Não, não estamos falando de futebol.
Estamos falando de uma criança de oito anos que subiu a arquibancada com um cartaz nas mãos e um sonho no peito. Estamos falando de um garoto que, mesmo torcendo pelo Corinthians, teve a coragem — porque é preciso coragem, sim, mesmo sendo criança — de admirar um adversário e um ídolo.
E estamos falando do que aconteceu depois: adultos gritando, xingando, perseguindo uma criança até a saída do estádio, escoltada por policiais, como se tivesse cometido um crime.
O crime dela foi sorrir.
Na Neo Química Arena, Neymar presenteou o menino com a camisa que usava em campo, atendendo ao pedido escrito na faixa que ele carregava. Por um instante, o futebol foi aquilo que prometeu ser desde sempre: encontro, afeto, admiração que atravessa rivalidades. Mas o instante seguinte revelou outra coisa. Parte da torcida corintiana, inconformada com a derrota, transformou a alegria de uma criança em alvo. A família precisou deixar o setor cercada por seguranças, como se estivesse fugindo de uma guerra — e, em certo sentido, estava.
Isso não é paixão. Paixão não humilha uma criança. Paixão não precisa de escolta policial para proteger um sorriso.
O que vimos ontem foi o retrato de uma sociedade que perdeu a medida das coisas. Uma sociedade em que a derrota dói tanto, e a intolerância cabe tão facilmente no peito, que sobra até para os mais indefesos. Se um garoto de oito anos não está a salvo de gritar torcendo o time errado — ou de simplesmente admirar um ídolo —, então o problema não é mais o futebol. O problema somos nós.
O esporte é só o espelho. E o que ele reflete, dessa vez, é feio.
Fica a pergunta que incomoda: em que momento trocamos o amor pelo clube pelo ódio ao outro? Em que momento a arquibancada deixou de ser lugar de festa para virar terreno de caça? Um menino queria apenas guardar uma lembrança. Guardou, sim — mas também vai guardar o medo.
O futebol não está doente. Quem está doente é parte de quem o assiste.
E enquanto seguirmos tratando isso como “coisa de torcedor exaltado”, continuaremos vendo crianças chorarem por motivos errados dentro dos estádios que deveriam ser, antes de tudo, lugares seguros para sonhar.
O Alerta dado. Resta saber se alguém vai ouvir.
Alex Maranhão
Esporte & Negócios
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