Há algo estranho acontecendo em Criciúma.
O time é líder da Série B, está brigando diretamente pelo acesso, pelo título, tem uma campanha que permite ao torcedor sonhar com o retorno à elite e, ainda assim, a sensação na cidade é de pouca mobilização.
É como se o Criciúma estivesse vivendo duas realidades ao mesmo tempo: dentro de campo, uma campanha de liderança; fora dele, uma relação cada vez mais fria com o torcedor.
E isso precisa ser discutido.
Não dá para colocar toda a responsabilidade simplesmente nas costas do torcedor. Também não acho correto dizer que o problema é apenas o preço do ingresso, o horário dos jogos ou a falta de interesse. Existem vários fatores, mas há um componente que me parece fundamental: o torcedor precisa sentir que faz parte do Criciúma.
E, neste momento, talvez ele não esteja sentindo isso.
O clube fecha treinos. A informação é limitada. A direção demonstra resistência a determinadas manifestações das organizadas. O presidente chega a dizer que prefere que a torcida não faça mosaico porque, na avaliação dele, não funciona.
É aí que mora o perigo.
Porque o futebol não é uma relação de consumidor e fornecedor. O torcedor não compra simplesmente um produto chamado "jogo do Criciúma". Ele compra uma experiência. Ele quer participar, cantar, reclamar, comemorar, sofrer, criticar e, principalmente, sentir que aquele clube também pertence a ele.
E existe uma coisa ainda mais perigosa do que a vaia: o silêncio.
Quando o torcedor vaia, ele ainda está emocionalmente envolvido. Quando ele deixa de ir ao estádio, deixa de cantar, deixa de discutir e passa a acompanhar tudo de casa, a situação é diferente.
Aí não é mais uma manifestação de insatisfação.
É distanciamento.
E talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo em Criciúma.
O torcedor parece ter entrado em uma espécie de relação defensiva com o clube. Ele não está comprando completamente a ideia de que precisa estar junto. E quando o clube, por sua vez, passa a enxergar algumas manifestações da arquibancada como problema, cria-se um círculo vicioso.
O clube se fecha.
A torcida se afasta.
O clube interpreta isso como falta de apoio.
E, aos poucos, cada lado passa a olhar o outro com desconfiança.
Isso é péssimo para um clube de futebol.
Porque acesso não se constrói apenas com 11 jogadores, comissão técnica e diretoria. Também se constrói com ambiente.
Veja o próprio Heriberto Hülse. O estádio pode ser um diferencial enorme para o Criciúma. O time precisa transformar seus jogos em eventos. Precisa fazer o torcedor querer estar ali. Precisa criar expectativa durante a semana. Precisa fazer o torcedor olhar para o domingo e pensar: "Eu preciso estar no Majestoso".
Não basta vender ingresso.
É preciso vender pertencimento.
E isso não significa que a diretoria tenha que concordar com tudo que a torcida faz. Muito menos que jogadores tenham que aceitar qualquer tipo de cobrança.
Mas talvez seja hora de diminuir a distância.
Treino fechado é uma escolha do departamento de futebol. Mosaico é uma manifestação da torcida. Vaia é uma manifestação do torcedor. Declaração de jogador também é uma manifestação.
Tudo isso faz parte da vida de um clube.
O problema aparece quando essas manifestações começam a construir muros.
E o Criciúma não precisa de muros neste momento. Precisa de pontes.
Porque existe uma contradição difícil de ignorar: o time está em uma posição privilegiada na tabela, mas a cidade não parece viver a mesma intensidade.
Isso deveria preocupar.
Não porque o Criciúma precise lotar o estádio para continuar sendo líder. Não é isso. O time pode continuar vencendo diante de 8 mil, 10 mil ou 12 mil pessoas.
Mas um clube que sonha em voltar à Série A precisa pensar além dos três pontos.
Precisa pensar em reconstruir a identidade entre arquibancada e campo.
E aqui faço uma provocação: talvez o Criciúma esteja cobrando demais que o torcedor demonstre paixão e, ao mesmo tempo, esteja oferecendo pouco espaço para que essa paixão se manifeste.
O torcedor não quer apenas assistir ao Criciúma.
Ele quer viver o Criciúma.
Quer participar da festa. Quer fazer o mosaico. Quer cantar. Quer reclamar. Quer elogiar. Quer conversar sobre o time na segunda-feira. Quer sentir que existe uma relação.
E isso não se compra com uma campanha de marketing.
Constrói-se com relacionamento.
O Criciúma tem uma oportunidade enorme nas mãos. A campanha é boa. A equipe está brigando na parte de cima da tabela. O próximo jogo em casa é contra o Fortaleza, domingo, às 18h30, justamente um confronto direto entre equipes que estão na parte de cima da Série B. O próprio clube aponta o Heriberto Hülse como palco do duelo.
É o momento perfeito para tentar virar essa chave.
Não com discurso de cobrança.
Não dizendo ao torcedor que ele deve ir ao estádio apenas para aplaudir.
Mas dizendo: "Nós precisamos de vocês"
Porque, no fundo, é disso que se trata.
O Criciúma pode estar na liderança da Série B. Mas liderança sem conexão com a arquibancada é uma liderança incompleta.
E se o clube realmente quer voltar à Série A, talvez precise primeiro voltar a ser assunto de todos os dias na cidade.
Porque o maior patrimônio do Criciúma não está apenas no gramado.
Está na relação que existe entre o clube, a cidade, a imprensa, e aquele torcedor que, durante décadas, fez do Heriberto Hülse um lugar diferente.
O time já está fazendo a parte dele dentro de campo. Agora, clube e torcida precisam descobrir por que estão tão distantes fora dele.
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