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Carne cara, salário curto

Denis Luciano
Por Denis Luciano Criciúma, SC, 09/11/2018 - 10:55
Reprodução / Folha do Povo, 24/12/52
Reprodução / Folha do Povo, 24/12/52

Agosto, mês de desgosto? Pois é. O entregador de encomendas que se recostou na portaria do casarão da Pedro Benedet naquele fim de tarde de agosto de 52 nem imaginava que dali a dois anos, no Palácio do Catete lá no Rio de Janeiro, o presidente Getúlio Vargas tiraria a própria vida no ápice, ou no desencadear, de profunda crise.

Estava mais preocupado o rapaz, que havia ido entregar uns telegramas para dois engenheiros do Plano Nacional do Carvão, com a manchete da Folha do Povo daquele dia 11 do mês oito. Ela tratava do aumento do quilo da carne para 15 cruzeiros. Um escândalo para a época. “Como comer carne?”, indagava-se em silêncio o prefeito Paulo Preis que, minutos depois, chegava para mais uma de tantas reuniões nas quais pleiteava o que sempre: água encanada, melhorias nas ruas, infraestrutura...

“Enquanto isso ocorre, nada de novo sobre o aumento dos salários dos mineiros”, completava o artigo de capa do jornal. E não é que um dos telegramas entregues pelo jovem estafeta dos Correios tratava justamente de salários? E o prefeito havia sido chamado lá para testemunhar o que os técnicos leriam para ele. Um recado vindo do Rio, que logo sucumbiu às faltas de arquivos para documentos como este. Certamente virou algum rascunho o papel amarelado que, em linguagem cifrada, anunciava que no casarão da Pedro Benedet todos deveriam estar preparados para possíveis ofensivas de mineiros de carvão no sul do Brasil, já que as conversas mediadas por agentes graduados do governo não davam em resultados práticos sobre os necessários reajustes.

Os meses seguintes vencidos, a agonia prevista ganhava letrais mais garrafais com a manchete da Folha do Povo da véspera de Natal de 52. Naquele 24 de dezembro o diretor Pedro Vergara Corrêa havia autorizado o título “Nova ameaça ao carvão catarinense”. O longo artigo, que preenchia meia capa do semanário, expunha que o 1953 exigia de nossas lideranças forte pressão nas altas esferas da República para fazer alavancar a usina siderúrgica de Laguna. Seria ela a garantia, para os projetos da época, para fazer escoar com mais eficiência e abundância não apenas o carvão de nossas terras extraído, mas também fazer girar a roda da geração de energia, tão necessária a um consumo cada dia mais abundante.

Não havia outra conversa nos corredores do casarão que não aquela. Era preciso pagar melhor os mineiros. Era. Mas era preciso abrir mais mercado para o carvão. Também era. Havia uma bomba relógio a estourar. Os anos seguintes seriam acúmulos de agonias entre aquelas paredes. A surpreendente solução, é conversa para depois.