A popularização das plataformas de apostas esportivas trouxe um problema que vem preocupando especialistas em saúde mental: o crescimento da ludopatia, transtorno relacionado ao vício em jogos de azar.
Para discutir o tema, o programa 60 Minutos, da Rádio Som Maior, recebeu, com exclusividade, Gabriel Lima, criador do perfil Gabriel Contra o Vício, que contou como perdeu o controle sobre as apostas e precisou de internação para conseguir retomar a própria vida.
Durante a entrevista, Gabriel relatou que o contato com as apostas começou como entretenimento, mas rapidamente evoluiu para um comportamento compulsivo. “Começa como diversão, como eles mesmos vendem. Depois vira um vício. Eu passei a vender as coisas de casa, mentir, pegar dinheiro emprestado e entrar em depressão”, contou.
Segundo ele, o comportamento é muito semelhante ao observado em dependentes químicos. Embora não exista uma substância envolvida, o mecanismo de compulsão e a dificuldade de interromper o hábito seguem padrões bastante parecidos. “Hoje eu enxergo o jogo como uma droga. O que eu fazia para continuar apostando era o mesmo que um dependente químico faz para conseguir usar uma droga.”
Mais de R$ 200 mil perdidos
Gabriel estima ter perdido mais de R$ 200 mil ao longo do período em que esteve viciado. Sem conseguir interromper o ciclo de perdas, passou a vender bens, contrair dívidas e recorrer até mesmo a agiotas.
O momento decisivo para buscar ajuda aconteceu quando as ameaças deixaram de ser direcionadas apenas a ele.
“Eles começaram a ameaçar minha família. Naquele momento, eu percebi que o problema não atingia mais só a minha vida.”
A recuperação começou em uma casa especializada no tratamento de dependentes químicos, onde permaneceu por nove meses, realizando terapias e acompanhamento psiquiátrico.
Um vício silencioso
Um dos principais alertas feitos por Gabriel durante a entrevista é que a ludopatia costuma permanecer escondida por muito tempo.
Diferentemente de outras dependências, o acesso às apostas acontece pelo celular, dentro de casa, o que dificulta a identificação por familiares.
“Os sinais normalmente aparecem quando o dinheiro começa a faltar para as contas da casa. Antes disso, muitas vezes ninguém percebe.”
Segundo ele, outro erro comum é a família acreditar que quitar as dívidas resolve o problema.
“Pagar as dívidas sem tratar o vício não resolve. Enquanto a pessoa não buscar ajuda profissional, ela tende a voltar para as apostas.”
O alerta também vale para investimentos
Ao final da entrevista, Arthur Lessa chamou a atenção para um comportamento semelhante observado no mercado financeiro.
Segundo ele, operações altamente especulativas, realizadas sem preparo como day trade recreativo e opções binárias podem despertar mecanismos psicológicos parecidos com os das apostas.
“O problema não é o mercado financeiro em si, mas quando ele passa a ser usado como um jogo. Quem busca apenas a adrenalina da operação pode acabar entrando no mesmo ciclo de compulsão observado nas bets.”
A entrevista completa está disponível nos canais do programa 60 Minutos, da Rádio Som Maior.
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