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Com jogo discreto, Merisio sai na frente de Dário na disputa pelo abraço de Lula

Por Upiara Boschi Edição 25/02/2022
Foto: Ricardo Stuckert
Foto: Ricardo Stuckert

Enquanto observamos em capítulos diários nos últimos meses a novela sobre a aproximação do senador Dário Berger (ainda Mdb) com o Psb para ser o nome de centro da chamada Frente Democrática que deve dar palanque a candidatura do ex-presidente Lula (Pt), o ex-deputado estadual Gelson Merisio (ainda Psdb) trabalhou em silêncio e com medida discrição para chegar à frente na disputa pelo abraço do líder petista. A foto em que Merisio - eleitor declarado de Jair Bolsonaro e vítima da onda que ele gerou em 2018 - abraça Lula e o pré-candidato a governador Décio Lima (Pt) causou verdadeira comoção e muita incredulidade na política catarinense. 

O movimento deixa claro que existem dois projetos em andamento nessa movimento do Pt nacional para ampliar em direção ao centro o seu palanque em Santa Catarina. O que vínhamos acompanhando, tinha as digitais do ex-ministro José Dirceu e o Psb nacional como alicerce. Com aval do primeiro, a legenda buscou no ex-deputado federal Jorge Boeira (ex-Progressistas) e no senador Dário Berger nomes que possam receber o apoio petista e gerar um palanque mais palatável ao eleitor catarinense. Um jogo de idas e vindas que tem cansado quem assiste o jogo da política estadual, mas que deve se consolidar com o fim da prévia do Mdb, não disputada, e a proclamação de Antídio Lunelli como pré-candidato oficial dos emedebistas. Dário acabou sem saída, precisa ir para o Psb para continuar pré-candidato a governador.

Enquanto víamos esse jogo, outro era jogado nos bastidores. Merisio migrou para o Psdb em novembro de 2019, quando o governador paulista João Dória (Psdb) parecia ser uma forte alternativa presidencial para 2022. Conforme o tucano paulista empacava em seus truques de marketing que fazem parecer ruins até as boas medidas que toma, Merisio apaixonou-se pelo governador gaúcho Eduardo Leite (Psdb) como alternativa de terceira via nacional. Engajou-se em sua campanha na prévia e deixou claro que deixaria o partido se Dória ganhasse. A conturbada e apertada vitória do paulista selou o fim da curta aventura tucana de Merisio - mesmo ainda citado como pré-candidato ao governo do partido, ele abandonou as conversas.

Foi nesse contexto que o ex-deputado estadual reforçou os contatos com os amigos da esquerda. Em jantares discretos, alinhou-se com Décio Lima e nomes de outros partidos da frente de esquerda em construção. Boa parte deles - Pdt, Pc do B, Pv, Solidariedade - estiveram em sua chapa ao governo estadual em 2018. Desta vez, Merisio não chega como pré-candidato e nem se filia de imediato a uma das legendas à disposição. Apresenta-se como articulador da pré-campanha de Décio Lima e construtor do palanque de Lula. E assim foi apresentado após o encontro de duas horas com o ex-presidente e o ex-deputado federal em São Paulo, cuja foto rendeu tanto falatório.

Assim, Merisio se posiciona no tabuleiro. Passar de articulador a candidato é parte de uma construção que pode vir à frente. Será importante observar a qual partido ele se filiará até abril, prazo final para poder disputar a eleição. O ex-pessedista e ainda tucano mudou algumas vezes o jogo desde a derrota de 2018. Ao ligar a seta à esquerda, busca alinhar-se a um projeto nacional - justamente o que faltou na eleição passada. Com uma trajetória de mandatos por Pfl, Democratas e Psd, é um nome que o eleitor de esquerda só vai engolir se Lula bancar a composição. Quando isso acontece, o voto vem naturalmente.

Em 2006, no segundo turno, Luiz Henrique da Silveira (Pmdb) atrelou sua candidatura à reeleição ao presidenciável Geraldo Alckmin (Psdb). No segundo turno, Lula e Esperidião Amin (Progressistas) tiveram que deixar de lado décadas de antagonismo e críticas para realizar uma constrangida aproximação. Em duas semanas, com direito a um vídeo de Lula para Amin e adesivo do Pt na lapela de Angela Amin, a construção improvisada não foi suficiente para virar a disputa vencida por LHS, mas mostrou a impressionante fidelidade do voto petista às orientações de Lula. Amin e José Fritsch, candidato petista ao governo, receberam juntos 1,54 milhão de votos no primeiro turno. No segundo, Amin recebeu 1,51 milhão - e ficou extremamente impressionado com o que viu (lembro porque estava lá no comitê como repórter do A Notícia).

Merisio (ou Dário) de 2022 são difíceis de engolir para o eleitor petista? São. Mas Amin de 2006 era incomparavelmente mais.

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