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Pneumologista lamenta possível isolamento vertical: "qual o argumento científico?"

Renato Matos afirma que estratégia levantada pelo presidente Bolsonaro não deu certo em outros países e não funcionaria em um país pobre como o Brasil
Heitor Araujo
Por Heitor Araujo Criciúma - SC, 26/03/2020 - 08:49Atualizado em 26/03/2020 - 08:56
Em Criciúma, ruas estão sendo desinfectadas (Foto: Arquivo / Divulgação)
Em Criciúma, ruas estão sendo desinfectadas (Foto: Arquivo / Divulgação)

O médico Renato Matos, referência na área da pneumologia em Criciúma, lamentou o discurso político sobre a possibilidade de isolamento vertical no país no combate ao coronavírus. O isolamento vertical determina que apenas as pessoas da zona de risco do Covid-19 permaneçam em quarentena, enquanto o horizontal, que vem sendo adotado, prevê o isolamento social completo. O médico ressalta o entendimento internacional de que o isolamento vertical é insuficiente. 

"Sorte que o nosso governador (Carlos Moisés) é bombeiro. Ele sabe que se a gente atuar no início do incêndio, a gente consegue resultado mais efetivo. Hoje se fala muito em isolamento vertical, a proposta aí colocada, de isolar as pessoas de alto risco. É muito fácil de fazer em famílias de bom poder aquisitivo, eu consigo colocar a minha mãe em outra casa, em um hotel. Como uma pessoa de baixa renda vai fazer isso? Não existe essa possibilidade", alertou Renato.

A possibilidade do isolamento vertical foi defendida pelo presidente Jair Bolsonaro, sob a argumentação de não "quebrar a economia". Nesta quinta-feira, o prefeito de Criciúma, Clésio Salvaro, levantou a possibilidade da tática funcionar, enquanto o governador Carlos Moisés decretou o isolamento horizontal por mais sete dias, com a possibilidade de flexibilização apenas na semana que vem.

Para o médico, o momento é de seguir as medidas mundiais. No fim de fevereiro, a Itália usou o argumento econômico para lutar contra o isolamento total e é, no momento, o país com mais mortes decorrentes do Covid-19 - mais de 7,5 mil vítimas. Renato lembra que a Inglaterra tentou o isolamento vertical e acabou voltando atrás por percebê-lo insuficiente.

"Todo mundo que estuda isso diz que o pico (no Brasil) vai ser pela metade de abril. Como flexibilizar agora? Tenho recebido as coisas mais absurdas nas redes sociais. Pessoas querendo defender seu posicionamento político e deixando de lado a racionalidade. A racionalidade é seguir as lideranças mundiais. Na Grã Bretanha quiseram fazer isso, não deu certo e agora tão correndo atrás da máquina", afirma o médico.

Na contramão de Bolsonaro, 25 governadores e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, optaram por continuar, pelo menos por mais uma semana, o isolamento horizontal, mantendo o fechamento do comércio e redução das indústrias. Em um cenário de incertezas, segundo Renato, a medida parece estar dando bons resultados até o momento. 

"É a opinião da comunidade médica internacional. Essa estratégia vem funcionando aparentemente. Era para fortalecer a ideia de que está funcionando e as pessoas estão usando o contrário. 'Não tem caso aqui', sim, porque está sendo feito o isolamento. Se flexibilizar e estourar, não vai ter como segurar depois. Se acontecer isso, vai cair nas costas dos políticos que estão adotando isso".

O Ministério da Saúde liberou o uso da cloriquina, medicação de combate à malária, para o tratamento de pacientes com sintomas graves do novo coronavírus. No entanto, ainda não há comprovação de que a medicação seja eficiente para o quadro do Covid-19.

"Houve um teste em um grupo de 40 pessoas que usaram e não usaram. Não tem resultado diferente entre quem usou e quem não usou. São estudos pequenos, iniciais. Essas respostas teremos daqui a alguns meses", aponta Renato Matos. "Estamos numa situação extremamente diferente para o mundo inteiro. Os países gigante estão se ajoelhando para o coronavírus. Qual o argumento científico para mudarmos essa situação?", conclui o médico. 

Tags: coronavírus