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Pioneiros médicos: Otto Frederico Feuerschuette

Por Dr. Henrique Packter 13/04/2019 - 06:00

Não eram das melhores as relações entre ALEXANDRE HERCULANO DE FREITAS, o mais célebre de alguns dos espirituosos habitantes criciumenses dos anos 60, e o exército americano. O dentista Alexandre era crítico feroz de alguns aspectos da história militar americana. Costumava dizer que as memórias de guerra de antanho ocorriam sem a morte por confronto de general algum. Salvo, acrescentava, por duas honrosas exceções, contemplando morte de general yankee por bala:
- Teve um que foi ver se a arma estava carregada. Estava. E o outro morreu engasgado por uma bala Piper...
-   
MANIF ZACHARIAS, médico e presidente da loja maçônica Presidente Roosevelt, militara no PCB. “Ernesto Lacombe Filho, organizou e dirigiu, durante o período da legalidade (do partido), o secretariado municipal do PCB, de que fui, durante algum tempo, integrante”. ZACHARIAS, Manif. Minha Criciúma de ontem. Criciúma: Edição do Autor, 1999. p. 68).
Ernesto Lacombe, coronel e chefe revolucionário em 1930, para o sul catarinense, n’ A Imprensa de Tubarão (27.10.1940): “foi preciso a rajada salvadora da Revolução de 30, para aparecerem os primeiros sintomas de uma vida nova em Criciúma.  Para o Brasil conquistar independência concreta, positiva, na ordem econômica, faltavam indústrias do ferro e do aço, para completar a multiplicidade de recursos que constituem a riqueza do seu solo. Com a montagem das grandes usinas siderúrgicas e o carvão de Criciúma fornecendo ao redor de um milhão de toneladas por ano, o Brasil será (...) o mais importante Estado do continente”. 

Ernesto Lacombe, empresário e político, Jaguarão, RS, 1879 – Criciúma, SC, 1951. Ingressou no comércio como caixeiro-viajante em 1905, percorrendo RS e SC. Pecuarista e industrial em Cruz Alta, RS (1924) mudou-se para Tubarão, SC, onde criou charqueada. Coronel em 1930, chefiou a Revolução de Outubro no Sul catarinense, sendo alçado a governador do Sul de SC, com sede em Tubarão. (Belolli, Op. Cit. p. 287).

Lacombe se tornara sócio de mineradora (1938), e agora, com a iminência da construção das siderúrgicas, seu fervoroso discurso nacionalista misturava-se à expectativa pelos lucros futuros. Em 1938 estabeleceu-se em Criciúma, associado à mineradora João Pessoa, de Francisco Meller. Promoveu (1940), acordo com o Grupo Jaffet de SP, resultando na empresa Montanha Carbonífera S/A. Antes de a siderurgia tornar-se realidade, o governo concederia (1937), nova taxa de consumo obrigatório do carvão brasileiro, totalizando 20%. As indústrias carboníferas da região agradeciam. Em 1937, a pioneira CBCA, atingiu produção de 25.000 toneladas; com a participação das pequenas empreiteiras, somou 75.000 toneladas.  Criação da CSN foi principal fator para o salto produtivo na região carbonífera catarinense. Cresce a participação do estado no mercado nacional e o montante extraído ultrapassa o RS, até então a maior indústria extrativa do país.

Com novos estímulos (início da década de 1940), a participação de SC saltou para 19,5% (1939), 51,4% (1948). A produção catarinense cresceu no período quase 510%, um aumento de mais de 6.500% de 1929 a 1948. 

A POLÍTICA CARVOEIRA DE VARGAS

Em setembro de 1941, Vargas lança decreto que reserva para o consumo do país a produção de SC. Torna-se o governo proprietário das riquezas do subsolo e concede o direito de exploração às empresas. Também era o único responsável pelo preço do carvão e do seu frete. O recrudescimento da guerra provoca um segundo decreto-lei (agosto de 1942), que institui, como medida de emergência, a entrega obrigatória ao Governo Federal de todo o carvão nacional. Agora, todos querem extrair carvão. O número de carboníferas subiu a quase uma centena, algumas batizadas com nomes bizarros como a Vai ou Racha. Na maioria das vezes essas pequenas empresas eram empreiteiras de firmas maiores. Após a criação da CSN, a União consolida sua presença direta na região, sacramentada pela estatização da Carbonífera Próspera (1953).

A REVOLUÇÃO DE 30 

Chega a crise mundial de 1929 pela debacle das Bolsas de Valores. A Grande Depressão afeta a economia brasileira, muito dependente das exportações de café, especialmente para os EUA, nosso principal comparador.  As safras de 1928, 29 e 30 foram recordes de produção, mas, somente metade dessas safras foram exportadas. O preço da saca que era de 200 mil reis passou a ser vendida a 20 mil reis. Descontentes, nossos cafeicultores passam a apoiar Vargas para a presidência em 1930. A crise provoca o fechamento de 600 fábricas entre 29 e 30 no RJ e SP. 

Como se recorda, ANTONIO CARLOS RIBEIRO ANDRADA seria governador das Minas Gerais até 7.9.1930. Era a bola da vez para ocupar a Presidência da República segundo o acordo café-com-leite: uma vez SP, depois MG, depois SP, depois... Mas, Washington Luís, carioca de nascimento e governador de SP antes de chegar à presidência, resolve romper o acordo e escolhe outro paulista, o então governador de SP, JÚLIO PRESTES para a presidência tendo VITAL BATISTA SOARES como vice.
Pronto! ANTONIO CARLOS se enfeza e muito contrariado lança GETÚLIO VARGAS à presidência tendo JOÃO PESSOA, então governador da Paraíba, como vice.

A REVOLUÇÃO DE 30 NO SUL DE SC

Já se falou que SC ganhara três ministérios durante o governo de Washington Luís: Victor Konder (Viação e Obras Públicas), general Nestor Sezefredo Passos (Guerra) e contra-almirante Arnaldo Siqueira Pinto da Luz (Marinha). Este último considerava-se catarinense por laços familiares a afetivos.
Nas eleições de 1º.3.1939 (primeiro dia do Carnaval), Prestes ganha as eleições presidenciais por mais de 300 mil votos. Em Tubarão com 3.647 eleitores, sexto colégio eleitoral do estado, Vargas teve 9 votos e 70 em Orleans. Já no RS Vargas recebeu mais de 90% dos votos. 
 Getulistas empenharam-se em campanha para o não comparecimento às urnas. OTTO era prefeito em Tubarão e seu nome era apontado para Governador ou Vice em SC. O jornal A REVOLUÇÃO, órgão oficial do partido liberal, em seu número 1 de 5.10.1930, informa que OTTO fora reeleito prefeito. Deposto pela Revolução, deixaria de assumir, pela terceira vez, a prefeitura tubaronense. As eleições para Governador de SC em 3.8.1930 elegeram Fúlvio Aducci e José Acácio Soares Moreira com quase 50 mil votos.
Mas, o assassinato de João Pessoa na Confeitaria Glória, Rua Nova em Recife, tarde de 26.7.1930, incendiou os ânimos. O autor do assassinato alegou defender a honra de sua noiva, Anayde Beiviz. Assis Chateaubriand, magistralmente retratado no livro CHATÔ, O REI DO BRASIL, do jornalista Fernando Moraes, transformou o trágico acontecimento em crime político e uma onda de insensatez tomou conta do país.

VARGAS INICIA SUA CAMINHADA... POR TREM

Também já se comentou que em 3.10.1930 Vargas parte de POA com as tropas revolucionárias via ferroviária para SP e dali para o RJ. Enquanto isso, o norte de SC era invadido pelas forças paranaenses, adesistas de primeira hora à candidatura de Vargas.
Pelo litoral, tropas gaúchas saídas de POA, quinta feira, 5 horas da manhã de 2.10.1930, chegam em Torres às 11 horas da noite.  Adentraram SC por Araranguá, tomada sem resistência às 5 ou 6 horas da tarde. O comandante das tropas revolucionárias, Ernesto Lacombe, nomeou Fontoura Borges, prefeito de Araranguá. 
Coronel em 1930, Lacombe foi alçado a governador do Sul de SC, com sede em Tubarão. (Belolli, Op. Cit. p. 287). Era proprietário da Fábrica de Banha Sul-catarinense e de Charqueada em Tubarão, no Bairro da Passagem onde havia uma balsa dando acesso a Capivari de Baixo.
As tropas chegam a Criciúma, tomada em 4.10 às 3,30 horas da manhã. Urussanga cai logo a seguir. Tudo isso ocorre por via rodoviária. De Urussanga, por ferrovia, chegam as tropas a Tubarão no dia 4.10, cerca das 17 horas. Era sábado e chovia. Lacombe deixa as tropas na estação e vai à Prefeitura com oito companheiros. Hoje, no local funciona a Casa da Cidade e foi ali que o Prefeito OTTO FEUERSCHUETTE e auxiliares, aguardavam sua chegada para fazer entrega das chaves da cidade. A seguir, Ernesto Lacombe assume o controle de Tubarão.

ESQUECIDO PERSONAGEM DO SUL CATARINENSE

FÁBIO SIILVA, amigo pessoal de OTTO FEUERSCHUETTE, ex-vereador em Criciúma (1926-1928) era construtor da estrada Teresópolis-Anitápolis onde abrira 6km em 1930. Mudara-se para Criciúma quando o lugarejo ainda era distrito de Araranguá. Projetou-se como comerciante atilado. Em 1925 lá estava ele entre os criciumenses que foram ao governador Antonio Pereira da Silva e Oliveira solicitar o desmembramento de Criciúma do município Araranguá. Foram 8 dias de luta, sobretudo contra o Coronel João Fernandes, ex-prefeito da cidade das Avenidas. Representava o município na Assembleia Legislativa.
Victor Konder, irmão de Adolpho Konder, seria o próximo governador de SC. Passou a apoiar as reivindicações criciumenses e elaborou a Lei 1.516 de 4.11.1925 que criou o município de Criciúma, instalado em 1º.1.1926, um século dentro de 7 anos.  Fábio foi escolhido como Secretário do Conselho Municipal.
A estrada Anitápolis-Tubarão, passando por Braço do Norte e Rio Fortuna, foi aberta em 1927 (Pe. Leonir Dall’Alba, pág. 296 de O Vale do Braço do Norte), faltando a ligação Anitápolis-Florianópolis, construída por Fábio Silva.
Desde 1918, existia em Anitápolis, construído pelo governo federal, o Patronato Agrícola, espécie de colônia correcional para jovens transviados do RJ. A primeira turma compunha-se de 200 jovens entre 11 e 18 anos. Pergentino Muniz era o feitor. O hotel de Anitápolis, de José Goebert (Gato Preto), abrigou 35 oficiais revolucionários por 10 dias antes de transporem a Serra da Garganta. Vitorino Goebert, telegrafista do Patronato, foi denunciado e preso tendo como prêmio terminar na Bahia seu trabalho...
Fábio Silva levou 60 civis e 35 soldados da Polícia Militar de SC.  Comandados pelo tenente Mira ofereceram séria resistência às tropas revolucionárias na Serra da Garganta, onde se entrincheiraram. O jornal Revolução de 14.10, no seu primeiro número, publicou que tropas governamentais comandadas pelo major Camilo Diogo haviam desalojado Fábio Silva e comandados acrescentando que Fábio mais oito de seus homens haviam morrido na batalha. Esse seria o único encontro armado e sangrento nos avanços de tropas no sul de SC. A família de Fábio vestiu luto ao saber da notícia infausta até que, alguns dias depois, ressurge nosso personagem, vivo e lampeiro.

PRÓXIMA SEMANA CONTINUA OTTO FEUERSCHUETTE