Durante a adolescência, Marciano Alves conviveu de perto com a realidade de vulnerabilidade social do bairro Cristo Redentor, em Criciúma. Morador da comunidade por 19 anos, acompanhou situações que refletiam os desafios enfrentados por muitos jovens da região.
Foi nesse cenário que surgiu a oportunidade de participar do programa Jovem Aprendiz da Associação Beneficente Abadeus, experiência que mudou os rumos de sua trajetória profissional.
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Ao ingressar no programa, Marciano ampliou conhecimentos, desenvolveu habilidades e passou a enxergar novas possibilidades para o futuro. O primeiro emprego foi conquistado na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) – Subseção de Criciúma.
“O programa Jovem Aprendiz não representa apenas o primeiro salário, mas a oportunidade de ampliar conhecimentos, desenvolver habilidades, conhecer pessoas e compreender melhor as responsabilidades da vida adulta. Pude entender melhor as dinâmicas do programa, me aproximar dos professores, fazer amizades com jovens de diferentes áreas de interesse e aprender assuntos variados que levo para a minha vida até hoje”, destaca.
Com a remuneração, conseguiu investir gradualmente em equipamentos voltados ao universo artístico, área pela qual já tinha interesse. Notebook, mesa digitalizadora e outros recursos adquiridos naquele período foram fundamentais para desenvolver novas competências e abrir espaço para oportunidades profissionais.
Hoje, Marciano atua como videomaker e cineasta, mas a profissão não fazia parte dos planos iniciais, pois foi construída por meio da combinação entre interesse pela arte, qualificação e experiências acumuladas ao longo dos anos.
“O principal legado do programa está na capacidade de ampliar possibilidades e estimular a abertura para novos caminhos profissionais”, afirma.
Impacto que ultrapassa gerações
A história de Marciano representa apenas uma das mais de 6,4 mil trajetórias construídas desde a criação do programa Jovem Aprendiz da Abadeus, em 2011. A iniciativa foi criada para conectar adolescentes, a partir dos 14 anos, ao primeiro emprego formal, especialmente aqueles que enfrentam barreiras relacionadas à vulnerabilidade social e ao preconceito.
Segundo o gestor de Inovação da Abadeus, Maicon Jung Canever, quando o programa começou era comum encontrar jovens expostos à violência, ao trabalho informal e à falta de perspectivas profissionais.
Ao longo dos anos, os resultados passaram a ser percebidos não apenas nas histórias individuais, mas também na própria comunidade. Entre os impactos alcançados estão mais de R$ 21 milhões movimentados na economia por meio dos salários dos aprendizes, redução de 99% nos homicídios registrados no bairro entre 2021 e 2026, diminuição da evasão escolar e ampliação da oferta de mão de obra qualificada para diversos setores produtivos da região.
Para Canever, a inserção protegida no mercado de trabalho fortalece os vínculos familiares, amplia o senso de responsabilidade dos jovens e reduz situações de vulnerabilidade social.
“Mais jovens nas empresas e menos jovens nas ruas sendo cooptados pelo crime trazem reflexos diretos nos indicadores de violência e no desenvolvimento da comunidade”, ressalta.
Oportunidade para transformar vidas
A diretora-executiva da Abadeus, Shirlei Monteiro, destaca que o programa abre portas para o futuro ao unir educação, cidadania e qualificação profissional.
“Este é um programa que une educação, cidadania e desenvolvimento sustentável. Na sociedade, a iniciativa fortalece a cidadania e reduz vulnerabilidades sociais, criando um ciclo virtuoso de inclusão e responsabilidade. Do ponto de vista econômico, contribui para a formação de mão de obra qualificada, impulsionando a produtividade e a sustentabilidade social e econômica da região. Em síntese, o Jovem Aprendiz da Abadeus não é apenas uma porta de entrada para o trabalho, mas um investimento em educação, dignidade e desenvolvimento sustentável”, afirma.
Formação além do primeiro emprego
Para a gestora pedagógica da Abadeus, Heluza Brunelli Justo da Silva, uma das principais mudanças observadas ao longo dos últimos 15 anos foi a forma como empresas e famílias passaram a enxergar a aprendizagem profissional.
Se antes muitas organizações viam o programa apenas como uma exigência legal, atualmente a iniciativa é reconhecida como estratégia para formação de talentos e fortalecimento da responsabilidade social. Ao mesmo tempo, as famílias passaram a compreender a aprendizagem como uma oportunidade concreta de transformação de vida.
“O acompanhamento realizado pela instituição vai além da inserção profissional. Inclui orientação pedagógica, diálogo com empresas parceiras, contato com as famílias e incentivo à permanência escolar. Cada contrato representa mais do que uma vaga de trabalho, mas simboliza autonomia, dignidade e novas perspectivas para toda a família”, explica Heluza.
Ela acrescenta que a experiência do primeiro emprego também influencia diretamente as escolhas profissionais dos participantes.
“O contato com diferentes áreas, tecnologias e ambientes corporativos ajuda os jovens a identificar aptidões, definir objetivos e compreender a importância da formação contínua. Esse movimento sustenta um ciclo de desenvolvimento que conecta educação, trabalho e cidadania. Atualmente, muitos ex-aprendizes retornam à própria instituição como profissionais qualificados ou referências em suas comunidades, reforçando o alcance social do programa”, conclui.
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