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Loja de jogos de cartas vira refúgio contra as telas e reúne gerações em cidade de SC

Com quase 13 anos de história, a loja criciumense realiza torneios oficiais de jogos de cartas

Por José Demathé Criciúma, SC, 20/07/2026 - 15:18 Atualizado há 11 horas
Master’s Duel, loja especializada em jogos competitivos de cartas | Foto: José Demathé/4oito
Master’s Duel, loja especializada em jogos competitivos de cartas | Foto: José Demathé/4oito

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Em um mundo que cada vez se debate mais o isolamento digital, e o vício nas telas, um local em Criciúma faz o caminho oposto. Para quem gosta de competir, conhecer novas pessoas, e principalmente, jogar “Card Games”, a Master’s Duel com quase 13 anos de história, surge como um epicentro no sul de Santa Catarina aos apaixonados pelos jogos competitivos de cartas, os conhecidos como TCG (Trading Card Game).

Comandada por Claudenir Nascimento, popularmente conhecido como Nizo, a Master’s Duel iniciou sua história no dia 02 de novembro de 2013, diante da necessidade de um local focado para receber competições, e principalmente o público de jogos de cartas competitivos da região.

“A loja nasceu porque eu era e sou um jogador. Simplesmente por isso”, relembra nizo “Nós jogávamos aqui em Criciúma, mas não havia loja. Os jogadores se reuniam e tínhamos que ir para Florianópolis, que era onde era mais acessível”, explica.

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O espaço se tornou referência do nicho em todo o sul catarinense, sendo a única loja especializada entre a grande Florianópolis e Torres. “Na nossa região, principalmente em volta de Criciúma, pegando Tubarão, as pessoas vêm para cá porque aqui é o único lugar em que elas podem jogar o card game que elas gostam”, destaca Nizo.

História teve início por necessidade de um local para jogar na região | Foto: José Demathé/4oito

O mundo competitivo dos jogos de cartas

Para quem olha de fora, quando falamos de jogos de cartas, a primeira coisa que vem em mente é, canastra, poker, truco… Porém a Master’s traz uma proposta totalmente diferente do entretenimento passivo. Os TCGs como são chamados, são jogos de estratégia onde os participantes montam e personalizam seus próprios baralhos usando cartas compradas em pacotes ou trocadas com outros jogadores.

“O card game foi feito para ser competitivo. Ele foi criado para eu ter o meu deck (baralho) e ganhar de você. E não necessariamente o board game (tabuleiro) seja assim. O tabuleiro é mais um entretenimento familiar ”, afirma.

No mundo dos conhecidos como TCG o “pai de todos”, segundo Nizo é Magic: The Gathering (MTG), jogo que já possui mais de 30 anos de existência. Porém as mesas da loja também recebem torneios de Yu-Gi-Oh!, Pokémon, One Piece, Rift Bound e o recente Lorcana. 

Torneios acontecem semanalmente na Master’s Duel | Foto: Divulgação/4oito

Os torneios locais seguem um calendário mensal. Os próprios jogadores financiam as premiações através das inscrições, que se revertem em produtos e itens especiais enviados pelas próprias produtoras dos jogos. Além da premiação física, as vitórias na Master’s Duel te dão oportunidade de vagas para torneios regionais, nacionais e eventualmente escalonando até em mundiais, por se tratar de uma loja oficial da produtora.

Colecionismo e o alto valor de cartas

Nas redes sociais é comum de aparecer conteúdos de cartas sendo vendidas por milhares de dólares, mas isso não reflete diretamente no jogo, e sim é uma extensão da produtora para os colecionadores. "O foco principal é o jogo. Porém, as produtoras entraram forte no nicho do colecionismo. Foram criadas cartinhas especiais com artes diferentes, impressões holográficas tridimensionais, full art, aquilo ali enche os olhos. Por isso ela tem um valor diferenciado, pela raridade alta”, explica Nizo.

Aos que querem aprender a jogar, o custo de entrada passa longe do ramo de colecionismo. “Aprender a jogar, qualquer card game o custo é baixíssimo. É muito barato. Até os jogos mais caros, para começar no processo de aprendizagem, são baratos. O problema é que o jogador aprende e logo quer competir. É nesse momento em que ele começa a adaptar o deck básico para um competitivo que o jogo fica um pouco mais oneroso", ressalta.

O papel dos card games na interação social

Atualmente, os principais card games do mercado possuem versões online gratuitas e muito semelhantes às físicas, funcionando como uma excelente porta de entrada para novos jogadores. No entanto, no ambiente virtual a interação social real atrás das telas é quase inexistente.

Nizo aponta justamente para esse problema do mundo digital, onde o distanciamento impede conexões reais. “Lá na internet, você não tem interação social. Você joga com um jogador, acabou o jogo, você nem sabe o nome dele ou de qual país ele é. Na loja, criou-se um círculo de amizade. O desconhecido torna-se amigo”, destaca.

Card games tem um papel fundamental na interação social | Foto: Divulgação/4oito

Essa sinergia ultrapassa os dias de torneios e transforma a rotina do local, transformando clientes em uma comunidade que celebra junta até mesmo momentos pessoais. "Aqui, datas de aniversário de jogadores... as pessoas comemoram dizendo: 'não, o meu aniversário vai ser comemorado na Master’s', trazendo bolo, salgadinho, refrigerante. É como um time de futebol: você começa a jogar e nunca mais esquece quem jogou com você", afirma Nizo.

Essa forte influência na vida pessoal é confirmada por João da Rosa, competidor assíduo da loja, que coleciona amizades de longa data iniciadas em simples partidas de Yu-Gi-Oh!.

“Os amigos que fiz na loja levo pra vida, exemplo o Paulo, conheci ele com o jogo e hoje toda segunda almoço na casa dele, o Votri já saímos em festa, participei da festa de ano novo da família dele, já saí de Araranguá para ir até braço do norte para encontrar o Cap e a galera pra tomar um café e jogar”, explica.

Crianças longe do mundo digital

Enquanto dados de 2025 do Cetic.br mostram que 82% das crianças de 6 a 8 anos já usam a internet, muitas famílias fazem o caminho inverso. Contra o uso excessivos de telas no qual a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda limitar, os jogos de cartas surgem como uma alternativa analógica. 

Como é o caso da Gabriela Vilaça mãe da Alice, conta que os card games e jogos de tabuleiros foram uma ótima alternativa para não dar um celular para a filha.

 “Nós optamos por não dar um celular para a Alice justamente para ela não se isolar num mundinho digital e ficar alheia à realidade. Então, os jogos de tabuleiro, os card games, eles são um espaço privilegiado nessa ponte de interação, não só entre nós, família, mas com outras pessoas, outras amizades da idade dela, de outras idades, que favorece a troca de experiência e o próprio desenvolvimento da Alice enquanto criança”, destaca.

Alice e sua familia copetindo no regional de Pokemon TCG | Foto: Divulgação/4oito

Alice não é a única competidora da família na Master’s Duel, inclusive os própios pais, Gabriela e Francisco Pizzette, além de incentivar, participam dos campeonatos juntos com filha.

“Quando a gente se enfrenta nos torneios, sempre rola aquele clima, de marido e mulher se enfrentando. Mas sempre vale a pena dormir no sofá pela vitória. Aí com a Alice, a gente costuma não só jogar, mas como também ensinar ela, né, já durante as próprias partidas quando tá valendo. Trocando uma ideia, ensinando, dando dicas, aí a gente coopera com ela pensando no desenvolvimento dela”, brinca Francisco.

Além do fator social, o contato com o papel e com as dinâmicas do jogo também estimula o aprendizado prático e o raciocínio lógico, indo na contramão das preocupações dos impactos do excesso de tecnologia no desenvolvimento cognitivo infantil.

Nizo explica como utilizou os jogos de cartas para que o próprio filho aprendesse novas línguas. "O meu filho começou a jogar com sete anos. Ele mal sabia ler, mas olhava a cartinha e decorava. Algum tempo depois, comecei a dar cartas só em inglês para ele pesquisar no dicionário. Com 11 anos ele era fluente no idioma", destaca.

A Master’s Duel se tornou ponto de encontro

Como a única loja especializada no sul de Santa Catarina, a Master’s Duel cumpre um papel fundamental para os entusiastas da região. O professor Luiz Gustavo Votri destaca a importância do espaço para municípios vizinhos, centralizando o fluxo de jogadores tanto para encontros casuais quanto para competições oficiais regulamentadas pelas marcas.

“Ela (a Master’s Duel) agrega muito para nossa região de Criciúma, Içara, Tubarão e tudo mais, pois é o nosso único ponto de encontro para o TCG, tanto na parte competitiva quanto na parte sancionada. Pois a Master, ela tem todos os certificados para poder rodar a parte sancionada dos TCGs, e eu falo isso à minha parte como juiz de One Piece e também como jogador de Yu-Gi-Oh!”, afirma Votri.

A Master’s Duel se tornou o principal ponto de encontro para se jogar card games | Foto: Divulgação/4oito

Mais do que um hobby ou um espaço comercial, o local acabou se transformando em um refúgio mental contra as pressões diárias e o estresse do dia a dia. “A Master’s se tornou o meu sábado religioso. Todo sábado que eu não vou na Master parece que é um sábado diferente, é um sábado atípico. É uma casa, uma segunda casa que eu posso jogar e desestressar do cotidiano, do dia a dia, porque minha mente fica focada somente no TCG”, justifica o jogador.

Onde encontrar a Master’s Duel

Aos interessados em conhecer a comunidade, a Master’s Duel fica localizada no coração de Criciúma, na Galeria Comasa (Rua Cel. Marcos Rovaris, Centro). As portas abrem de segunda a sábado a partir das 14h, estendendo-se pelos períodos vespertino e noturno. Os sábados, naturalmente, concentram o maior movimento de público devido à maior disponibilidade dos competidores.

Nizo reforça que o verdadeiro coração do negócio não está nas premiações ou nos troféus, mas sim no impacto humano que o hobby proporciona. “O card game é um jogo instrutivo e social. O caráter competitivo dele é apenas complementar. Tem jogadores, por exemplo, que vêm na loja, não se importam se ganham ou se perdem uma partida ou um torneio, ele vem para se entreter”, finaliza.

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