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O ano que aposentou a nova política

Por Upiara Boschi Edição 31/12/2021
Foto: Divulgação
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Dias desses o Adelor Lessa me perguntou no ar qual era o meu destaque da política em 2021. Naqueles segundos antes de responder a pergunta feita de surpresa - como sempre - passaram pela minha cabeça o processo de impeachment contra o governador Carlos Moisés (ex-Psl), as reviravoltas da Operação Alcatraz, O Sete de Setembro que parou o Brasil por nada, o abraço do presidente Jair Bolsonaro ao Pl do mensaleiro Valdemar da Costa Neto, a possível chapa dos ex-adversários Lula (Pt) e Geraldo Alckmin (ex-Pt). E a resposta que veio, de certa forma, resumia tudo isso.
- 2021 foi o ano que aposentou a nova política - respondi.

Aquela divisão entre um novo e um velho jeito de fazer política foi o principal mote da eleição do governador Carlos Moisés (ex-Psl) e de um punhado de ex-desconhecidos em Santa Catarina - puxados pelo impressionante endosso dado pelos catarinenses à candidatura presidencial de Jair Bolsonaro, na época no Psl. A chamada nova política seria quase uma não-política: estava dispensada a experiência anterior, o diálogo prévio com o parlamento em busca de soluções negociadas, evitava-se a proximidade de quem pudesse trazer junto o carimbo de velha política. 

Durou pouco mais de um ano - até a realidade, a pandemia e uma crise política se imporem. 2020 foi o ano em que a tradição política catarinense tentou derrubar Moisés e a vice Daniela Reinehr, não conseguiu e acabou por oferecer um armistício. Em 2021, no entanto, um segundo processo de impeachment amalgamou os interesses - lubrificados por um volume de recursos que o caixa catarinense nunca antes viu.
Passou a ser muito difícil separar nova e velha política e foi se esquecendo esse tema. 

Em nível nacional, sejamos justos, Bolsonaro nunca veio com papo de nova política. O negócio dele era “metralhar a petezada” e fazer críticas ao Centrão - o pragmático e esfomeado grupo de partidos e políticos que dão sustentação no Congresso a qualquer governo que lhe satisfaça as lascívias. Depois do levante mal sucedido de Sete de Setembro, o presidente juntou a fome a vontade de comer com a escolha do Centrão como principal alicerce para a reeleição. Enquanto isso, o sobrevivente Lula deu um nó tático nas tentativas de construção de uma alternativa de centro na sucessão presidencial ao aliciar o ex-tucano Geraldo Alckmin para sua chapa. É como se todos dissessem que não há espaço algum para algo diferente.

Esquecida e combalida, a nova política chega ao final de 2021 lembrando aqueles versos do poeta Mario Quintana: “Da primeira vez em que me assassinaram, perdi um jeito de sorrir que eu tinha; Depois de cada vez que me mataram, foram levando qualquer coisa minha”. O que não significa que uma legião de brasileiros não sonhe com uma alternativa política nem nova, nem velha, nem anti - uma política ressignificada e digna. Feliz ano novo a todos.

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