Diante do aumento de moradores que perderam o controle sobre as finanças e a saúde mental por conta dos jogos de azar, Criciúma criou um grupo de apoio no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) dedicado ao vício em apostas online. A iniciativa local busca responder a um cenário que já atinge um terço dos brasileiros, segundo dados da UFRGS, e terá desdobramentos no final de agosto com um novo grupo focado em prevenção na Unidade Básica de Saúde (UBS) do Centro.
"O grupo no CAPS surgiu de uma demanda nacional. Quando eu cheguei, trouxe essa demanda e já tinha muitas pessoas que precisavam dessa ajuda, com problemas decorrentes dos jogos", explica o psicólogo residente Luiz Gustavo Pereira.
Facilidade do acesso de bets preocupa
A principal barreira no combate à compulsão é a presença do jogo no cotidiano dos moradores. Diferente de antigamente, quando era preciso se deslocar até um cassino ou bar, o acesso hoje é contínuo e silencioso.
"A maior dificuldade é a facilidade do acesso. O celular é a porta de entrada. A pessoa consegue fazer o uso dentro da sua própria casa, do quarto, do trabalho ou de um hospital", destaca o Pereira.
No perfil do atendimento em Criciúma, chama a atenção o comportamento de busca por socorro na rede de saúde, embora os dados gerais apontem maior prevalência de apostadores homens, as mulheres representam a maioria dos pacientes que procuram o grupo de apoio no CAPS da cidade.
Vício neurobiológico e impacto nas famílias
As apostas já ocupam o terceiro lugar no ranking de compulsões tratadas no SUS, atrás apenas do álcool e de outras drogas. Por alterar o sistema de recompensa do cérebro de forma similar às substâncias químicas, o vício gera sintomas graves de abstinência e afeta diretamente a convivência familiar.
Estimativas apontam que para cada apostador, pelo menos outras seis pessoas ao redor sofrem com estresse, agressividade e pedidos frequentes de dinheiro. Além disso, o acúmulo de débitos com bancos e agiotas compromete a renda e coloca lares inteiros em situação de vulnerabilidade e insegurança alimentar. A constante propaganda de influenciadores e sites de apostas atua como um gatilho diário, transformando até mesmo o lazer de assistir a um jogo de futebol em uma fonte constante de ansiedade.
Redução de danos e expansão para a UBS Centro
A metodologia aplicada no CAPS não impõe a parada imediata do jogo de forma autoritária, mas foca na estratégia de redução de danos, trabalhando o planejamento financeiro e a diminuição progressiva do hábito para evitar recaídas e sofrimento físico ou emocional.
"A família é fundamental nesse apoio sem julgamento. As recaídas fazem parte do processo de saída da abstinência. A orientação é estar presente emocionalmente, mas evitar pagar as dívidas do jogador", pontua o psicólogo.
Enquanto o CAPS segue focado nos casos mais graves e complexos, o novo grupo que estreia no final de agosto na UBS Centro atenderá casos leves e moderados para atuar na prevenção precoce. Além disso, no dia 21 de agosto, será realizado um minicurso durante a Jornada de Psicologia local para capacitar novos profissionais sobre como lidar com o tema na rede pública.
Moradores de Criciúma que buscam acolhimento para si ou para familiares podem procurar a Unidade Básica de Saúde do seu bairro ou dirigir-se ao CAPS do município.
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