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Despedida por uma janela de hospital de uma vítima de coronavírus

Aislan Corrêa faleceu e foi cremado no último sábado, dia 4; última vez que viu e foi visto pela família foi no dia 18 de março
Heitor Araujo
Por Heitor Araujo Criciúma - SC, 06/04/2020 - 10:37Atualizado em 06/04/2020 - 19:01
Aislan tinha 32 anos e nenhum histórico de doença / Foto: Divulgação
Aislan tinha 32 anos e nenhum histórico de doença / Foto: Divulgação

Os relatos que vêm da Itália há mais de um mês agora se concretizam no Sul catarinense. A despedida de uma vítima de coronavírus é incompleta. Os pais se despedem de um filho, ainda em vida, pela janela de hospital e têm como última mensagem: 'vão para a casa descansar, eu estou bem'. Foi o que disse Aislan Crozeta Correa, 32 anos, quando internado no Hospital Santa Terezinha, em Braço do Norte, no dia 18 de março. No dia 21, o paciente foi transferido para Içara; lá permaneceu 15 dias entubado, não resistiu ao vírus e faleceu no dia 4 de abril, vítima de insuficiência respiratória. 

Durante a internação, sem visitas, a vítima se comunicou com a família por vídeo chamadas, um auxílio da tecnologia nos momentos em que as barreiras físicas, mesmo tão frágeis, são intransponíveis. O drama da família, que sem ver o corpo ainda custa a cair a ficha sobre a perda, foi minimizado pelas redes sociais no período de internação, mas potencializado após a morte.

A irmã de Aislan, Daiane Crozeta, nem havia saído do hospital para a liberação do corpo e já se deparava com um áudio mentiroso sobre o quadro clínico do irmão. Um suposto amigo de Aislan, que afirmava que a vítima havia sofrido um infarto e que a morte não tinha relação com a Covid-19, apesar do laudo médico confirmar o vírus como causa. 

"Uma pessoa que nunca ficou doente teve uma grande complicação no pulmão e não resistiu. E com tudo isso a gente tem que lidar com uma fake news. Têm pessoas que querem ver o laudo médico, elas não têm que ver nada. O próprio hospital passou a nota. Desde o momento em que ele foi para o hospital, já começaram as fake news de que ele tinha problema respiratório. Mesmo a gente falando que ele não tinha problema de saúde, ninguém acreditava. Preferiam acreditar nas histórias das redes sociais do que em nós mesmos. Sábado pela manhã, a gente nem tinha saído para liberar o corpo, recebemos várias mensagens de um áudio de um certo amigo da família, que não é amigo, a gente nem conhece, de que o Aislan tinha um infarto, que era mentira a história de Covid-19. Foi Covid-19 sim", desabafa Daiane, confirmado que o irmão não teve um infarto.

A onda de notícias falsas fez a irmã publicar nas redes sociais um texto sobre o irmão no último dia 29, confirmando a informação do hospital sobre o quadro clínico de Aislan. A última vez que Daiane viu o irmão foi no dia 15, três dias antes dele ser internado com febre alta e problemas respiratórios. "No momento em que ele entrou no hospital, ninguém teve contato com ele. Quando meus pais estavam vindo pra casa, depois de levá-lo para o hospital, ele foi na janela do quarto e disse 'pai, mãe, vão pra casa para descansar, eu estou bem' e deu tchau pela janelinha. Depois a gente se comunicava por vídeo chamada", lamenta.

A última semana de Aislan na UTI foi de piora gradativa no quadro clínico. Na semana anterior, o corpo médico do São Donato noticiava à família algumas melhoras e tentou retirar a entubação do paciente, o que não foi possível. Com a piora, a família recebeu a solicitação para autorizar o uso da cloroquina, o que foi atendido. 

O corpo de Aislan foi cremado no sábado, sem que a família tenha visto e se despedido. Daiane viu de relance o caixão sendo retirado do hospital, por acaso. A família vai retirar a urna na terça-feira para fazer uma pequena cerimônia de despedida. 

"Nós da família vamos fazer uma cerimônia amanhã, na hora que for buscar a urna com as cinzas, nós mais próximos vamos fazer a cerimônia. A minha sensação é de que ele ainda tá no hospital e minha mãe na mesma. Como a gente não viu o corpo, não caiu a ficha ainda, de que ele não vai melhorar e voltar pra casa. O mais triste de tudo é não poder se despedir da pessoa, fazer aquela despedida bonita que todo mundo merece", diz Daiane.

Aislan residia em São Ludgero. Deixa os pais, a irmã, a mulher e um filho de dois anos. A irmã desmente a versão de que ele esteve na festa de Braço do Norte, apresentada pelo Hospital São Donato. Diz que as famílias se conheciam, mas não houve o contato. "Na sexta-feira, meu sobrinho disse que o papai estava dodói no hospital e que ia voltar pra casa. A gente não contou pra ele o que aconteceu, ele não entende, então...".

Tags: coronavírus