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Sobre pais que não sabem ser pais

Ananda Figueiredo
Por Ananda Figueiredo 23/11/2017 - 18:00Atualizado em 23/11/2017 - 19:39

Recebi ontem pelo whatsapp um áudio que se espalhou no norte do estado. Nele, uma mãe desesperada e com raiva porque seu filho de 5 anos havia levado uma boneca para casa no final de semana, sob orientação da professora. Segundo a mãe, "boneca é brinquedo de menina" e manda-la pelo menino é “ideologia de gênero”.

Eu não vou me alongar aqui sobre esta tal ideologia de gênero que muito tem se falado ultimamente, mas o assunto já está na lista para os próximos posts do blog. Sobre o fato em si, vou dizer apenas que a boneca em questão era a Mariana Conta 1, personagem do desenho Galinha Pintadinha que ensina os números (se quiser saber mais sobre o caso, uma rápida busca no google pode te conar dos detalhes). Este texto é, na verdade, sobre o que este episódio me fez refletir: sobre pais que não sabem ser pais.

Vez por outra recebo no consultório pessoas que têm grandes dificuldades relacionais e cujo problema começou na relação que não tiveram com seus pais. Em geral, as tarefas de cuidado, o carinho, o afeto, se desenvolveram apenas com a mãe. Recebo também muitas mulheres-mães que reclamam que os pais não participam da educação dos filhos e filhas. Mas o que tem me deixado curiosa nos últimos tempos é que é crescente o número de homens que me procuram porque perceberam, com o nascimento dos filhos, que não sabem como se aproximar da criança, o que lhes causa grande sofrimento.

Não se trata de desamor, se trata de desajeito. Eles não sabem como pegar, não sabem como trocar fralda, não sabem muitas e muitas coisas e, para piorar, tem medo de aprender. Primeiro, porque aquilo é tão distante da sua realidade que não sabem nem por onde começar. Segundo porque, apesar do grande desejo de estar com o seu bebê, se condenam porque isto, da forma como aprenderam, é tarefa da mãe – seu "papel de homem" é pôr comida na mesa. Eu também pensava que estes preconceitos estavam diminuindo, mas no interior do consultório, onde todos sabem que seus segredos estarão muitíssimo bem guardados, estas confissões aparecem. O fato é: ainda são muitos os pais que não sabem ser pais.

Salvo aqueles que realmente negam este papel, o que eu quero dizer é que não saber ser pai não é só responsabilidade daquele homem. Nós, mulheres, ganhamos uma boneca como primeiro brinquedo e fomos estimuladas a brincar de mamãe. Eles, os homens, não só não ganham a boneca como ainda recebem olhares atravessados de “isso não é coisa de menino” quando, por alguma razão, tem uma boneca em mãos. E aí, de forma bem generalizada e extrema, eles crescem aprendendo que precisam ser bons em direção, afinal brincaram muito de carrinho. E nós, mulheres, aparentemente precisamos sair na frente no cuidado com o bebê, já que temos anos de experiência cuidando das nossas bonecas. Mas, nós sabemos, não somos mais só mães – dirigimos, trabalhamos e muuuuito mais. Os homens, por sua vez, também não podem mais ser só os responsáveis pelo dinheiro – precisam, e desejam, desempenhar as tarefas da casa e da família - principalmente estar com os filhos, para o bem de todos.

Por isso, eu te pergunto: quando um menino brinca de boneca, você tem medo de que? De que ele se torne um pai?

4oito

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