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Um relógio diferente do seu

Como lidar com o sono do adolescente

Por Dr. Renato Matos 26/05/2026 - 16:58 Atualizado há 1 hora

É uma cena frequente nas casas com adolescentes. Pela manhã, seu filho demonstra dificuldade em despertar, levanta-se com atraso e apresenta sinais de sonolência. Tampouco manifesta apetite nesse período; a fome só costuma se instalar mais tarde. À noite, no entanto, mantém-se desperto e ativo, prolongando suas atividades até momentos em que os demais membros da família já se recolheram. Esse contraste suscita, com frequência, interpretações equivocadas a respeito do comportamento do adolescente.

A ciência vem mostrando, há quase três séculos, que existe um relógio dentro de cada um de nós — e que ele não bate no mesmo compasso a vida toda.

Três séculos de descobertas

A história começa em 1729, com o astrônomo francês Jean-Jacques d’Ortous de Mairan. Ele colocou uma planta sensível (Mimosa pudica) dentro de um armário escuro e observou que as folhas continuavam a se abrir e fechar nos mesmos horários, mesmo sem qualquer contato com a luz do sol. Havia algo dentro da planta marcando o tempo.

Em 1966, os cientistas alemães Jürgen Aschoff e Rütger Wever fizeram o experimento equivalente em humanos. Voluntários viveram por semanas em um bunker subterrâneo na Alemanha, isolados de qualquer pista temporal. Mesmo assim, mantinham um ciclo de sono e vigília ligeiramente superior a 24 horas — cerca de 24,2 horas, segundo estimativas mais recentes. O corpo humano carrega seu próprio relógio, discretamente mais longo que o dia solar.

A engrenagem central foi localizada num grupo de neurônios no hipotálamo — o núcleo supraquiasmático — que recebe informação direta da retina e usa a luz como principal sincronizador. Em 2017, o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina foi para Jeffrey Hall, Michael Rosbash e Michael Young, que identificaram, em moscas-da-fruta, o primeiro gene-relógio: o period. A descoberta revelou que o relógio biológico está escrito no DNA, presente em praticamente todas as células do corpo. O sono é apenas uma de suas manifestações; há ritmos paralelos para hormônios, temperatura, imunidade e até apetite — razão pela qual o adolescente também não sente fome pela manhã.

A particularidade do adolescente

Esses relógios não são iguais ao longo da vida. Durante a puberdade, o ciclo sono-vigília se desloca para mais tarde — o cérebro passa a liberar melatonina (o hormônio do sono) mais tarde no fim do dia. Por volta dos 13 anos, observa-se em diferentes culturas uma preferência por atividades noturnas e por dormir e acordar mais tarde.

Trata-se de um fenômeno fisiológico do desenvolvimento, não de uma característica de personalidade ou de conduta. Esse atraso atinge o pico por volta dos 19 anos e depois se reverte gradualmente, deslocando-se para horários mais matinais com o avançar da idade.

Quando exigimos que um adolescente acorde às seis para chegar à escola às sete, estamos pedindo o equivalente biológico de exigir que um adulto acorde às três ou quatro da manhã, todos os dias.

Recomendações práticas

  • Luz natural pela manhã. Abrir cortinas e tomar café perto da janela. A luz da manhã é o sinal mais potente para sincronizar o relógio interno com o início do dia.
  • Telas à noite, com parcimônia. A luz azul imita o sol e atrasa a melatonina. Recomenda-se reduzir o uso na hora que antecede o sono.
  • Horário de dormir realista. Em vez de impor horários incompatíveis com a biologia do adolescente, negocie uma rotina possível e mantenha-a com regularidade.
  • Fim de semana com moderação. Compensar uma ou duas horas é razoável; diferenças maiores agravam o desajuste — o chamado jet lag social.
  • Escolas que começam mais tarde funcionam melhor. A Califórnia (desde 2019) e regiões da Coreia do Sul e da Alemanha já adiaram o início das aulas no ensino médio, com bons resultados.

O adolescente que hoje prefere horários tardios tende a se tornar, com o passar dos anos, um adulto cujo relógio biológico favorece o despertar precoce. Até lá, vale lembrar que a resistência matinal não reflete oposição deliberada, mas sim o funcionamento de um sistema biológico cuja existência a ciência vem documentando há quase três séculos.

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