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Como vai o namoradinho?

Ananda Figueiredo
Por Ananda Figueiredo 14/09/2017 - 21:00Atualizado em 14/09/2017 - 22:04

Você tem saudade da sua infância? Pergunto isso porque, com regularidade, recebo no consultório pessoas saudosistas da época em que podiam apenas ser crianças. Mas, se valorizamos tanto a infância, por que será que nós temos acelerado os primeiros anos de vida dos pequenos incentivando comportamentos de adultos?

A Secretaria de Assistência Social do estado do Amazonas lançou recentemente uma campanha intitulada “Criança não namora, nem de brincadeira” que ganhou as redes sociais e tem por objetivo chamar atenção para a sexualização na infância. Claro você pode estar pensando que é um excesso de patrulha do politicamente correto, até porque, eu sei, você não faz com a intenção de prejudicar seus filhos, mas, infelizmente, é isso que acaba acontecendo.

É preciso respeitar o desenvolvimento cognitivo de cada etapa da vida. Uma criança não sabe o que é um namoro, não tem esse discernimento. É comum que meninos e meninas sintam algum tipo de repulsa em relação aos beijos entre adultos, por exemplo, e este é um sinal de que ainda não têm maturidade para compreender todas as nuances de um relacionamento com outras pessoas. Isso não significa que as crianças não possam andar de mãos dadas para demonstrar afeto, ou dar um beijinho ou um abraço no amiguinho da escola, mas somos nós que damos à estes gestos o nome de "namorinho", fazendo referência ao que nós entendemos como namoro. Aqui está a erotização da infância: quando pegamos algo que é do mundo dos adultos e influenciamos ou incentivamos as crianças a fazerem uso disso também, o que inclui também as roupas, acessórios, e músicas, por exemplo. O aparente simples fato de perguntar sobre o namoradinho ou namoradinha desperta a atenção da criança para coisas que vão além do brincar; já tive pacientes, por exemplo, que não podiam fazer atividades com tinta no consultório para não estragar o esmalte das unhas - e eram meninas de seis ou sete anos.

Vale dizer ainda que, eu, pelo menos, nunca vi um adulto perguntar para um menino como está o seu namoradinho ou para a menina como está a namoradinha. Ou seja: além de todas as outras questões, desconsidera a diversidade sexual que pode começar a se manifestar ainda na infância.

O que fazemos então se nossos filhos chegarem em casa dizendo que estão namorando? Primeiro, é necessário entender que provavelmente a criança está brincando de namorar, assim como brinca de professor ou de casinha. A partir disso, conversar, perguntar como é esse namoro e enfatizar que trata-se de uma brincadeira, afinal só adultos namoram. Parece pouco importante, mas pesquisas indicam que crianças que desconhecem o que é um namoro (como tem que ser na idadezinha delas), estranham aproximações sexualizadas, como aquelas com finalidade de assédio ou abuso, e, assim, é provável que contem à família antes.

Por fim, um lembrete: algo aparentemente simples que eu digo pode repercutir de forma muito severa na história e no desenvolvimento do outro. Por isso, que tal cuidarmos do que falamos às nossas crianças?

4oito

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