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O que dizem as ondas eleitorais passadas em SC

Por Upiara Boschi Edição 21/01/2022
Foto: Divulgação
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Uma das grandes questões sobre as eleições deste ano em Santa Catarina é a continuidade ou não dos efeitos da onda eleitoral causada pela vinculação dos votos dados ao presidente Jair Bolsonaro (Pl) para candidatos locais que estavam no mesmo partido à época, o Psl. Muitos apostam no completo esvaziamento dessa lógica, outros acreditam que teremos novamente uma enxurrada de militantes bolsonaristas mais ou menos conhecidos.

As ondas eleitores são fenômenos cíclicos e geralmente acontecem pela soma de algum contexto nacional de impacto com o desgaste de uma geração de políticos no poder estadual. Antes da Onda Bolsonaro, Santa Catarina viveu duas outras que podem ajudar a vislumbrar o que vem pela frente: a Onda do Cruzado, em 1986, e a Onda Lula, em 2002.

Na primeira, o sucesso inicial do congelamento de preços no combate à inflação, base do Plano Cruzado, garantiu ao Pmdb a vitória nas eleições para governador em 22 Estados brasileiros e apenas uma derrota. Foi nesse contexto que o partido elegeu seu primeiro governador em Santa Catarina, Pedro Ivo Campos. 

Mas havia um contexto local de desgaste do Pds, herdeiro da Arena no poder. As eleições de 1982, vencidas por Esperidião Amin (Pds) por apenas 13 mil votos de vantagem na disputa com Jaison Barreto (Pmdb) já indicavam estava chegando momento da oposição ao regime militar chegar ao poder. E veio em forma de enxurrada. O Pmdb ficou com as duas vagas ao Senado (Dirceu Carneiro e Nelson Wedekin), com nove das 16 cadeiras de deputado federal e 19 dos 40 deputados estaduais.

Os números tornam-se ainda mais expressivos se considerarmos que a eleição de 1986 foram as primeiras em que outros partidos começaram a furar a polarização entre Pds e Pmdb. Quatro anos antes, apenas os dois partidos haviam elegido deputados estaduais. O Pmdb fizeram os mesmos 19, mas ficara atrás do Pds, que elegeu 21. Em 1986, o Pds caiu para 12 integrantes e surgiram os primeiros nomes representantes do Pfl, além das primeiras cadeiras do Pt, do Pdt e do Pdc (extinto Partido Democrata Cristão). Foi em 1986 que tiveram suas primeiras vitórias dois nomes que depois governariam Santa Catarina pelo Pmdb: o deputado estadual Paulo Afonso Vieira e o deputado federal Eduardo Pinho Moreira.

Como foi o pós-onda dessa turma emedebista? O Plano Cruzado logo revelou-se um fiasco, o governo Pedro Ivo viveu uma série de sobressaltos, incluindo a morte do peemedebista no final do mandato, com a posse de Casildo Maldaner. O Brasil voltou-se à direita com a eleição de Fernando Collor à presidência da República em 1989 e em Santa Catarina, nas eleições de 1990, os Pds e Pfl voltaram a aliar-se, vencendo as eleições com Vilson Kleinübing (Pfl) ao governo e Amin ao Senado. O Pmdb viu suas bancadas reduzirem para cinco deputados federais e 10 estaduais, números que passariam a ser a referência de seu real tamanho.

A onda Lula, em 2002, colocou o Pt de vez na primeira divisão da política catarinense. Até então, o partido vinha elegendo prefeitos e ganhando espaço nos parlamentos, mas nada parecido com o que aconteceria a reboque a votação que Lula alcançou entre os catarinenses naquele primeiro turno, quando teve 56,6% dos votos - a única vitória de um presidenciável petista em Santa Catarina até hoje.

Havia contextos, claro que havia. Fernando Henrique Cardoso (Psdb) vivia um fim lacônico de segundo mandato precocemente esvaziado logo após a reeleição, quando promoveu a desvalorização do Real que o candidato FHC prometera não fazer. Cenário econômico ruim e desemprego em alta criaram as condições para a primeira vitória de Lula. No contexto local, Amin era governador e favoritíssimo à reeleição, mas sua campanha enfrentou diversas dificuldades internas. Na aberturas das urnas daquele primeiro turno, o resultado espantou. O Pt elegeu Ideli Salvatti como senadora mais votada, cinco deputados federais e nove estaduais. A maior bancada federal e a segunda estadual - o Ppb (ex-Pds) de Amin fez 10 deputados. Para o governo, José Fritsch (Pt) ficou a 2,7 pontos percentuais de desalojar Luiz Henrique da Silveira (Pmdb) do segundo turno. O crescimento do Pt e os erros de Amin foram fundamentais para a histórica virada de LHS no segundo turno.

Como foi o pós-onda dessa turma? Com um misto de soberba e pureza ideológica, o Pt não aceitou participar do governo de Luiz Henrique - que atraiu, para compensar, o Pfl e unificou em torno de si o Psdb. Estava criada a famosa tríplice aliança. Os petistas apostaram novamente em Fritsch em 2006 e na continuidade da Onda Lula. Quebraram a cara. Fritsch continuou em terceiro, mas muito longe do segundo turno. A bancada estadual petista caiu para seis parlamentares, enquanto a federal reduziu para três deputados. Um dado curioso: dos nove deputados estaduais eleitos em 2006, apenas dois foram reeleitos (Ana Paula Lima e Padre Pedro). Boa parte deles não conseguiu vencer eleições novamente.
Olhar o passado nem sempre traz respostas para o futuro, mas dá boas pistas. Acho que deixei algumas pelo texto, leitor.

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