A interdição total da Ponte Anita Garibaldi, na BR-101, em Laguna, pode estar relacionada a um problema estrutural identificado ainda em 2022.
A informação consta em documentos obtidos pelo gabinete do deputado estadual Mário Motta (PSD) junto à concessionária Via Costeira e à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), que revelam o histórico de monitoramento da estrutura antes do fechamento da travessia.
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Inaugurada em 2015 pelo Governo Federal, a ponte passou a ser administrada pela Via Costeira em 2020, quando a concessionária assumiu o trecho sul da BR-101, anteriormente sob responsabilidade do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT).
Primeiro alerta surgiu em 2022
De acordo com os documentos, o primeiro indício de um problema estrutural relevante foi registrado durante uma inspeção de rotina realizada em outubro de 2022.
Em ofício encaminhado ao DNIT e à ANTT em 10 de outubro daquele ano, a Via Costeira informou ter identificado falhas estruturais relacionadas à resistência à torção no pilar 35, dentro da seção celular da ponte.
As inspeções apontaram aberturas entre as aduelas 6 e 7, além das aduelas 14 e 15 do vão central sobre o mastro 35. Também foi identificada uma abertura entre as aduelas 8 e 9 do vão lateral do mesmo apoio, além do rompimento completo das quatro barras que conectavam a laje inferior entre as aduelas 6 e 7.
Segundo a concessionária, o cenário indicava risco de colapso estrutural, possivelmente provocado por um vício oculto de construção. Como medida emergencial, o tráfego foi restringido a uma faixa no sentido Norte, enquanto os veículos pesados passaram a utilizar a Ponte das Laranjeiras, conhecida como Ponte da Cabeçuda.
Reforço estrutural foi realizado
Após a identificação do problema, a concessionária executou um reforço estrutural com a instalação de cabos adicionais de protensão na seção celular da ponte, fixados por caixas metálicas e réguas desviadoras.
A intervenção foi concluída em 18 de outubro de 2022 e permitiu a liberação do tráfego.
Nos meses seguintes, a Via Costeira deu continuidade às obras de reforço nos vãos central e lateral do mastro 35 e programou uma prova de carga para janeiro de 2023. Paralelamente, iniciou uma análise estrutural completa da ponte e solicitou ao DNIT documentos técnicos da fase de construção, como diário de obra e registros das forças aplicadas nos cabos estaiados durante a montagem da estrutura.
Novo problema foi identificado em 2026
Em reunião realizada no dia 6 de julho de 2026, representantes da ANTT e da concessionária, atualmente integrante do grupo Motiva, discutiram uma nova ocorrência na estrutura.
Desta vez, foi identificada uma abertura de aproximadamente 2,5 milímetros entre aduelas no vão lateral do mastro 36, em um ponto diferente daquele afetado em 2022.
Como medida preventiva, a concessionária estudava restringir a circulação de veículos com Autorização Especial de Trânsito (AET) superiores a 10 toneladas por eixo enquanto os estudos avançavam.
Ainda durante a reunião, a empresa informou à ANTT que continuava enfrentando dificuldades para reunir toda a documentação técnica da construção da ponte, incluindo registros do fechamento do tabuleiro e dos ajustes de tensão dos cabos estaiados.
Conforme a ata, a busca por esse material ocorre desde 2022 e já identificou divergências entre os projetos disponíveis e os registros encontrados. A ANTT informou que buscaria apoio do DNIT para localizar o acervo técnico.
Rompimento ocorreu no mesmo trecho reforçado
Três dias após a reunião, em 9 de julho de 2026, a concessionária comunicou à ANTT que havia recebido um relatório técnico apontando o rompimento de cabos de protensão na junta entre as aduelas A6 e A7 do vão central, exatamente no lado do apoio 35, o mesmo trecho que havia recebido reforço estrutural em outubro de 2022.
De acordo com a análise, a capacidade resistente da seção comprometida já não atendia integralmente aos parâmetros de segurança exigidos para as cargas previstas em projeto.
Diante da recomendação da consultoria técnica responsável, a concessionária decidiu interditar totalmente a Ponte Anita Garibaldi às 19h do dia 9 de julho de 2026, desviando o tráfego para a Ponte da Cabeçuda.
As intervenções emergenciais começaram no dia seguinte, com previsão inicial de dez dias para a liberação parcial do fluxo de veículos, enquanto seguem os estudos para definir a solução definitiva para a estrutura.
Deputado cobra esclarecimentos
Após analisar a documentação, o deputado estadual Mário Motta afirmou que pretende buscar esclarecimentos sobre a condução do caso. Entre os questionamentos estão o intervalo de quase quatro anos entre a identificação do primeiro risco estrutural e a interdição total da ponte, além da dificuldade relatada pela concessionária para reunir toda a documentação técnica da obra.
“O ponto mais grave é que o catarinense só ficou sabendo da situação quando a ponte já estava fechada. Alguém precisa explicar o que foi feito desde 2022? Não podemos admitir que uma obra de quase 800 milhões de reais já tenha dado graves problemas tão cedo. Eu e meu gabinete estamos investigando tudo isso e buscando elementos que justifiquem levarmos o caso aos órgãos federais de controle. É inconcebível que uma rodovia vital para o desenvolvimento do estado seja tratada com tanto descaso”, relata.
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