O transtorno do jogo é considerado o primeiro vício comportamental reconhecido, ou seja, o primeiro tipo de dependência que não envolve o consumo de uma substância. A explicação é da professora do curso de Psicologia da Unesc, Cristina Kern, em entrevista ao programa 60 Minutos com Arthur Lessa, ao comentar a comparação entre o vício em apostas e o vício em drogas como a cocaína.
De acordo com Kern, do ponto de vista cerebral, a comparação é adequada, já que ambos os tipos de vício ativam as mesmas áreas do cérebro. A diferença, segundo ela, está na visibilidade dos prejuízos: enquanto o vício em substâncias costuma deixar sinais mais evidentes para a família e a sociedade, o vício em apostas se mantém mais escondido, muitas vezes sustentado pela mentira. "É um vício considerado tão grave quanto, mas que consegue manter uma certa invisibilidade que a droga não permitiria", afirmou.
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Ilusão de enriquecimento rápido atrai jovens vulneráveis
Do ponto de vista social, Kern relacionou o crescimento do vício em apostas a um apelo mais amplo ao "ter" em detrimento do "ser", somado à promessa de enriquecimento rápido e fácil, especialmente atraente para jovens. Segundo ela, esse discurso vem substituindo, para parte dessa geração, o desejo de progressão por meio dos estudos e da formação profissional.
A psicóloga também destacou que, do ponto de vista biológico, jovens até os 20 e poucos anos ainda estão em processo de formação cerebral relacionado ao controle de impulsos, o que os torna mais vulneráveis a esse tipo de comportamento compulsivo.
Plataformas de apostas são projetadas para explorar a impulsividade, diz psicóloga
Questionada sobre a responsabilidade das plataformas de apostas no avanço do problema, Kern afirmou que existe uma combinação entre fatores sociais e o próprio design das plataformas, comparando o mecanismo ao funcionamento de redes sociais e aplicativos de delivery. Segundo ela, esses sistemas são desenvolvidos para acompanhar padrões de comportamento do usuário e reduzir obstáculos entre o impulso e a ação de apostar. "A pessoa está ali, rola o dedinho no celular e compra. A plataforma tem o seu papel, ela é muito estudada para ser competente nisso", disse.
Psicóloga orienta busca por ajuda diante de recaídas
Ao responder a uma pergunta de uma ouvinte sobre o marido que promete parar de apostar, mas recai após algum tempo, Kern afirmou que esse padrão de recaída faz parte do quadro clínico do transtorno, já que poucas pessoas conseguem, sozinhas, estabelecer limites para o próprio comportamento. Ela recomendou buscar ajuda especializada o quanto antes, citando como opções a Clínica de Psicologia da Unesc, que atua em conjunto com a Clínica de Psiquiatria da instituição, além do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD) e psicólogos das Unidades Básicas de Saúde (UBS) de cada região.
A psicóloga também citou dados de um estudo de 2013 segundo o qual 50% das pessoas com transtorno do jogo apresentam ideação suicida, e 17% chegam a tentar tirar a própria vida, reforçando a importância de buscar apoio psicológico diante de sinais mais graves do transtorno.
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