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Professoras mais Laerson Nicoleit

Por Dr. Henrique Packter 01/12/2018 - 06:00

Santo Zaccaron: a primeira professora de brasileiro que chegou na Fumaça foi embora porque não havia alunos. O marido chamava Fermínio.  A segunda, por mais de 40 anos ensinou a meninada a ler e escrever. Catequista de mil crianças, Idalina era casada com Abel Freitas, feitor da ferrovia. Primeiro professor não tinha a mão direita, chamava-se Martin Riccieri. Ensinava escola e canto só em italiano. Era pago pelo rei da Itália, dizia. Depois vem a professora Almira Olga da Silva Tonelli cujo marido era apicultor. Ela ensinava 2 horas de italiano e 2 horas de brasileiro. Quando a Itália ganhou a guerra de 14 contra a Alemanha, o rei Vitor Emanuel II mandava aos alunos italianos pobres do Brasil caderno, tabuada, caneta, lápis, lousa, pena, tinta e pagava os professores.  Santo Zaccaron dizia: sei ler por graça do Rei da Itália.

Claudino Biff: Vanteiro Margotti foi dos primeiros moradores da Fumaça. Era dono de armazém e não gostava do nome da cidadezinha. Em 1940, Claudino tinha 8 anos e viu o mapa de SC na escola trazendo em lugar da denominação Morro da Fumaça o nome Vanteiro Margotti... Linha Torrens tinha 2 igrejas, uma católica e outra dos adventistas russos e dois cemitérios também. O cemitério católico viria a ser a atual igreja, construída sobre a primeira. O cemitério adventista era a 300 metros aquém da igreja da linha Torrens que tinha Cooperativa e escola italiana. Fernando Fávero chefe da Cooperativa vendia tudo que se usasse na colônia de machado a pente, de enxadas a roupas, além de remédios e pregos. (Santo Zaccaron: os colonos eram sócios da Cooperativa, Fávero era só caixeiro). Linha Torrens era o centro social e Morro da Fumaça não existia. Fávero ao ver passar pela Cooperativa José Guglielmi, pai de Santo Guglielmi, perguntou onde ele ia; teve como resposta que ia comprar terras na Fumaça.
- Compadre Beppi, Linha Torrens é la vacca e Fumaça é la coda (rabo)...  

SAÚDE EM TEMPOS DA FUMAÇA    

Santos Zaccaron: Para dor de cabeça se usava Cafiaspirina. Certa vez ficou doente e tomou remédio receitado por farmacêutico polaco apelidado Dottorin. Zaccaron sofria de amarelão e ele deu Necatarina, remédio alemão. Foi tomar o remédio e lá se foi o amarelão...  Tinha o Dr. Lass de quem já se falou, médico alemão  

ÍNDIOS DA REGIÃO

Quem são? De onde vieram? Já se passaram 5 séculos do primeiro encontro e ainda nada sabemos de suas origens. Certo, temos aquela teoria de que venceram o Estreito de Behring, mas quando chegaram? 10 mil, 30 mil, 50 mil anos atrás? Quem seriam eles? Nem negros, nem hindus; descenderiam de qual tribo de Israel ou de qual dos 3 filhos de Noé?

Alguns deles, como os Aimorés, eram assassinos brutais, antropófagos, devorando carne humana em meio a orgias regadas a muito álcool de cauim ou vinho de mandioca. O ritual antropofágico era uma vingança contra índio inimigo, capturado em batalha.  Outros indígenas, os nossos índios da Fumaça, nosso pacífico Carijó, o melhor índio da costa, eram dóceis, prestativos, solidários. Morreram sem incomodar ninguém, no dizer de Claudino Biff. Havia entre nossos índios os Guarani—Kayowá que se suicidavam; empresários como os Kayapó; há tribos que não chegam a uma dúzia de indivíduos como os Xetá, outros a mais de 20 mil como os Tikuna. Não temos um único herói indígena apesar da ajuda prestada aos brancos portugueses, como o tupiniquim Tibiriçá que salvou São Paulo em 1562, além de Teniminó Arariboia que ajudou a derrotar os franceses em 1567 ou o Potiguar Felipe Camarão na vitória dos holandeses em 1649. Há também Tamoios, Ianomâmi. Praticamente todo nosso litoral estava habitado pelos Tupi-Guaranis na chegada dos portugueses. Tupinambá eram os Tupi, pai de todos, os Tupiniquins eram aliados dos portugueses contra os Tupinambá-Tamoio, aliados dos franceses. 

Doze eram as tribos de Israel e doze eram os profetas, mas, apenas onze as tribos indígenas espalhadas pelas costas brasileiras. Quinze séculos depois de sua grande migração dariam os índios de cara com os pálidos barbudos vindos do leste, autores de um dos maiores genocídios de que se tem notícia. Tupinambás e Tupiniquins ocupavam o litoral tendo expulsado para o interior as tribos bárbaras.   

Cada povo indígena tinha seus próprios costumes e modos de vida quando os portugueses chegaram ao Brasil. A língua predominante era o tupi-guarani, que ao contrário do que se possa pensar, é uma língua, e não um povo. Guerrear era para eles uma atividade defensiva, e não uma maneira de conquistar territórios, como hoje.

AS OCAS

A aldeia era rodeada por paliçada, espécie de cerca de lanças e crânios. Serviam como enfeites, para honrar aqueles que viraram jantar. Aldeias tinham de quatro a oito malocas, que abrigavam pelo menos três núcleos familiares. Os pertences dos indivíduos eram mantidos na oca dentro da área ocupada por sua família

CAÇA E GUERRA. APÊNDICE PARA NATAL CORAL.

Armas de guerra dos índios incluíam a borduna, tacape que funcionava como um martelo. Os arcos e flechas eram personalizados, trocando-se o desenho das pontas, a posição e o estilo das penas da flecha, além do tamanho e do formato dos arcos. Para caçar animais de pequeno porte (como aves terrestres), usava-se arco de longa envergadura e flecha de material leve com penas longas na parte traseira (auxiliava a sustentar mais tempo de voo)

A Companhia Metropolitana financiava a implantação de novas colônias. Acuados, os bugres passaram a atacar os ranchos dos colonos para intimidar os devastadores de floresta e também saquear os preciosos alimentos e utensílios do branco. Por vingança, assassinavam frequentemente mulheres e crianças.

Clima ficando cada vez mais pesado, colonos apoiados e incentivados pela Companhia Metropolitana, organizam expedições para afugentar os selvagens. Natal Coral era caçador audacioso. Sua casa sempre cheia de couros de onças e dentes de feras, atestavam seu conhecimento da mata. Ele atendia, com prazer até compreensível, a empreitada de caçar bugres.

Na Veneza, alto do morro onde hoje está o Hospital São Marcos, erguia-se majestática e altiva a sede da Companhia Metropolitana e residência de seu Diretor, Miguel Napoli. A encastelada-mansão tinha escadaria de acesso toda de mármore Carrara e o jardim descia da colina à planície. Foi por ali que Natal Coral, localizou grande acampamento de bugres em direção à serra. Acordou com Napoli pagamento de dois mil réis por orelha de bugre. Natal mais duzentos homens foram à caça. Na madrugada, após grande festa, índios caíram em sono profundo. Sono do qual jamais acordaram...

Due malle, duzentas orelhas de homens, mulheres e crianças Natal Coral cobrou a Miguel Napoli que recusou conferir o produto da chacina. Também fez com que todos se calassem. Só não se acalmaram, os índios (Baseado em artigo de Eder Giovani Savio - Tradição de Vanguarda, n. 05, ano 2, Junho/91).  

HISTÓRIA DE ÍNDIOS PINGUÇOS 

Em 1947, na mata virgem de Lauro Müller, foram encontrados três únicos índios Xoclengue sobreviventes. À maneira de Manoel Menezes, jornalista e político das antigas, devo dizer, não sem certo desconforto, que os três indígenas eram dados a libações alcoólicas, especialmente cervejas, trazidas pelos empresários do carvão. Tinham eles lá suas preferências etílicas. Ao indígena mais velho agradava a Cascatinha-Brahma, cervejinha elaborada com a água celestial das serras petropolitanas. O segundo em idade derretia-se ao ouvir falar em Continental-Cassol, cerveja produzida no RS. Já ao terceiro desde que fora trabalhar em Caxias, só tomava cerveja Leonardelli-Escariola.  Reunidos os três paus d’água na estação da Estrada de Ferro, aguardando o trem pede o primeiro, dinheiro na mão:

- Traz uma Cascatinha-Brahma no capricho!
O segundo:
- E prá mim uma Continental-Cassol!
O terceiro fanático:
- E prá mim um suco de laranja!
Entreolham-se os dois primeiros, sem entender. Volta a falar o do suco:
- Como vocês não vão beber cerveja, também não vou!     

Vem também desta data a história do cacique que viajava pela ferrovia desde Lauro Müller a Imbituba com seu ajudante de ordens. Era a primeira viagem da dupla. Vai senão quando o chefe ordena:
- Estou com sede, traz água chefe.

Passam-se os minutos. Afinal, ele volta com um balde água, tomado de um gole só. Poucos minutos depois, nova ordem: chefe quer mais água. Interminável tempo se passa até a volta do prestimoso auxiliar, balde vazio nas mãos.
- Que aconteceu?
- Homem branco sentado em cima do poço! 

NEGROS

Negros não eram muitos na Fumaça, mas todos sabiam falar italiano e rezar em latim (Biff, 2001, p. 15 em Morro da Fumaça e sua Divina e Humana Comédia). Eram: Manoel Italiano, Chico Doce, Marco Abrão (leitor de Bíblia), Nego Anjo, João Gandia, Nego Rosalindo, Inácio e a parteira Perpétua.

LAVANDO A ALMA

Índios da costa banhavam-se praticamente com a mesma frequência com que encaramos o chuveiro nosso de cada dia. Aliás, nossa higiene corporal é herança indígena, não europeia. O contato com a água acontecia desde cedo – rios eram locais de diversão para as crianças. Até os prisioneiros prestes a virar grelhado passavam por banho cerimonial antes da execução

PET SHOP

Índios tinham animais domésticos, os xerimbabos (minha coisa querida, em tupi). Animais serviam para embelezar, como as araras, os tucanos e periquitos, ou para mostrar respeito à natureza. Filhotes de macacos eram adotados pela aldeia caso sua família tivesse sido morta por caçadores.

DONA EULÁLIA

Ela é do sertão do sul do estado, não nasceu no RS por detalhe. Nos seus quase 85 anos acompanha rádio-jornal-e-Tv, nada lhe escapa. Vem fazer sua consulta anual e comenta as últimas.

- O doutor viu como a juíza deu um nó no Lula, lá em Curitiba? Acho que ele vai ter saudade do Moro! E ele está bem mais magro, não viu? Parece que ele emagreceu uns 5 litros... Igual ao nosso Inter, só que deu em ganhar, sem mais nem menos. Andam dizendo que o Guerreiro vem aí, em abril, parece. Acho que ele vai ficar bem louco lá no Rio Grande...

Continua próxima semana Laerson Nicoleit pioneiro medico na Fumaça