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“O julgamento diminui o potencial da pessoa”, diz Gallwey

Em entrevista exclusiva, o escritor Tim Gallwey fala sobre o Inner Game, método que apresentará em palestra, na ACIC, na próxima segunda-feira
Arthur Lessa
Por Arthur Lessa Criciúma, SC, 25/08/2017 - 13:12

Na próxima segunda-feira (28), Criciúma recebe, com exclusividade no Estado, o escritor Timothy Gallwey, que apresenta a palestra “The Inner Game – A essência da liderança e do aprendizado pela experiência”. O evento, que é uma parceria da Perfil Dois Coaching com a Som Maior FM, acontece no Auditório Jaime Zanatta, na ACIC, a partir das 19h. 

Considerado o “pai do coaching”, Gallwey é o criador do método Inner Game (Jogo Interno, em português), que consiste na prática de aprender com base na experiência da própria pessoa que está buscando aprimoramento em alguma área.

O método, criado nas aulas de tênis ministradas por ele, deixa de lado as orientações técnicas de terceiros e foca a atenção do coachee (como são chamados os clientes) no próprio desempenho, dando atenção ao que quer melhorar, sem julgamentos, sem autocríticas.

Na entrevista abaixo, exclusiva para o 4oito, Tim Gallwey fala sobre a evolução na área de coaching nas últimas décadas e a importância de deixar a mente despreocupada para o aprimoramento das habilidades, deixando o processo de aprendizado eficiente, confortável e agradável.

ARTHUR LESSA – O conceito de coach é algo bastante recente, pelo menos na realidade brasileira. Tanto demanda quanto oferta aumentam exponencialmente a cada dia. O que aconteceu nos últimos tempos para que as pessoas precisem, e cada vez mais, desses profissionais?

TIM GALLWEY – Antes do advento do coaching, as pessoas usavam psicólogos e psiquiatras para ajuda-los com seu problemas. Mas eles tinham vergonha de que outras pessoas soubessem disso. Precisar de um psicólogo significava que eles estavam doentes, de algum jeito.

E o mesmo acontecia com os atletas há 50 anos. Eles tinham vergonha quando eram perguntados se queriam alguma ajuda no lado mental do jogo. Esse questionamento seria algo desrespeitoso.

Quando coaching começou, muitas pessoas tiveram ajuda, porque eles tinham obstáculos mentais reais para a performance e o prazer. E o coaching normalmente ajudava nessa performance. Mas eles que faziam acontecer.

O coach não fazia nada além de estimular o atleta a acreditar que ele próprio podia realizar [seus objetivos] com o que tinham dentro deles. Esse é o ramo do Inner Game no coaching. Outros ramos apresentam às pessoas as respostas para que saiam de seus problemas e para aprimorar sua performance. 

AL – Como a pulverização do termo “coach” ajuda ou atrapalha no seu trabalho?

TG – Existem coachs maravilhosos, dos quais o coachee realmente aproveita o conhecimento. Ao mesmo tempo, existem profissionais terríveis. Acontece. E mesmo com esses tem quem diga “ele me ajudou bastante” por conta de todas as respostas cheias de sabedoria. Mas o trabalho do coach não é dar respostas; mas ajudar o cliente a descobrir que tinha essas respostas dentro de si o tempo todo.

AL – O seu livro foi publicado pela primeira vez em 1974, mais de 40 anos atrás. Praticamente duas gerações. O que o mantém atual há tanto tempo? E o que faz com que receba mais atenção hoje?

TG – A resposta mais óbvia é o uso de exemplos físicos, que as pessoas conseguem entender muito melhor que teorias psicológicas. E, na abordagem do Inner Game, você aprende o que tem que aprender prestando atenção às suas próprias experiências, e criando rastros das experiências que você quer consolidar.

Isso é o que me surpreendeu quando o Inner Game começou. As pessoas conseguiam melhorar de forma mais rápida e mais natural quando não eram orientadas sobre tudo o que tinham que fazer ou sobre como seria o jeito certo de bater na bola.

Aquele monte de orientações gera uma série de julgamentos, o que, na realidade, diminui o potencial da pessoa. Às faz acreditar que não são capazes de realizar coisas que, na verdade, são. 

AL – Tudo do mundo evolui. Os movimentos que eram obrigatórios há 10 ou 15 anos no tênis já não são mais tão utilizados. O mesmo aconteceu com seu livro? Foi preciso atualizar a mensagem nas edições que foram lançadas depois de 1974?

TG – O Inner Game não oferece jeitos melhores de bater na bola. Eu não era tão bom. Eu era o nº 7 do país, entre 15.

Demorou um tempo para que as pessoas descobrissem pela própria experiência qual a melhor maneira de bater na bola. Atualmente, o jeito que me ensinaram é tido como errado. O Inner Game contribui em como aprender, e não tanto em o que aprender. [Aprender] o que é confortável e o que funciona.

E esses são princípios revolucionários porque desenvolvimento de todas as pessoas envolve o que às faz sentir bem e funciona. Com exceção para quando há interferência do Self 1, dizendo que você não consegue, que não tem talento para alguma coisa.

  AL – Falando de tênis, que é o terreno primário de todo o seu estudo, faço uma pergunta bem característica do futebol (soccer). Quem é melhor? Nadal, Djokovic ou Federer?

TG – O melhor no tênis é, normalmente, o que ganha os maiores campeonatos. As estatísticas estão aí, mas isso não é o importante. Importante é o que você aprende com o tênis.

Você tem Federer jogando o melhor tênis. E ele está na faixa dos 30 anos . Nadal e Djokovic estão jogando em seu primor físico, porque o que eles aprenderam foi realmente evoluir. Então, pra mim, só eles sabem quão bons eles são e podem definir o nível de satisfação e alegria em jogar.

O atleta pode ganhar e ficar triste o tempo todo. Eu não vou dizer que esse é o melhor. Então é mesmo a alegria, a determinação e concentração que fazem uma pessoa realmente boa com a sua capacidade física.