A ideia de que vacina é assunto de criança ainda é comum — e é um equívoco com consequências. Com o passar dos anos, o sistema imunológico responde de forma mais lenta e menos vigorosa — fenômeno conhecido como imunossenescência.
Ao mesmo tempo, doenças que um organismo jovem enfrentaria sem grandes sustos, como a gripe ou uma pneumonia, passam a representar risco real de internação depois dos 60. Vacinar-se depois dos 60 não é exagero: é uma das formas mais eficazes de proteger a saúde e a autonomia nessa fase da vida.
Para organizar essa proteção, a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) publica anualmente um calendário voltado a essa faixa etária. Vale dizer que essas recomendações não são uma particularidade brasileira: o mesmo conjunto de vacinas para essa faixa etária é adotado por autoridades de saúde dos Estados Unidos (CDC) e de diversos países europeus, com base na mesma evidência científica.
A seguir, um resumo das principais recomendações de rotina para quem tem 60 anos ou mais.
Vacinas contra doenças respiratórias
A influenza (gripe) merece uma dose anual. A composição da vacina é atualizada a cada ano para acompanhar os vírus em circulação, e por isso a proteção precisa ser renovada. A partir dos 60, há ainda versões de alta dose, formuladas para gerar resposta imune mais robusta nessa faixa etária.
A proteção contra o pneumococo, bactéria responsável por boa parte das pneumonias e de infecções graves como meningite, ganhou um reforço importante. A vacina mais completa hoje disponível, a Pneumo 20 (VPC20), está sendo incorporada ao SUS.
Sua grande vantagem é prática: protege contra um número maior de tipos da bactéria em uma única dose, substituindo o esquema antigo, que exigia mais de uma aplicação espaçada ao longo de meses ou anos. Quem nunca se vacinou resolve tudo com essa dose; quem já recebeu alguma vacina pneumocócica no passado em geral apenas respeita um intervalo antes de tomá-la. O médico define o momento certo a partir do histórico.
Mais recente, a vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR) entrou no calendário como rotina a partir dos 70 anos, em dose única. Entre 60 e 69 anos, é recomendada para quem tem condições de risco, como cardiopatias, pneumopatias, diabetes ou imunossupressão. O VSR é uma causa subestimada de internação por doença respiratória nessa faixa etária.
A Covid-19 segue indicada de rotina, com reforços periódicos conforme as orientações vigentes do Programa Nacional de Imunizações. A vacinação permanece a principal ferramenta para reduzir formas graves da doença.
As demais vacinas de rotina
O herpes-zoster — popularmente chamado de cobreiro — costuma surgir justamente quando a imunidade diminui, e pode deixar dores intensas e duradouras. A vacina inativada (VZR) é recomendada a partir dos 50 anos, em duas doses com intervalo de dois meses, mesmo para quem já teve a doença.
A tríplice bacteriana do tipo adulto (dTpa), que protege contra difteria, tétano e coqueluche, deve ser reforçada a cada dez anos. Quem nunca completou o esquema básico precisa atualizá-lo. Esse reforço é especialmente importante para avós que convivem com bebês, já que a coqueluche é perigosa para os recém-nascidos.
A hepatite B é indicada para quem não foi vacinado anteriormente, em três doses (esquema 0-1-6 meses).
Já a febre amarela, para quem não foi vacinado, exige avaliação médica do risco e do benefício, pois tomar essa vacina pela primeira vez após os 60 anos pede atenção redobrada. É particularmente relevante para quem vive em área de risco ou planeja viagens.
Tomar tudo no mesmo dia?
É comum a dúvida sobre receber várias vacinas em uma só visita — gripe, pneumococo, zoster e VSR, por exemplo. Do ponto de vista da proteção, aplicar mais de uma no mesmo dia é seguro e não enfraquece o efeito de nenhuma delas.
Ainda assim, algumas dessas vacinas podem causar reações passageiras, como dor no braço, indisposição e febre baixa. Quando somadas, essas reações tendem a incomodar mais.
Por isso, muitas vezes vale a pena espaçar as aplicações em algumas semanas — não por questão de eficácia, mas de conforto, para que cada vacina seja melhor tolerada. A melhor estratégia depende da rotina e da disposição de cada pessoa.
A regra de ouro: individualizar
Nenhum calendário substitui a avaliação médica. As recomendações da SBIm são um excelente mapa, mas o caminho de cada paciente depende do histórico vacinal, das doenças que já tem e do seu contexto de vida.
Se você tem 60 anos ou mais, leve sua carteira de vacinação à próxima consulta. Atualizar o que falta é um gesto simples, com retorno enorme em qualidade de vida.
Fonte: Calendário de Vacinação SBIm 2025/2026 (faixa 60+). Este texto tem caráter informativo e não substitui a orientação médica individual.
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