A guerra e os seus aliados
No capítulo XV de O Príncipe, Nicolau Maquiavel avisa que prefere ir atrás da "verdade efetiva da coisa" a imaginar, como tantos antes dele, repúblicas e principados que nunca existiram. A razão: "há tamanha distância entre como se vive e como se deveria viver" que quem troca o que se faz pelo que se deveria fazer "aprende antes a sua ruína do que a sua preservação". Três capítulos adiante, vem o conselho: que o príncipe trate de vencer e manter o Estado, e os meios "serão sempre julgados honrosos e por todos louvados". A fórmula "os fins justificam os meios", que Maquiavel nunca escreveu, é a versão "traduzida" dessa passagem.
Os realistas (autores que analisam a política como ela é, e não como deveria ser) que vieram depois de Maquiavel disseram o mesmo de outras formas. Carl von Clausewitz (general prussiano do início do século XIX, autor do clássico Da Guerra) definiu a guerra como "a continuação da política por outros meios". Otto von Bismarck (chanceler que conduziu a unificação da Alemanha, em 1871) chamou a política de "arte do possível". Lord Palmerston (então ministro das Relações Exteriores e, depois, primeiro-ministro do Reino Unido) resumiu a lógica das alianças no Parlamento britânico, em 1848: “Não temos aliados eternos nem inimigos perpétuos. Nossos interesses é que são eternos e perpétuos.”
Na guerra, os aliados não se escolhem por afinidade, mas por interesse. A eleição é o momento em que a política democrática mais se parece com a guerra. Há data marcada, um vencedor, um derrotado e nenhum meio-termo.
Nada de novo sob o sol
Em 2002, depois de três derrotas consecutivas para a Presidência da República, Lula assinou a "Carta ao Povo Brasileiro", prometendo respeitar contratos, e escolheu como vice o empresário José Alencar, do Partido Liberal. O PL já era presidido por Valdemar Costa Neto, o mesmo que hoje comanda o partido de Flávio Bolsonaro.
Em 2022, Lula foi buscar Geraldo Alckmin, o adversário que derrotara no segundo turno de 2006. A campanha daquele ano foi dura. No debate da Band, Lula lembrou que “foram o PSDB e o PFL que privatizaram o país” e acusou o próprio Alckmin de ter acabado de privatizar uma empresa de transmissão de energia em São Paulo. A antipatia era recíproca. Em 2017, Alckmin dizia que Lula, “depois de ter quebrado o Brasil”, queria “voltar à cena do crime”. Cinco anos depois, deixou o PSDB, filiou-se ao PSB e virou vice de Lula.
Jair Bolsonaro fez o caminho inverso, com a mesma lógica. Em 2018, na convenção do PSL, o general Augusto Heleno cantou "se gritar pega centrão, não fica um, meu irmão". Três anos depois, Ciro Nogueira, do PP, comandava a Casa Civil, e o próprio Bolsonaro se filiava ao PL de Valdemar para disputar a reeleição.
Os fiadores
O primeiro turno deixou três candidatos com votos para emprestar: Augusto Cury (Avante), terceiro colocado, teve 3,4 milhões de votos (2,89%); Renan Santos (Missão), 2,67 milhões (2,24%); e Ronaldo Caiado (PSD), 2,60 milhões (2,18%). Cada um escolheu um tipo de pragmatismo. Aqui não incluo Romeu Zema (Novo), já que, apesar de o seu partido ter tido desempenho acima do esperado nas eleições para deputado e senador, sua candidatura à Presidência obteve apenas 326.488 votos (0,27%).
Caiado foi o mais rápido. Na noite da eleição, disse que manteria a coerência e que só falaria depois de conversar com Gilberto Kassab, presidente do PSD; dois dias depois, já estava com Flávio. Cury negociou; em setembro, dizia que Flávio teria de "provar que não é corrupto" para ter o seu apoio; na quinta-feira passada, anunciou o voto depois que o candidato assinou uma carta de compromissos em educação, saúde, BNDES e proteção às mulheres.
Renan recusou apoio oficial da Missão a qualquer um dos dois: "Flávio é bandido. Lula é bandido", disse, sem recomendar voto.
Para ficar mais claro para o leitor, os apoios mais relevantes para o 2º turno podem ser organizados de acordo com a seguinte tabela:
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Quem |
Posição no 2º turno |
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|---|---|---|
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Augusto Cury (Avante), 3º lugar |
Flávio. PS.: não encontrei nada sobre o Avante declarar apoio formal a algum candidato. |
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Renan Santos (Missão), 4º lugar |
Nenhum. |
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Ronaldo Caiado (PSD), 5º lugar |
Flávio. PS.: sendo uma decisão pessoal do candidato, o PSD ficou neutro. |
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União Brasil e PP |
Flávio. |
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Republicanos |
Flávio. |
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Podemos |
Flávio. |
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MDB |
Liberado PS.: algumas liderenças nacionais do partido, como o ex-presidente Michel Temer, declararam apoio a Flávio. |
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PSD |
Neutro. |
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PSDB |
Neutro. |
Quase ninguém mudou de lado por convicção. Partidos neutros no primeiro turno descobriram afinidades com Flávio depois que ele terminou na frente.
A neutralidade também libera cada cacique para ficar com o vencedor no seu estado, como Hugo Motta (Republicanos), presidente da Câmara, e Lucas Ribeiro (PP), governador eleito da Paraíba, que fizeram campanha com Lula no primeiro turno; agora seus partidos fecharam com Flávio.
Por mais que as pesquisas tentem medir esse movimento, o eleitor, por sua vez, não obedece cegamente à orientação do seu candidato, derrotado no 1º turno, na hora de votar no 2º. Como escrevi no texto da semana passada, o apoio da cúpula partidária não transfere votos automaticamente.
Toda aliança cobra o seu preço depois da vitória. Parte da cobrança virá nas eleições municipais de 2028.
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