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Planejar uma viagem já melhora o bem-estar antes da partida, apontam pesquisas

Por Redação Criciúma, SC, 29/06/2026 - 04:34 Atualizado há 14 segundos

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Por muito tempo, o turismo ocupou um lugar secundário nas discussões sobre saúde, tratado como mero intervalo entre obrigações. Esse panorama vem mudando. Um estudo recente publicado no Journal of Travel Research, conduzido por pesquisadores da Edith Cowan University (ECU), na Austrália, aplicou a teoria da entropia, conceito da física que descreve a tendência dos sistemas a caminharem rumo à desordem, para investigar se experiências positivas de viagem ajudam o corpo humano a se manter equilibrado e resiliente ao longo do tempo.

Os ganhos parecem começar antes mesmo da partida. Levantamento conduzido pela Universidade Cornell constatou que a expectativa por uma viagem eleva a felicidade de forma mais duradoura do que a expectativa pela compra de bens materiais. Já a pesquisa da Universidade de Surrey, no Reino Unido, identificou que o simples ato de planejar férias já deixa as pessoas mais felizes, independentemente de a data estar marcada ou não. Faz sentido, então, que parte desse ritual de planejamento inclua até questões burocráticas, do tipo overbooking o que é e quais garantias o passageiro tem nesses casos: organizar os detalhes práticos parece fazer parte do mesmo processo mental de antecipação que gera bem-estar.

Para Amit Kumar, professor assistente da Universidade do Texas em Austin e um dos autores do estudo de Cornell, o benefício de planejar uma viagem está menos ligado à obsessão por cada detalhe do roteiro e mais à conexão social que ela proporciona. "Os viajantes acabam conversando mais com as pessoas sobre suas experiências do que sobre compras materiais", afirmou. "Em comparação com as posses, as experiências são o melhor material para histórias." Matthew Killingsworth, coautor da mesma pesquisa e hoje pesquisador sênior na Wharton School, da Universidade da Pensilvânia, reforça que esse tipo de planejamento estimula um olhar otimista sobre o que está por vir. "Nossa mentalidade voltada para o futuro pode ser uma fonte de alegria se soubermos que coisas boas estão por vir, e viajar é uma coisa especialmente boa para se esperar", disse.

Voltando à pesquisa australiana, a equipe da ECU usou o conceito de entropia como lente para propor um paralelo direto com a saúde humana. Segundo a doutoranda Fangli Hu, responsável pelo estudo, experiências positivas de viagem ajudam a reduzir essa deriva natural rumo ao desequilíbrio biológico, ao passo que viagens estressantes ou mal planejadas produzem efeito oposto. "O envelhecimento, como processo, é irreversível. Embora não possa ser interrompido, pode ser desacelerado", afirmou Hu.

Na avaliação da pesquisadora, viajar contribui para o bem-estar ao expor a pessoa a ambientes desconhecidos, estimular o movimento corporal, ampliar o contato social e gerar emoções positivas, os mesmos pilares que sustentam segmentos como o turismo de bem-estar, o turismo de saúde e o turismo voltado à prática de ioga. "O turismo não trata apenas de lazer e recreação. Ele também pode contribuir para a saúde física e mental das pessoas", completou.

O estudo descreve quatro sistemas do corpo que parecem responder de forma positiva à experiência de viajar. Cenários novos estimulam o organismo, elevam a atividade metabólica e ativam processos de autorregulação responsáveis por manter os sistemas biológicos funcionando em harmonia. Essas vivências também parecem acionar o sistema imunológico adaptativo, encarregado de identificar e neutralizar ameaças externas. De acordo com Hu, essa resposta torna o corpo mais apto a se proteger. "Em termos simples, o sistema de autodefesa se torna mais resiliente. Hormônios favoráveis ao reparo e à regeneração de tecidos podem ser liberados e promover o funcionamento do sistema de autocura", detalhou a pesquisadora.

As atividades mais relaxantes de uma viagem também parecem amenizar o estresse crônico e moderar respostas imunológicas hiperativas. Andar por cidades desconhecidas, encarar trilhas, pedalar ou apenas ficar mais tempo em pé do que o costume aumenta o gasto metabólico e acelera o transporte de nutrientes pelo organismo, processos que sustentam a capacidade do corpo de se regenerar. "Participar dessas atividades pode reforçar a função imunológica e a capacidade de autodefesa do corpo, fortalecendo sua resistência a riscos externos. O exercício físico também pode melhorar a circulação sanguínea, acelerar o transporte de nutrientes e auxiliar na eliminação de resíduos, mantendo em conjunto um sistema ativo de autocura", explicou Hu, acrescentando que o exercício moderado beneficia ossos, músculos e articulações.

Desde a publicação do estudo original, outras pesquisas vêm reforçando esse campo ainda em formação. Uma nota técnica de 2025, assinada por Hu e colegas, descreveu a chamada terapia de viagem como abordagem emergente para promover bem-estar, mas alertou para a necessidade de pesar riscos e benefícios caso a caso. Outro artigo do mesmo ano defendeu maior colaboração entre a medicina de viagem e o setor turístico, refletindo o interesse crescente em como férias, riscos de saúde, cuidados preventivos e bem-estar do viajante se sobrepõem. Uma revisão sistemática, também de 2025, concluiu que a relação entre turismo e envelhecimento saudável vem ganhando espaço entre pesquisadores, mas segue pouco explorada e carente de métodos mais robustos.

Os próprios autores fazem questão de demarcar os limites dessas descobertas. Turistas estão sujeitos a doenças infecciosas, acidentes, insolação, violência e contaminação por água ou alimentos, riscos que costumam estar ligados a planejamento falho ou escolhas de destino inadequadas ao perfil do viajante. "O turismo pode envolver experiências negativas que potencialmente levam a problemas de saúde, em um processo paralelo ao aumento da entropia. Um exemplo marcante é a crise de saúde pública causada pela covid-19", pondera o estudo da ECU.

A combinação entre novidade, movimento físico e interação social parece ser o fio condutor por trás de boa parte desses achados, presente tanto na viagem em si quanto no próprio ato de planejá-la. Não se trata de afirmar que qualquer deslocamento desacelera o envelhecimento de forma automática e garantida. Quando segura, restauradora e fisicamente ativa, porém, uma viagem pode deixar marcas que vão além das fotos guardadas no celular, funcionando, segundo o conjunto dessas pesquisas, como ferramenta legítima de promoção de saúde ao longo da vida.
 

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