partir de 2027.

Nas proporcionais, mais recordes caíram. A criciumense Júlia Zanatta (PL) fez 560.223 votos para deputada federal, mais que o dobro da marca anterior (os 227.632 votos de Carol De Toni em 2022). Ana Campagnolo (PL) chegou a 387.523 votos para a Alesc, quase o dobro do próprio recorde de 2022 (196.571). O partido elegeu 7 dos 16 deputados federais e 16 dos 40 estaduais.

O que esperar de 25 de outubro

Parece-me que Lula precisa de três movimentos para tentar uma virada inédita sobre Flávio: estancar a erosão no Nordeste, recuperar Minas e buscar o eleitor que votou em Caiado, Zema, Renan Santos ou Cury, ou que ficou em casa. O caminho mais provável da campanha é transformar a disputa num referendo sobre o bolsonarismo, apostando na rejeição ao sobrenome do adversário.

Flávio precisa, sobretudo, evitar novos escândalos e consolidar o voto da terceira via derrotada. 

O resultado virá do povo, mas o recado já foi dado ontem.

 

 

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