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Rebeka Curtts e a luta pela vida

Transexual foi agredida com trinta facadas. Ela superou e lutou pela prisão dos agressores. Violência pautou debate na Som Maior
Paulo Monteiro
Por Paulo Monteiro Criciúma - SC, 29/10/2020 - 12:05Atualizado em 29/10/2020 - 17:38
Foto: Luana Mazzuchello / 4oito
Foto: Luana Mazzuchello / 4oito

O Brasil é o país onde mais morrem pessoas do universo LGBTQI+ por causas violentas, superando, inclusive, os países árabes que determinam pena de morte para estes. Na manhã do dia 17 de outubro, em Içara, a transexual Rebeka Curtts quase entrou para a estatística que comprova a violência transfóbica no país, ao levar trinta facadas de dois homens. Rebeka sobreviveu e, desde então, vem lutando por seus direitos.

Em entrevista ao programa Agora desta quinta-feira, 29, da Rádio Som Maior, a jovem de 28 anos contou detalhes sobre o dia do atentado. Rebeka relatou que já conhecia o cliente há tempos e que, um mês antes do ocorrido, havia saído com ele. Foi quando ele ficou de pagá-la pelo atendimento, cerca de R$ 1,4 mil. Na madrugada de sábado, ele ligou para a jovem e pediu para se encontrarem para sair e, também, pagar o que lhe devia.

“Ele me mandou a localização da casa dele e eu nunca tinha ido lá, me perdi inclusive. Na hora que me perdi eu liguei para ele e falei que não estava achando, ele me ensinou o caminho e, no meio da ligação disse: estou com um amigo, se importa de levar?. Eu disse que não, eu o conhecia e confiava nele. Chegamos próximo ao local onde ele estava, então ele entrou na frente e o amigo no banco de trás. Ele me deu o cartão e estava sendo algo muito normal, ele digitou a senha na maquininha e não passou. Nisso que não passou eu já dei seta e encostei o meu carro, estava terminando de fazer isso quando vi que ele estava levantando a camiseta e que tinha uma faca”, relatou.

Rebeka conta que antes de seu cliente a esfaquear ela ainda disse: "não faça isso porque antes de vir eu avisei minhas amigas". O homem do banco de trás, então, deu a primeira facada. Seu cliente fechou os vidros do carro para que os gritos não fossem ouvidos, e as facadas começaram. 

“Fiquei muito tempo naquele carro, inclusive chegou uma hora em que eu estava conversando muito com Deus e falei: fiz aniversário na terça, não é possível que eu vá morrer no sábado. Estava pensando muito na minha mãe. Eles andaram comigo mais ou menos uns dois quilômetros me esfaqueando”, disse. A jovem afirma que não tinha mais forças e, quando foi colocada contra o vidro e mandada para o banco de trás, conseguiu tirar o cinto com uma mão e, com a outra, sem que eles percebessem, abriu a porta e saltou do carro. Foi quando Rebeka correu para um sítio e pediu ajuda.

A prisão 

Delegado da Polícia Civil de Içara, Marcelo Viana atendeu o caso. “Logo que a delegacia tomou conhecimento foi instalado o inquérito policial, ela foi ouvida na delegacia e prestou informações que auxiliaram na prisão. Tendo em vista que não havia flagrante, tivemos que reunir provas para pedir medidas cautelosas para o Poder judiciário e o Ministério Público analisar”, declarou.

Uma semana após o ocorrido, o cliente de Rebeka foi preso pela PM. Neste período, antes mesmo da prisão, a jovem organizou uma manifestação clamando pelos direitos das mulheres transexuais. “Fomos ao Ministério Público de Criciúma pedir para que parem de nos matar na região, porque está virando moda matar transexuais aqui. Começamos no MP e fomos em carreata ao fórum de Içara”, disse. O outro agressor foi preso ainda nesta semana, no dia 27. Uma das críticas da jovem trans é justamente em relação à demora para que ocorresse a prisão.

“Essa situação demorou alguns dias porque tivemos que reunir algumas provas e encaminhar ao poder judiciário para que o MP fizesse essa análise. O judiciário deferiu o mandado de prisão e fizemos o cumprimento, prendendo os dois suspeitos”, ressaltou o delegado. “O crime foi tratado como tentativa de latrocínio, o que gera uma pena bem alta”, concluiu.

Ações de apoio a comunidade LGBTQI+

O historiador e militante membro da ong Anarquistas Contra o Racismo (ACR), Ivan de Souza Ribeiro, ressalta que a expectativa de vida de uma mulher transexual no Brasil gira em torno dos 35 anos. Ivan afirma que é preciso que os policiais sejam treinados para prestar a devida atenção a essas mulheres que, muitas vezes, são negligenciadas.

“Muitas vezes essas meninas vão fazer uma denúncia e, por conta do preconceito e da não preparação do corpo policial civil, essas pessoas ficam sofrendo. Nós tivemos aprovados a equiparação da homofobia ao de racismo no Brasil como crime inafiançável, mas não adianta criminalizar se, na ponta, onde essas meninas serão atendidas, o corpo policial que atende em primeiro momento não for capacitado para acolher aquela denúncia”, disse Ivan.

De acordo com o historiador, muitas vezes a polícia não está sensibilizada com essa leitura e, por isso, a violência transfóbica e contra o universo LGBTQI+ acaba sendo muitas vezes subnotificada. “Esse pessoal não possui a segurança necessária após uma denúncia como essa. Falta capacitação, é preciso capacitar esse corpo para acolher de forma solidária e não julgativa com as denúncias que são feitas”, pontuou Ivan, reforçando a disponibilidade de ajuda por parte das ONG’s e da necessidade de atendimento destes casos, sobretudo de violência contra mulheres trans, em delegacias especializadas.

Pelo crime ter ocorrido em Içara, não havia como o caso ter sido tratado na Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso (DPCAMI), que regionalmente está localizada em Criciúma. A psicóloga da Polícia Civil, Samira Macarini, afirma que soube do caso de Rebeka através das redes sociais e se disponibilizou a prestar ajuda e orientação.

“A naturalização de violência está muito presente na nossa sociedade, e isso é muito ruim e prejudicial porque temos percebido, como já foi discutido, que há um maior índice de violência contra públicos mais vulneráveis, como mulheres, pessoas LGBT, negros e indígenas. A sociedade precisa refletir o que estamos vivendo”, ressaltou Samira.

Vakinha para Rebeka 

Por ter recebido diversas facadas no rosto, Rebeka precisa de cirurgias para que possa continuar com suas atividades. “Eu fui impedida de continuar a minha vida por conta disso, e essa vakinha vai me ajudar a ter um recomeço, também por conta dos tratamentos, porque estou sem cabelo e tive meu rosto esfaqueado”, disse.

O link da vaquinha pode ser acessado clicando aqui. Para aquelas pessoas que sofrem violências, a jovem afirma: "nunca se cale, porque se você se calar vai se entregar para a morte. Lute o máximo possível, porque nunca estará sozinha”, concluiu ela.

Ouça a edição desta quinta do programa Agora no podcast: