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Doutrinação de crianças? Sobre a Escola sem Partido

Ananda Figueiredo
Por Ananda Figueiredo 20/12/2017 - 11:30Atualizado em 21/12/2017 - 09:06

Você leu meu texto de ontem sobre o projeto Escola sem Partido? Lá eu te convido para conversar e, como resposta, alguns leitores me falaram da preocupação com a idade das crianças e como acreditam que elas são facilmente influenciadas. Pois bem, vamos falar deste ponto então.

Me parece legítima a preocupação. Afinal de contas, o que nós não queremos é que a próxima geração seja tão "não-pensante" quanto a nossa, não é mesmo? Nós somos muito bons em reproduzir e reproduzir e reproduzir e reproduzir novamente discursos, sejam eles do assunto que forem. Somos ótimos em emitir opiniões razas, baseadas em fake news ou naquele programa de televisão. Somos repentinamente influenciados a comprar este ou aquele produto porque fulano-de-tal-disse-no-instagram-que-é-bom (aliás, não é só bom, ele faz milagre!). Diante de tudo isso, compartilho da preocupação de vocês em não criarmos uma nova geração de pessoas vulneráveis, impressionáveis e manipuláveis. Mas será que as crianças e adolescentes são realmente assim?

Vamos iniciar com outra pergunta: quando você diz que "não" para seu filho ou filha, ele prontamente o obedece? No meu círculo social e nas famílias que costumo receber no consultório, a realidade não é bem esta. Desde os três anos, quando a criança vivencia a popularmente chamada "fase dos porquês", nós, adultos, precisamos nos esforçar bastante para dar conta de responder às indagações curiosas das crianças. Depois, elas crescem um pouquinho e chegam à adolescência, mas o enfrentamento, o questionamento e a dúvida permanecem ali. Se você convive com algum adolescente, já deve ter observado que eles não costumam aceitar qualquer resposta. Inclusive, preferem que sejam eles aqueles que dão a última palavra. Tanto que não raro ouvimos as palavras "adolescente" e "revolta" na mesma frase, não é mesmo?

Este fato, que muitos chamam de "problema de autoridade", não é uma dificuldade restrita ao ambiente doméstico. Especialmente na fase do adolescer, todos os dias vimos professores, diretores e outras "autoridades" educacionais gritando suas dores e pesares sobre "como a educação não é mais a mesma". Correndo o risco de simplificar o problema em demasia, a questão é: se você impõe, o adolescente se opõe.

Enfim, o que quero dizer é que enxergar a criança ou o adolescente como uma folha em branco é uma compreensão parcial e incompatível com os dias atuais. Ainda que a infância ou adolescência fossem momentos de construção linear de personalidades, visões e posicionamentos de mundo, tenho grandes dúvidas se o local de recebimento de informações seria a escola, já que o smartphone parece muito mais atrativo. De todo modo, uma coisa nós sabemos: antes de ir para a escola, a criança já tem perguntas. Você pode fomentar no seu pequeno ou pequena o pensamento científico, aquele que questiona e duvida e que a acompanhará por muitos anos, ou pode responder o que provavelmente responderam para você: "porque sim". Dá menos trabalho, é verdade, mas, por favor, depois não projete a sua responsabilidade no outro caso seu filho ou filha seja "influenciado" ou "doutrinado" com verdades absolutas e respostas simples.

4oito

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