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A brasileira que transporta os carros da Formula 1

Thiago
Por Thiago 25/11/2021 - 09:39Atualizado em 25/11/2021 - 11:06

A cena de Lewis Hamilton tremulando a bandeira nacional em frente a milhares de torcedores brasileiros em Interlagos foi impactante. O público presente foi ao delírio com o gesto do piloto da Mercedes, que após vencer uma corrida extraordinária, realizou uma homenagem ao multicampeão e herói nacional, Ayrton Senna. Interlagos é um sucesso, o autódromo parece destinado a grandes eventos, a grandes histórias, a grandes momentos.

Contudo, é importante destacar que antes da bandeirada final diversos movimentos ocorrem para proporcionar o Grande Prêmio em nosso país. Você já se perguntou, por exemplo, como os caríssimos carros de F1 chegam a Interlagos? Ou até mesmo quando você enxerga a troca de pneus nos boxes, como aqueles equipamentos são transportados ao Brasil?

A responsável por "fazer acontecer" tem nome e sobrenome: Maria Regina Yazbek. Ainda pouco conhecida pelos amantes do automobilismo, a empresária atua com descrição nos bastidores. Regina é líder do Grupo Movicarga e da Célere, uma das empresas mais antigas no segmento de logística, e que acompanha a Formula 1 no Brasil desde 1992. O trabalho capitaneado pela profissional é ainda de maior destaque devido ao fato de que apenas o Brasil no calendário da F1 possui uma empresa especializada que atua no setor, visto que em praticamente todos outros GPs, é a DHL que comanda as operações de logística.

O Hora de Acelerar conduziu uma entrevista exclusiva com Maria Regina Yazbek na véspera do GP de São Paulo. A conversa, em formato ping pong, pode ser conferida abaixo!

*Entrevista realizada dia 11 de novembro, véspera do GP de São Paulo.

Hora de Acelerar: Olá Regina, muito prazer estar com você. Você e esse mundo da logística na F1 é muito desconhecido no nosso universo do automobilismo, e acredito que seja uma excelente história saber quem é que comanda essas operações aqui do Brasil.

Regina Yazbek: É uma operação muito bacana, eu falo que a gente faz a parte da cozinha. Por exemplo, agora, tem essa operação back to back, que é México, Brasil e Catar é super corrido, é algo novo, a Formula 1 está colocando mais corridas no calendário e para a gente foi um super desafio esse ano, porque normalmente tem 15 dias de uma corrida e outra, esse ano não tivemos. A gente tem que lidar com várias questões, é uma operação que tem muitos nichos, muitas coisas que a gente não tem ideia de como é o tamanho. Hoje, por exemplo, tivemos um problema grande, os voos atrasaram e chegaram só hoje de manhã em Viracopos (Aeroporto de Campinas/SP). Então a gente tem que fazer uma operação de guerra, trazer tudo para cá (Interlagos), descarregar, montar, e as equipes já estão trabalhando. Nós temos que lutar contra ingerências, que é normal. e estão fora do nosso alcance. Então é uma operação super desafiadora.

Hora de Acelerar: Comentando sobre os 'Back to Backs', teve corrida a pouco no México, agora no Brasil e semana que vem vai ao Catar, que é no outro lado do mundo. Quando que vocês iniciam e terminam todo o trabalho?

Regina Yazbek: Quando as cargas chegam em Viracopos, a gente tem o plano de carga, e descarrega em Interlagos. Aí quando chega no autódromo tem uma equipe nossa especializada nisso, com mais de 90 equipamentos de empilhadeiras para poder tirar essas cargas o mais rápido possível e liberar os aviões, porque também existe a questão de custos, que a gente tem que gerenciar essa operação do ponto de vista financeiro.

HA: E quando chega?

Regina: Não tem um dia certo, tem uma previsão que chegada que é difícil cumprir, porque depende de outras coisas. Eram para chegar todos os voos entre segunda à noite e quarta, e os últimos dois chegaram hoje [quinta-feira].

HA: E quando termina o final de semana, até quando precisam entregar as cargas para a próxima etapa?

Regina: Durante a corrida, enquanto as cargas que eles forem utilizando, se tornarem inutilizadas por alguma razão, elas vão sendo guardadas em cases, padrão Formula 1. E quando acaba a corrida, as equipes trabalham rapidamente para encher esses cases, para fazermos o processo inverso, a gente carrega em Interlagos, e descarrega em Viracopos.

HA: E esse trabalho dura entre domingo e segunda?

Regina: Sim, domingo de noite, até segunda-feira, trabalhando 24 horas.

HA: Quantas toneladas de carga?

Regina: São 1.100 toneladas.

HA: Quantas pessoas são necessárias para fazer toda a operação da Formula 1?

Regina: Na operação de ponta a ponta, de Viracopos a Interlagos, temos mais de 300 pessoas envolvidas.

HA: Quantas viagens são necessárias para transportar tudo isso?

Regina: Mais de 100 viagens de caminhão para carregar tudo.

HA: Vocês começaram lá em 1992. Como começou essa negociação com a Formula 1?

Regina: Era bem diferente, porque a carga era diferente, o dono da F1 era o Bernie Ecclestone. A carga era toda fracionada, não é que nem hoje, que vem todas em cases, eram caixas. Hoje é bem mais sofisticado. E eu era menina, tinha 27 anos. Era um desafio muito grande, a gente não tinha noção de como fazer naquele momento, então foi muito impactante do ponto de vista profissional e pessoal na minha vida, foi muito legal, e é um aprendizado continuo todos os anos.

HA: A FOM descobriu vocês, ou vocês foram atrás deles?

Regina: Eu fui atrás deles. A gente tinha muitos clientes de autopeças, então a Movicarga era uma empresa de renome no segmento. A gente acreditou que a gente podia fazer e fizemos.

HA: Em 2009 você deu uma entrevista, você falou que tinha muitas mulheres na operação de empilhadeiras, isso porque elas eram mais focadas e não iriam se deslumbrar com os carros e os pilotos. Essa filosofia permanece?

Regina: Hoje muita coisa mudou, nosso modelo de negócio mudou, então não existe mais essa distinção. A gente criou esse método há muito anos, porque nós notamos que a mulher tinha um cuidado muito maior com a carga, e para a mulher também era uma coisa muito bacana a ser feita.

HA: Tem bastante gente que se interessa em trabalhar nessa operação por causa da Formula 1?

Regina: Tem, bastante gente. Mas todos os nossos colaboradores, que trabalham aqui, são colaboradores de outras operações. A gente atende a indústria, que é o nosso cliente principal. Então eles vêm dessas operações até como um prêmio para vir trabalhar aqui [no GP de São Paulo], a gente escolhe sempre os melhores.

 

Colaboração: Rafael Machado

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