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O drama do povo de Rio Carvão continua (VÍDEO)

O sábado começou com muita fuligem no ar em comunidade do interior de Urussanga. O problema é antigo
Denis Luciano
Por Denis Luciano Urussanga, SC, 22/06/2019 - 09:35Atualizado em 22/06/2019 - 09:51
Mão suja pela fuligem, resultado das queimas da coqueria de Rio Carvão / Divulgação
Mão suja pela fuligem, resultado das queimas da coqueria de Rio Carvão / Divulgação

Basta passar a mão sobre uma mesa para perceber. "Antigamente, era uma poeira fina. Coisa pouca. A gente dava conta. Hoje, não mais", conta Brígida Marioti, antiga moradora de Rio Carvão, pacata comunidade do interior de Urussanga. Ela, que hoje mora em um bairro vizinho, mas tem familiares e amigos residindo na localidade, se refere à grande aflição dos últimos anos, a poluição constantemente gerada por uma empresa mineradora na região.

"Hoje cedo eles estavam assim, ó", disse, antes de enviar uma de tantas fotos mostrando a fumaça que sai dos fornos que queimam rejeitos de carvão quase que o tempo inteiro. "Tem coqueria ali desde os anos 50. Mas antigamente era carvão puro em três fornos e com chaminés. Hoje não tem chaminé, eles queimam em 184 fornos uma mistura de rejeito de carvão com asfaltita e carvão verde, um rejeito altamente cancerígeno", aponta Brígida.

A fumaça em Rio Carvão na manhã deste sábado

A comunidade tem intensificado protestos nos últimos meses. "Quando a coqueria vai fazer as medições exigidas pelo Ministério Público, eles reduzem os fornos para 30% da capacidade, daí conseguem laudos sempre favoráveis", denuncia. Ela explica que, certa vez, se conseguiu um aval técnico contra a empresa, que não foi adiante nos órgãos ambientais. "O IMA só alega que não tem equipamentos para medir esse tipo de poluição", reclama a antiga moradora.

Em uma noite recente, de frio, Brígida fez outro teste que assustou. "Se você estiver de gorro na cabeça em uma noite fria em Rio Carvão, dê um tempo, passe a mão e veja que o sereno é preto", lamenta ela, lembrando que os picos da atuação da coqueria são pela manhã e à noite. "Os moradores se preocupam muito com a limpeza, o cheiro de enxofre, mas nós estamos ainda mais preocupados é com a saúde, tanto dos vizinhos quanto dos trabalhadores dessa empresa", ressalta Brígida.

Em um dos protestos, moradores expondo os panos sujos pela poeira da coqueria

A Procuradoria da República em Criciúma foi procurada. "Informaram que a empresa está fazendo mudanças, que a cobrança será maior e que novas medições serão feitas", explica a manifestante, voluntária da Associação Comunitária do Rio Carvão (Acric), a entidade cujo presidente Sidnei Casagrande, lidera um movimento constante pela observação de regras pela coqueria que opera na comunidade. "Agora, além da poluição ambiental, tem a sonora, eles estão mantendo um britador que se oue a até dois quilômetros de distância", detalha.

Outro exemplo do dano que a queima dos fornos está causando vem das piscinas de algumas das residências das 250 famílias do entorno. "É um pretume só. Além da poeira, sai um óleo daquele lugar, e ele vai parar nas piscinas, a água fica com um óleo preto, não tem como usar nem como tomar banho", conta Brígida. Em abril a Acric organizou um protesto silencioso diante da Urussanga Minérios, a empresa responsável pela operação questionada. 

Na ocasião do ato foi narrado que vinha ocorrendo casos de moradores com náuseas, vômitos, fortes dores de cabeça, ardência nos olhos e outros sintomas de que o problema vem se agravando. A empresa se manifestou em nota, informando que tomou as providências solicitadas para o monitoramento do ar na região. Confira:

“Em atendimento às condicionantes constantes na Licença Ambiental de Operação, a empresa deveria apresentar ao IMA o monitoramento das emissões de fontes estacionárias, onde mede o SO2 e material particulado, e, a cada seis meses, realizar, em um período continuo de cinco dias, o monitoramento da qualidade do ar, utilizando equipamento AGV, onde são medidas as PTS, Partículas Totais em Suspensão.
 

Após as reclamações apresentadas por alguns moradores próximos da empresa, foi acordado em reunião com o IMA, representante dos moradores e Prof. Eduardo Nosse do IAC (Instituto Ambiental Catarinense), contratado pela empresa para intermediar essa negociação, que a empresa realizaria um monitoramento por um período de 60 dias, contínuos, podendo se estender por mais 30 dias, conforme os resultados. Foi solicitado então, pela empresa, que esse monitoramento fosse iniciado após conclusão da instalação dos novos equipamentos, que estavam sendo implantados para atendimento a CONAMA 436, legislação que estabelece os parâmetros a serem atendidos para as fontes estacionárias de emissão, cujo prazo para adequação das empresas seria até dezembro de 2018.
 

A empresa instalou, dentro do prazo, os equipamentos, realizou as medições para verificação de enquadramento na resolução CONAMA 436 nos meses de fevereiro e março (cabe esclarecer que esta data foi a disponível pelo IAC), iniciando agora, no fim de março, o monitoramento dos 60 dias, sendo que foram acrescidos, a pedido do IMA e da comunidade mais dois parâmetros, quais sejam Partículas Inaláveis (PI) e SO².
 

Os pontos de monitoramento foram indicados pelos moradores, não tendo nenhuma ingerência por parte da empresa.
 

Cabe informar que, em um dos pontos, ocorreu avaria no equipamento, com o furto da solução que permitiria a leitura do teor de SO², fato este que fez com que a empresa optasse por instalar câmera de filmagem em todos os pontos. Em um dos pontos, o morador se opôs à instalação, justamente naquele onde ocorreu a avaria, obrigando a UNESC a retirar o equipamento. Esse fato foi comunicado ao IMA, para que defina, com a comunidade e o Eng. Nosse novo local, sendo que a medição nos outros dois foi iniciada no dia 9 de abril. Conforme acordado com os moradores, após 30 dias de monitoramento, a UNESC, empresa que está realizando o monitoramento, fará uma apresentação prévia dos resultados.
Ressaltamos que a empresa, com os resultados obtidos no monitoramento das fontes estacionárias e nos AGV (medição até janeiro/19), está devidamente enquadrada na legislação ambiental” Assina, Urussanga Minérios.