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As diferentes estratégias de Lula e Bolsonaro para os palanques em Santa Catarina

Por Upiara Boschi Edição 06/05/2022
Foto: reprodução
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Não é mero capricho a projeção e o desejo do ex-presidente Lula (Pt) de ter um palanque unificado em Santa Catarina, mesmo que precisa compartilhar parte dele com o presidenciável Ciro Gomes no primeiro turno. Não é por desdém e nem por improviso que o presidente Jair Bolsonaro (Partido Liberal) deixa mais solta a questão da pré-candidatura a governador em Santa Catarina, parecendo mais preocupado com seu escolhido para disputar o Senado. Há razões para que os polarizadores da eleição nacional ajam assim.

Começando pela esquerda - ou por essa esquerda ampliada pela presença de nomes como o senador Dário Berger (Psb) e o ex-deputado estadual Gelson Merisio (Solidariedade) -, é importante observar a história das eleições catarinenses. O Pt nunca conseguiu chegar a um segundo turno no Estado - o mais próximo que chegou foi em 2002, em meio à onda gerada pela primeira vitória de Lula, quando José Fritsch ficou em terceiro lugar a míseros 2,75 pontos percentuais de distância de Luiz Henrique da Silveira (Pmdb), segundo colocado no primeiro turno, vencedor no final da disputa com apoio dos petistas. Fritsch bateu, naquela eleição, os 27,3%.

A avaliação atual é que a pulverização de candidaturas ao governo prevista para este ano deve fazer com que seja possível chegar ao segundo turno com percentual menor de votos, o que assanha não apenas Dário e Merisio, os cristãos-novos da esquerda, mas também o petista Décio Lima (Pt), pré-candidato de uma linha mais tradicional. As chances de vitória na segunda volta são mínimas, especialmente se a chapa for encabeçada pelo Pt, mas estar na disputa até o fim significa mais do que uma vitória simbólica.

Em uma eleição que tem tudo para ser acirrada em nível nacional, Lula precisa de um bom palanque local no primeiro e no segundo turnos. Até hoje, as candidaturas petistas precisaram improvisar o apoio no Estado. Em 2002, como já disse, houve a ligação com Luiz Henrique, benéfica para ambos e só viabilizada porque o peemedebista acabou esnobado pelo presidenciável José Serra (Psdb), que preferiu o palanque do favorito Esperidião Amin (Ppb). O resto é história.

Quatro anos depois, Luiz Henrique havia se reconciliado com os tucanos nacionais e apoiou Geraldo Alckmin para costurar a tríplice aliança (Pmdb, Psdb e Pfl) no Estado. Isolou o Pt e Amin e fez com que ambos tivessem que improvisar uma aliança na reta final do segundo turno, insuficiente para mudar os resultados - LHS foi reeleito e Alckmin ficou na frente de Lula no Estado. Em 2010 e 2014, Raimundo Colombo (Democratas e depois Psd) venceu em primeiro turno e o Pt sofreu mais duas fortes derrotas para o Psdb (Serra e Aécio Neves) nos segundos turnos catarinenses. Em 2018, Carlos Moisés (Psl, hoje no Republicanos) e Merisio (à época no Psd) disputaram quem aproveitava melhor a Onda Bolsonaro.

Desta vez, Lula não quer improvisar. Ele exaltou que haja diversas pré-candidaturas na chamada frente de esquerda em Santa Catarina, mas repetiu o apelo para que seja uma só a partir de agosto, quando as convenções confirmarem os times eleitorais. A chance de ver a esquerda governar Santa Catarina é mínima, mas é importante manter a disputa acesa no segundo turno, sem improvisos. Pelo cenário atual, todos os demais pré-candidatos declarariam voto em Bolsonaro no segundo turno.

No tabuleiro do atual presidente, o jogo é diferente. Bolsonaro está alinhado à pré-candidatura do senador Jorginho Mello (Partido Liberal) pelo número 22. Mas fora um ou outro elogio à atuação parlamentar, não parece fazer muita força para que ele reúna em Santa Catarina um palanque de peso - quanto mais único. Os pré-candidatos que são eleitores declarados de Bolsonaro, como o senador Esperidião Amin (Progressistas) e o ex-prefeito Antídio Lunelli (Mdb) não estão sendo instados a cerrar fileiras com Jorginho Mello. O Republicanos, que estará na chapa da reeleição do presidente, filiou em governador Carlos Moisés para concorrer à reeleição sem que Bolsonaro se incomodasse por um segundo sequer.

No jogo do atual inquilino do Palácio do Planalto, quanto mais candidatos ao governo declararem apoio a ele, melhor. Ter dois deles no segundo turno, melhor ainda. Bolsonaro vai deixar solta a disputa pelo governo estadual. Os olhos - e ações - dele estão voltados para o Senado. Ele entende que, se reeleito, precisará ampliar a força no ambiente que é o principal entrave político de seu governo. Por isso, escolheu o aliado canino Jorge Seif, de insuspeita fidelidade. E vai trabalhar para que ganhe musculatura.

A filiação do ex-deputado federal Valdir Colatto (ex-Mdb) ao Partido Liberal na reta final do prazo de troca de partidos teve dedo presidencial. Ele seria um nome mapeado para a primeira suplência de Seif, trazendo diálogo com o agronegócio e com os setores mais bolsonaristas da base emedebista. Também está sendo feita, com sucesso, a aproximação com o empresário Luciano Hang e com o prefeito chapecoense João Rodrigues (Psd). 

Assim, Lula e Bolsonaro constroem seus jogos para o primeiro turno em Santa Catarina. Um quer um palanque para habitar no segundo turno, outro quer um senador. Estão trabalhando para isso.

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