O PT oficializou neste domingo a candidatura de Lula à reeleição, com Alckmin de novo na vice. A coligação reúne sete legendas: a Federação Brasil da Esperança, que junta PT, PV e PCdoB; a Federação PSOL-Rede; e mais dois partidos, PSB e PDT. Do outro lado, o cenário é o inverso. Com a aparente recusa da Federação União Progressista e as incertezas que ainda rondam Republicanos e Podemos (que podem mudar de ideia até a próxima quarta-feira, 05/08, prazo final de realização das convenções), Flávio Bolsonaro chega ao início de agosto isolado e sem vice definido, apoiado oficialmente apenas pelo PL.
Desde as eleições de 2002, excetuando a de 2018, os candidatos vencedores sempre contaram com três ou mais partidos antes do primeiro turno: Lula com cinco partidos em 2002 e três em 2006; Dilma com dez em 2010 e nove em 2014; Bolsonaro com dois em 2018; Lula com nove em 2022. Em quatro das últimas seis eleições o vencedor tinha uma coligação maior que a do candidato derrotado; em 2014 houve empate, com nove partidos de cada lado, e 2018 foi a única inversão (lembrando o leitor que, de 2002 a 2022, todas as eleições presidenciais foram para o segundo turno).
A vantagem de uma ampla coligação para cargos majoritários é notável na história recente do país. Com isso, não se afirma que há um nexo causal direto entre grandes coligações e vitórias, isto é, não basta somente possuir uma coligação maior que a do adversário para vencê-lo. Todavia, candidatos competitivos e vencedores geralmente formam grandes blocos partidários.
Comecemos pelo mais óbvio: o tempo de propaganda no rádio e na televisão é distribuído conforme o número de deputados federais eleitos pelos partidos que compõem cada coligação. Coligar-se é literalmente acumular minutos valiosos de propaganda eleitoral gratuita. Some-se a isso o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (Fundão), distribuído às legendas segundo critério semelhante de representação: coligar-se permite somar esses recursos em torno de uma mesma candidatura.
Um dos efeitos mais profundos dessa vantagem tem a ver com a capilaridade territorial dos partidos. O Brasil elege o presidente com voto nacional e organiza a política em 27 unidades federadas. Nenhum candidato presidencial tem estrutura própria em 5.570 municípios. Quem tem são os diretórios estaduais e municipais dos partidos, com prefeitos, vereadores, deputados estaduais, deputados federais, senadores e governadores. Sem o palanque estadual, um candidato a presidente pode continuar tendo seu tempo de propaganda eleitoral e sua atuação nas redes sociais, contudo provavelmente perderá o contato com um importante contingente de eleitores espalhados pelo imenso território brasileiro. Com as expectativas de que, repetindo 2022, as eleições deste ano também sejam apertadas, qualquer novo grupo de eleitores conquistado pode fazer a diferença.
Em 2018, Jair Bolsonaro estava praticamente sozinho porque ninguém apostaria num deputado do baixo clero, ainda mais filiado a um partido de pouquíssima expressão, o PSL, e coligado com o também nanico PRTB do saudoso Levy Fidelix, que indicou o general Mourão como candidato a vice. Essa aliança dava a Bolsonaro 8 segundos de televisão e, mesmo assim, excepcionalmente, dado também o contexto da época (impeachment recente de Dilma Rousseff, Operação Lava Jato no auge, prisão de Lula etc.), foi o bastante para vencer Fernando Haddad (PT). Agora, Flávio ainda está sozinho porque os partidos olharam, avaliaram e, até o momento, não foram convencidos de seu projeto. A situação de Flávio só não é pior porque o PL detém a maior bancada da Câmara Federal, o que lhe garante 4min20s no horário eleitoral, contra 5min32s de Lula, além de uma forte capilaridade estadual e municipal construída durante os anos em que seu pai foi presidente e tentou a reeleição. Como já dito, esse diagnóstico não significa que Flávio perderá as eleições; significa que, se vencer, terá de construir em janeiro, no Congresso, a coalizão de governo que não conseguiu formar em agosto, nas convenções.
Assim, a coligação eleitoral vale, sobretudo, pelo que antecipa. O cientista político brasileiro Sérgio Abranches descreveu essa lógica em 1988, no artigo Presidencialismo de coalizão: o dilema institucional brasileiro, publicado na revista Dados. Foi ali que nasceu a expressão "presidencialismo de coalizão", provavelmente a mais citada da ciência política brasileira. O argumento é que o Brasil combina, de forma rara, presidencialismo, representação proporcional e multipartidarismo, e o resultado é que nenhum presidente jamais teve maioria própria no Congresso. Governar aqui significa, necessariamente, construir coalizão, que não se confunde com a coligação eleitoral, mas dificilmente se forma sem ela. Os partidos sabem disso melhor que ninguém. Quando um bloco se recusa a embarcar em uma candidatura, não está apenas se poupando de uma derrota em outubro; está calculando com quem preferirá negociar em janeiro.
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