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O Centro Cultural Jorge Zanatta em capítulos

A partir de hoje, A Tribuna, 4oito e Som Maior apresentam a história do antigo prédio a ser devolvido à comunidade em 29 de novembro
Denis Luciano
Por Denis Luciano Criciúma, SC, 30/10/2018 - 11:05Atualizado em 30/10/2018 - 12:03

O Centro Cultural Jorge Zanatta está em reformas. Será devolvido à comunidade em 29 de novembro. Para marcar a data, a Rádio Som Maior, o Jornal A Tribuna e o 4oito publicam a partir de hoje, diariamente, artigos que contam histórias sobre o prédio erguido nos anos 40 para abrigar, primeiramente, o Plano Nacional do Carvão. Confira o capítulo 1:

Pimentel, o Tribuna Criciumense e o Carvão: Centro Cultural Jorge Zanatta, capítulo 1

José Pimentel estava exultante na manhã daquela segunda-feira. A razão repousava inquieta entre os dedos do conceituado advogado vindo do Espírito Santo e que nas últimas semanas estava encarregado de entregar um jornal à sua terra adotiva. Circulava naquele 2 de maio de 1955 a edição número 1 de Tribuna Criciumense, “um semanário sem quaisquer ligações políticas nem financeiras”. O editorial de capa anunciava a linha mestra do recém nascido porta voz de Criciúma “aplaudindo e condenando tudo aquilo que resulte direta ou indiretamente em benefício de nossa comuna”.

Logo na capa de estreia, a assertiva era levada à risca no velho Tribuna, com um animado artigo que referia “a sobrevivência do carvão nacional”. Pimentel era um apaixonado pelo tema tanto que, ou ele, ou algum auxiliar de confiança conforme o crescimento do jornal, se encarregava de acompanhar as últimas da indústria carbonífera, já o motor econômico daquela Criciúma de ruas enegrecidas mas enriquecidas pela pirita.

Referia a vistosa notícia que o Congresso havia derrubado o veto do presidente Café Filho à aquisição pela União, via Banco do Brasil, de carvão nacional para abastecer as estradas de ferro do governo, então grandes consumidoras do ouro negro para mover suas composições país afora. Eram tempos em que os trens ainda imperavam.

Carvão era coisa séria em Criciúma desde a descoberta ao acaso, quando das despretensiosas escavações de Giácomo Sônego nos últimos anos do século 19. Virou indústria rapidamente e, àquela altura, já era responsável pelo boom de uma cidade que crescia vertiginosamente. Eram esses anos, entre os 40 e os 50, os de grande salto da população e, com isso, de multiplicação dos problemas sociais. A cidade romantizada dos cinemas bem frequentados, dos footings para namoricos na praça Nereu Ramos, também era a cidade que escondia sua miséria nos rincões empoeirados dos bairros, e na luta árdua de seus trabalhadores pelo mínimo de saúde a oferecer para os seus sob os céus enegrecidos da poeira do nosso minério.

Tribuna Criciumense, 2 de maio de 1955, capa da edição número 1

Confira em áudio:

Tudo isso fez nascer, muito antes de José Pimentel com sua verve do seu Tribuna Criciumense, um ponto de partida para a assistência a quem trabalhava e a quem explorava o ouro negro criciumense. Era época em que nossa certidão de nascimento ainda carregava “Cresciúma”, e a emancipação havia ocorrido apenas 17 anos antes. Logo, o ex-distrito de Araranguá era um município ainda adolescente quando o Plano Nacional do Carvão iniciava a edificação de um prédio nos arrabaldes da atual Pedro Benedet. O singelo caminho poeirento já levava ao Hospital São José e mais adiante, mato e quilômetros à frente, até Urussanga. Um aclive à esquerda de quem saía da praça Nereu Ramos foi escolhido. O tal Plano, instituído em 1937 em pleno Estado Novo para gerir a complexa mineração em tão continental país, havia optado por Cresciúma – a grafia mudaria de fato um ano depois daquele 1943 – para abrigar sua sede sul brasileira. Era um de tantos reconhecimentos futuros ao rótulo que se tornou nosso de fato cinco anos mais tarde, de Capital Nacional do Carvão.

Era 43. Getúlio Vargas presidente. Elias Angeloni prefeito. José Pimentel formava-se advogado pela Faculdade de Direito de Niterói, no Rio de Janeiro. Fundações aprontadas, escavações que chamavam a atenção. Subiam paredes. Mais dois anos e ali passaria a operar um espaço que foi do carvão ao petróleo, do cárcere à cultura, da quase morte ao renascimento. Mas como o povo reagiu àquele prédio de paredes grossas surgindo ali, naquele descampado? Amanhã, responderemos.