Na semana passada, tratei de Ronaldo Caiado e João Rodrigues. Hoje é a vez da parte 4 da nossa série "Os palanques da eleição de 2026 em Santa Catarina", com Renan Santos e Marcelo Brigadeiro.
Prezado leitor do 4oito, trago aqui uma sugestão: dois cientistas políticos amigos meus criaram uma "calculadora de afinidade eleitoral" chamada Populus. Ela é online, gratuita e funciona da seguinte maneira: você participa de um simulador de mandato, distribuindo 100 fichas entre 29 eixos de políticas públicas conforme suas prioridades, e a ferramenta cruza essa agenda com a dos candidatos à Presidência e ao governo do seu estado, gerando um ranking de afinidade.
Não é recomendação de voto, e sim ferramenta de educação cívica. Vale a visita: populus.com.br
Quem é Renan Santos?
Renan Antônio Ferreira dos Santos nasceu em São Paulo, em 14 de fevereiro de 1984. Tem 42 anos e ingressou no curso de Direito da USP, mas não concluiu a graduação, abandonando a faculdade para trabalhar com o pai. Filiou-se ao PSDB em 2010, mas rompeu com o partido em 2015. Sua projeção nacional começou em 2014, com a cofundação do Movimento Brasil Livre (MBL), que ganhou destaque nacional ao organizar manifestações em defesa da Operação Lava-Jato e, depois, em favor do impeachment de Dilma Rousseff, concretizado em 2016. Em 2018, o MBL apoiou Jair Bolsonaro no segundo turno contra Fernando Haddad, apesar de divergências internas. A relação se deteriorou ao longo do governo Bolsonaro e o movimento migrou para a oposição, chegando a defender o impeachment do então presidente.
Renan nunca disputou cargo eletivo. Ao lado de aliados do MBL, articulou a criação de um partido próprio, o Missão, homologado pelo TSE no fim de 2025. Em 20 de julho de 2026, o partido antecipou a convenção nacional para oficializar sua candidatura à Presidência, em chapa pura, sem coligações, como Flávio e Caiado. Em agosto lançou o plano de governo "O Futuro é Glorioso", resumo do chamado "Livro Amarelo" (chamado pelo próprio Renan Santos de "doutrina" do partido Missão), com propostas como combate às facções criminosas sob a lógica do "Direito Penal do Inimigo", "desfavelização", fusão de municípios e alterações no programa Bolsa Família.
O vice é o tenente-coronel da reserva Aroldo Medina, 62 anos, da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, que já disputou, sem êxito, a prefeitura de Canoas, o governo do Rio Grande do Sul, uma cadeira de deputado estadual e a Câmara de Vereadores de Porto Alegre, nunca tendo exercido mandato eletivo. Medina esteve, em dezembro de 2022, no acampamento montado em frente ao QG do Exército em Brasília (acampamento este que pedia intervenção militar após a derrota de Jair Bolsonaro para Lula), fato que voltou à tona após seu anúncio como vice.
O discurso de Renan mira simultaneamente Lula e Flávio Bolsonaro, buscando ocupar um espaço de "terceira via" (assim como Caiado) à margem da polarização entre petismo e bolsonarismo. Sua campanha aposta fortemente em redes sociais e financiamento coletivo, já que o Missão, por ser um partido novo e sem bancada, quase não recebe recursos do Fundo Especial de Assistência Financeira aos Partidos Políticos e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha.
Análise do desempenho eleitoral recente de Renan Santos
Estreante em disputas eleitorais, Renan chegou a se consolidar em terceiro lugar nas pesquisas nacionais de primeiro turno ao longo do primeiro semestre, à frente de nomes muito mais conhecidos, como Ronaldo Caiado e Romeu Zema. Porém, a ascensão do escritor Augusto Cury (Avante) no fim de agosto (o mesmo movimento que, como registrei na parte 3, atingiu a candidatura de Caiado) empurrou Renan para a quarta posição, quando não para a quinta.
No BTG/Nexus de 31 de agosto, Cury saltou para 11% e Renan ficou com 3%, atrás também de Caiado, com 5%. Na rodada de 8 de setembro do mesmo instituto, Renan subiu para 4%, mas empatado com Caiado e ainda bem atrás de Cury, que aparece com 9%. A Quaest de 7 de setembro registrou Cury com 8% e Renan com 3%, empatado com Caiado. O AtlasIntel, instituto que historicamente o mede mais alto, mostrou em 11 de setembro Renan com 6,5%, praticamente empatado com Cury (6,6%). Lembrando, como já registrei aqui, que pesquisas de institutos diferentes não são diretamente comparáveis entre si; a comparação serve para indicar tendência dentro de cada série, não entre elas.
Nas simulações recentes de segundo turno contra Lula, Renan perde em todas as pesquisas com uma diferença maior que aquelas de Caiado e Zema.
Quem é Marcelo Brigadeiro?
Marcelo Marcel Franco José da Silva, o Marcelo Brigadeiro, nasceu no Rio de Janeiro em 4 de maio de 1982. Tem 44 anos, é formado em Medicina Veterinária e Educação Física, e construiu carreira como lutador de MMA. Mudou-se para Santa Catarina há quase 20 anos e hoje mora em Balneário Camboriú.
Participou da fundação do hoje extinto PSL em Santa Catarina, o mesmo partido que elegeu Carlos Moisés ao governo do estado e Jair Bolsonaro à Presidência em 2018, mas se afastou do grupo, desapontado com os rumos da legenda. Em cargos públicos, ocupou apenas a diretoria de Esportes da Fundação Catarinense de Esporte (Fesporte), na gestão de Carlos Moisés, entre 2020 e 2022. Ligado ao MBL, retomou a militância com a criação do partido Missão.
Sua candidatura ao governo de Santa Catarina foi homologada em 23 de julho de 2026, em convenção virtual, também em chapa pura. É sua primeira disputa a qualquer cargo eletivo. O vice é o coronel Marcelo Rodrigues, 54 anos, formado na Academia Militar das Agulhas Negras, escolhido para representar o Oeste catarinense na chapa. Na mesma convenção, o partido definiu o empresário e influenciador Túlio de Amorim Pfuetzenreiter como candidato único ao Senado, fechando a chapa majoritária. Brigadeiro também se porta como um candidato de "terceira via", tanto no sentido ideológico (não ser nem bolsonarista nem lulista) quanto no sentido da disputa específica de Santa Catarina, em que Jorginho Mello (PL) aparece isolado na liderança e João Rodrigues (PSD) e Gelson Merísio (PSB) disputam a segunda colocação.
Análise do desempenho eleitoral recente de Marcelo Brigadeiro
Também estreante, Brigadeiro segue na faixa mais baixa da disputa, mas melhorou entre agosto e setembro. Na Quaest/NSC de 20 a 23 de agosto, tinha apenas 1% no cenário estimulado, empatado com Laís Chaud (UP) e Bruno Pedreiro (PCO), atrás de Jorginho Mello (50%), João Rodrigues (17%), Gelson Merísio (4%) e Marcus Sodré (2%). Já na AtlasIntel realizada de 4 a 9 de setembro, ele aparece com 2,9%, na quarta colocação, agora à frente de Marcus Sodré (1,1%), Laís Chaud (0,8%) e Ralf Zimmer (0,4%).
Renan e Brigadeiro estreiam juntos em eleições. Ambos chegam à disputa pela mesma porta: o MBL.
Há, porém, uma pergunta que os números do Missão em Santa Catarina tornam inevitável: o que, exatamente, essa candidatura está disputando? Brigadeiro praticamente não tem chance de vencer, nem de forçar segundo turno. Renan também dificilmente chegará ao Planalto.
Partidos novos, no Brasil, raramente nascem para ganhar a primeira eleição que disputam, e sim para sobreviver e tentar crescer na seguinte. E sobreviver, no nosso sistema, significa coisas bem concretas: superar a cláusula de barreira, garantir acesso ao Fundo Partidário, ao tempo de rádio e TV etc. Não por acaso, Renan abriu mão dos cerca de R$ 3 milhões do Fundo Eleitoral que lhe caberiam, com o dinheiro sendo redirecionado para outras candidaturas do partido, visando declaradamente eleger o mínimo de deputados federais necessário para cruzar a barreira.
Vista assim, a candidatura de Brigadeiro cumpre uma função que não aparece nas pesquisas de governador. Ela dá ao Missão palanque estadual, presença no horário eleitoral, um rosto para vincular os candidatos proporcionais do partido em Santa Catarina.
Na próxima semana, será a vez de Samara Martins e Laís Chaud, Hertz Dias e Marcus Sodré, e Rui Costa Pimenta e Bruno Pedreiro.
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