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Criciumense na Itália: "Se chegar no Brasil, vai ser carnificina"

Jô Casagrande mora há 20 anos na Itália e relata a situação "surreal e inimaginável" com o coronavírus
Heitor Araujo
Por Heitor Araujo Bérgamo, ITA, 25/03/2020 - 15:51Atualizado em 25/03/2020 - 15:59
Segundo criciumense, acontece um funeral a cada meia hora em Bérgamo / Foto: Divulgação
Segundo criciumense, acontece um funeral a cada meia hora em Bérgamo / Foto: Divulgação

Surreal, inimaginável, inexplicável e uma tristeza tremenda. São os adjetivos usados pela criciumense Joci Casagrande Colonetti, residente há 20 anos de uma cidade próxima a Bérgamo, epicentro do coronavírus na Itália. Na última terça-feira, 24, no país morreram 743 pessoas, elevando para mais de 6,2 mil o total de mortes. A maioria, sim de idosos, mas o estado de calamidade é geral. "Sim, morrem os idosos, mas os jovens também se contaminam e precisam de UTI. Eu rezo a Deus que essa situação não chegue ao Brasil, porque se chegar vai ser uma carnificina", afirma a criciumense.

Na região da Lombardia, onde fica Bérgamo, são mais de 4 mil mortes e mais de 30 mil casos. Jô Casagrande descreve que as cidades estão vazias, como se o tempo tivesse parado. Ela relata que, quando a pandemia ainda estava se alastrando pelo país, o isolamento foi relativizado pela população, até chegar em uma situação insustentável, na qual os idosos entram na UTI e permanecem isolados sozinhos até a morte. 

"Quando chegou a 10 mil contágios, eles fecharam tudo. Tinha mais de 20 mil sem ser confirmado e a coisa fugiu de controle. Ninguém acredita no que está acontecendo, é impensável. Estamos contando os mortos. Quando eles entram no hospital eles morrem sozinho, a família busca só as cinzas. A cada meia hora tem um enterro na cidade de Bérgamo e a família não pode participar", lamenta Jô.

Relatos de outros residentes do norte da Itália corroboram com o que conta Jô. Para a criciumense, é surreal o momento vivido pela população italiana. "Aqui na minha cidade está nevando, mais um motivo para dar aquela tristeza. É surreal, algo que ninguém pode imaginar. O nosso sentimento é de tristeza tremenda. Uma dor que o sino da guerra não para de tocar com todos esses mortos. É inexplicável, uma cidade vazia, que não se escuta nada, é como se o tempo tivesse parado", descreve.

Especialistas brasileiros e secretários estaduais da Saúde no Brasil mantêm a estratégia de isolamento social e suspensão de grande parte das atividades comerciais para evitar o colapso no sistema de saúde brasileiro. Na contramão do presidente Jair Bolsonaro, que afirmou que a economia não pode parar e que o Covid-19 não vai atingir 90% da população brasileira. 

"Eu rezo a Deus que isso não chegue no Brasil. Bérgamo tem um sistema de saúde preparado e chegou com essa força. Se isso chegar no Brasil vai ser uma carnificia. A maioria das mortes são de idosos. Mas os jovens também adoecem e também têm que  ir para a terapia intensiva. No Brasil não vai ter lugar para isso tudo. Aqui o jovem tem cura, mas precisa do tratamento igual. Se não tem pro idoso, vai ter para o jovem no Brasil?", questiona Jô.

Como alguém que vive diariamente com a pandemia em solo italiano, Jô Casagrande uniu-se a médicos e políticos no repúdio às falas do presidente Bolsonaro. "O isolamento é o único modo de conter esse vírus. É isso, é o isolamento, é lavar as mãos, são essas as regras. O que o presidente disse é uma coisa absurda, de vamos para a rua. Foi exatamente isso que aconteceu aqui na Itália, 'é uma gripe, vamos continuar restaurante aberto'. Agora fugiu de controle".