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O Furacão do Estreito sobrevive ao caos

Turbulência, W.O, jogadores sem transporte e plano de saúde: quem diria que o Figueirense seria um dos únicos catarinenses a comemorar o ano de 2019?
Heitor Araujo
Por Heitor Araujo Florianópolis - SC, 11/12/2019 - 18:00Atualizado em 11/12/2019 - 18:04
Dois pontos livraram o Figueira do rebaixamento (Foto Matheus Dias/ Figueirense)
Dois pontos livraram o Figueira do rebaixamento (Foto Matheus Dias/ Figueirense)

É difícil definir o retrato do Figueirense em 2019. O Furacão viveu os piores momentos possíveis nos bastidores, ficou 18 jogos sem ganhar, deu W.O e teve atleta com lesão na cabeça atendido pelo Sus, por falta de pagamento de plano de saúde. Mesmo assim, conseguiu livrar-se do rebaixamento, após troca de diretoria e consecutivos empates nas rodadas finais. Dos quatro grandes catarinenses nas séries A e B, contrariou o prognóstico e foi o único a evitar o rebaixamento.

Seguindo uma série de reportagens sobre o péssimo ano do futebol de Santa Catarina, o Portal 4oito recapitula a caótica temporada do Figueirense, que por dois pontos não terminou em um rebaixamento que poderia complicar de vez o futuro do alvinegro, atolado em dívidas. A reportagem teve o auxílio do jornalista José Henrique Koltermann, do Grupo VEG Esportes, com as informações sobre o 2019 do Furacão. 

Um ano inacreditável

“Em 98 anos de história, esse foi bem marcante: não por conquistas, mas pelas dificuldades. Algo antes nunca visto”. Assim define José Koltermann sobre o 2019 do Figueirense. Foi como se tivesse passado um furacão pelo Estreito. Quebra de contrato com a empresa gestora do futebol, falta de transporte e alimentação para a base e o W.O. Ainda assim, o Figueira escapou do rebaixamento, graças a um processo de reformulação total comandado por integrantes do Conselho Deliberativo.

O Estadual, sob o comando de Hemerson Maria, foi apagado. Com 32 pontos, terminou a primeira fase empatado em pontos com a Chapecoense, algoz na semifinal. A ideia para a Série B era busca reforços para lutar pelo acesso. Mas, assim como o Tigre, não passou de uma ilusão. Com um turbilhão interno, o Figueirense chegou a estar praticamente rebaixado na metade da competição, com nove pontos de distância para o primeiro clube fora da zona de rebaixamento.

Rafael Marques, atacante experiente, foi um dos símbolos da resistência do elenco

Crise financeira

Para falar da Série B 2019, é preciso retroceder rapidamente ao ano de 2017. Com a promessa de saldar uma dívida de R$ 70 milhões e um déficit mensal de R$ 500 mil, o Figueira encaminhou uma parceria com a Elephant. A ideia era trazer reforços imediatos, livrar a equipe de um rebaixamento naquela temporada – o Figueira estava na zona de rebaixamento na virada do turno, época de alinhamento com a empresa – e alçar o clube à Copa Libertadores até o ano de 2022.

“Em 2017 mudou o modelo de gestão, o departamento de futebol foi terceirizado por um período de 20 anos, com prorrogação por mais dez. Este 2019 começou com pessoas identificadas com o clube. Aos poucos a situação foi mudando: as pessoas identificadas saíram após atritos com a Elephant”, explica Koltermann”. 

Mesmo com o ambiente pesado internamente, continuava-se a falar em subir para a Série A. “Para a Série B o discurso era de acesso, que alguns investimentos seriam feitos, com reforço de elenco. A história acabou sendo outra, diante dos problemas financeiros, uma gestão muito falha da empresa”, lembra o jornalista.

Maria detona o clube

O caos foi tão grande no Scarpelli que Hemerson Maria, identificado com o clube, não aguentou e pediu para sair na 13ª rodada da Série B, após trocar farpas constantes com a diretoria via imprensa. Naquela altura, o Furacão ocupava a 10ª posição e vinha de um empate fora de casa contra o Tigre. Na coletiva de despedida, sobrou para os conselheiros e diretores da Elephant.

"É lamentável. Os jogadores estão demonstrando ter muito caráter e dignidade. Nível de resiliência acima da média, os jogadores e os funcionários do clube. Estamos correndo com as nossas pernas", falou Maria após o empate com o Criciúma. "É uma situação de abandono que o clube vive. Não existe conselho fiscal, administrativo. Já falei, supliquei, implorei", desabafou.

Hemerson Maria não foi o único. Alguns profissionais da comissão técnica e funcionários também deixaram o clube, além de jogadores, como o goleiro Denis, que havia pedido a dispensa anteriormente. Desde então, o Figueirense começou a viver com outro fantasma; além de aproximar-se a passos largos da zona de rebaixamento, os jogadores iniciaram as ameaças por W.O, devido à falta de pagamento e diálogo por parte da direção.

O jogo que não aconteceu

“O W.O foi o fato mais marcante da temporada, principalmente pela falta de diálogo, não existia relacionamento humano com os funcionários do clube. O W.O foi por uma causa muito maior do que a falta de pagamento, tanto que os funcionários todos apoiaram”, opina José Koltermann.

Na 18ª rodada, os jogadores reuniram-se no vestiário da Arena Pantanal. A reivindicação era pelo pagamento de todos os vencimentos atrasados até o dia da partida, além de uma promessa pública de que não haveria retaliações contra o grupo de jogadores, que travava publicamente uma batalha contra a diretoria – curiosamente, a postura pública dos jogadores foi uma greve de silêncio. Dentro de campo, os atletas do Cuiabá aqueciam normalmente, mesmo com a incerteza de que haveria jogo. 

Sem pagamento, os atletas do Figueirense recusaram-se, finalmente, a entrar em campo, e o Cuiabá saiu vencedor do confronto por 3 a 0. Posteriormente, já na lanterna da competição e amargando uma sequência incrível de jogos sem vitória, o Figueira veio a perder mais três pontos pelo W.O. Conseguiu reaver na justiça os pontos que, no fim, o livrariam do rebaixamento.

Protesto silencioso ensurdecedor: jogadores em greve de silêncio e de jogo (Foto: Reprodução)

Plano de saúde?

Engana-se quem acha que o Figueirense não passaria por vexame maior do que o W.O. As categorias de base já estavam sem alimentação e sem transporte, mesmo com a pressão dos jogadores profissionais por melhorias. Na 22ª rodada, já na vice-lanterna, o volante Zé Antônio chocou-se de cabeça contra um adversário do Sport Recife. Retirado de ambulância de campo, recebeu uma surpresa ao chegar no hospital: teve que aguardar na fila, pois o clube não pagava mais nem o plano de saúde dos jogadores.

Na base, treinamentos não aconteciam porque não havia ônibus para levar os atletas ao CT, localizado em Palhoça. “Dirigentes da base tiraram dinheiro do bolso para pagar o alimento para os jogadores da base nas vésperas de um clássico contra o Avaí. O CT fica em Palhoça e teve vários treinos da base cancelados porque não havia o pagamento do transporte”, aponta Koltermann.

Conselho reage

"Falta respeito pelo ser humano. As pessoas aqui no Figueirense estão tristes, oprimidas. Depois do W.O os funcionários receberam os jogadores e aplaudiram de pé. O Figueirense de hoje não é o Figueirense. Não é aquilo que a gente conhece. Sou mais um da lista a me sentir humilhado pelo que passamos", desabafou Vinícius Eutrópio

O técnico foi contratado para substituir Hemerson Maria e não conseguiu sequer uma vitória pelo Furacão em sete jogos, no auge da turbulência interna no clube. Concomitante à saída de Eutrópio, o Conselho Deliberativo começou a dar respostas à empresa gestora.

“O Conselho iniciou uma mobilização para tirar a Elephant do comando, mesmo com o contrato em vigor. O processo foi acelerado por conta do W.O. Alguns conselheiros estiveram à frente, de forma unilateral através da justiça de Florianópolis. Desde então se iniciou o processo de Retomada Alvinegra”, atesta Koltermann. Como golpe final ao clube, a Elephant anunciou à CBF que o Figueirense estava desistindo da Série B, mas os dirigentes que assumiram com a saída da empresa contornaram a situação.

Eutrópio afirmou que assinar com o Figueirense era um dos únicos arrependimentos da vida

Depois de resultados ruins, o clube contratou e conseguiu a arrancada, com uma sequência invicta de sete empates e duas vitórias, coroada com a fuga de rebaixamento sob o comando de Pintado. “O que fica dentro de campo neste ano: um retrospecto ruim, mas menos significante dos problemas fora de campo”, avalia Koltermann.

O único não rebaixado

Mesmo com o pior clima possível nos bastidores, o torcedor do Figueirense teve o que comemorar em 2019. Sem título catarinense, eliminado na segunda fase da Copa do Brasil para o Luverdense, a glória coube à fuga do rebaixamento e a celebração do declínio do maior rival. O Leão da Ilha fez uma das piores campanhas da história dos pontos corridos na Série A e foi lanterna isolado da competição, juntando-se ao Furacão na Série B de 2020. 

O Figueira terminou o ano com 59 jogos, 16 vitórias 28 empates e 15 derrotas. Ameças de greve, três treinadores e um futuro nebuloso pela frente foram a tônica do 2019 Alvinegro. Mesmo livre no campo, o Figueira agora enfrenta outra batalha. Nos tribunais.