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Pioneiros médicos: Otto Frederico Feuerschuette

Por Dr. Henrique Packter 30/03/2019 - 06:00

A BATALHA DE FLORIANÓPOLIS OU OTTO E A REVOLUÇÃO DE 30 

OSWALDO EUCLIDES DE SOUZA ARANHA -, advogado, diplomata e político-, falecido em 1960 aos 66 anos, um dos heróis da Revolução de 30, era amigo dileto de GETÚLIO DORNELLES VARGAS. Conselheiro e assessor presidencial, dizem que Vargas teria perguntado a Oswaldo sobre um bom guarda-livros. 
- Faze o seguinte: pergunta a quem escolheres quanto é 2 + 2. Se ele for bom mesmo, vai perguntar: quanto tu queres que dê?       

A REVOLUÇÃO

Pelas estações de Porto União (SC) e União da Vitória (PR) passaram 20 mil homens vindos do RS em direção ao centro do país (Apontamentos Históricos de União da Vitória 1768-1933, de Cleto da Silva). Henrique Rupp Júnior, de Florianópolis, envia telegrama a Oswaldo Aranha (1930) informando a movimentação dos revolucionários em solo barriga-verde. Desloca-se a Araranguá, onde a eles se junta. Fúlvio Aducci, presidente catarinense, também recebe o telegrama informando que 6 mil homens demandavam Blumenau. Mais 1,5 mil desciam de Bom Retiro e 8 mil homens da Coluna Litoral, comandados pelo general Ptolomeu de Assis Brasil, marchavam sobre Florianópolis. Ptolomeu, depois, seria interventor num governo provisório de SC (1930-1932). Henrique Rupp Júnior (Joinville, 27.3.1880 e 21.6.1959, Florianópolis, foi advogado, promotor público, jornalista, professor, empresário e político brasileiro).

Formado pela Faculdade de Direito de POA, Rupp Junior foi deputado à Assembleia Legislativa de SC por três legislaturas; deputado federal, participou ativamente da revolução de 30. Fundador da UDN (1945), envolveu-se nas crises políticas mais sérias do seu tempo. 
Um dos organizadores da Aliança Liberal em SC, afastou-se do grupo que cercou Getúlio Vargas após a Revolução de 30.
Jovem, recém-formado, foi promotor público. Superintendente (prefeito) de Florianópolis, viabilizou a transferência do cemitério público da cabeceira da ponte Hercílio Luz para Itacorubi, o atual Cemitério São Francisco de Assis.
Um dos fundadores do Jornal O Estado, dirigiu depois, O Dia. Com José Artur Boiteux, Henrique Fontes e Gil Costa, fundou a Faculdade de Direito de Florianópolis, sendo seu diretor por vários anos e catedrático da cadeira de Direito Comercial. 

DA LITERATURA

Coronel Valmir Lemos, autor de Tombados e Esquecidos: “no momento da chegada a Palhoça, o efetivo total da coluna não ultrapassava 2,5 mil homens (...), muito superior aos cerca de 500 que em terra defendiam a Ilha.” “Livros que relatam a história da Revolução de 30, são hoje importantes, para que não caiam no esquecimento fatos que tiveram desdobramentos no futuro do país (queda da Velha República)”. 
Passando para a reserva, Lemos mostrou-se disposto a revelar parte dessa história que nem a corporação conhecia: a marcha revolucionária em solo barriga-verde e, em especial, o combate da Serra da Garganta, em Anitápolis. Pesquisou, entrevistou e acessou documentos; escreveu, então, Tombados e Esquecidos. 

A BATALHA ILHOA 

O movimento revolucionário ganhou as ruas em 10.10.1930. Vargas lança o manifesto O Rio Grande de Pé Pelo Brasil e parte de trem, rumo ao RJ, então capital nacional. Forças Revolucionárias Gaúchas avançam pela ferrovia, principal ligação com o centro do país. Pelo caminho arrebatavam seguidores. 
Tinham como objetivo chegar ao Rio e depor o presidente Washington Luís, consistindo a estratégia em concentrar toda a força revolucionária em Ponta Grossa, PR, dali seguindo fortalecidos rumo à capital. 
Karla Leonora Dashe Nunes, professora, estudiosa da Revolução de 30, coordena o curso de especialização de História Militar na Unisul. Pesquisou, para tese de doutorado pela UFSC, durante cinco anos, parte do tempo no Arquivo Histórico do Exército, RJ. 
– Sou uma inconformada sabendo que muitos catarinenses ignoram este importante episódio da história, com reflexo direto na queda da Velha República -, observa. Lembra que a Força Pública Militar Catarinense, aliada às forças militares federais da Marinha e Exército, não conseguiram conter o movimento: 
– Memórias, narrativas e documentos produzidos sobre esses conflitos foram, curiosamente, deixados à parte, minimizados (...). Karla lembra que a Revolução era apoiada por parte da oligarquia, e que Fúlvio Aducci, governador recém-empossado, apoiava Washington Luís. 
Três catarinenses eram ministros de Washington Luís: Victor Konder (da Viação), general Nestor Sezefredo dos Passos (da Guerra) e o contra-almirante Arnaldo Siqueira Pinto da Luz (da Marinha). Isso pode explicar o comportamento do governo catarinense. Cargos ministeriais pareciam ter caráter de presente a SC e não de reconhecimento. 
Os irmãos Adolpho, Marcos e Victor Konder e também Fúlvio Aducci, entre outros, são os principais e mais influentes representantes do Partido Republicano Catarinense. 
E na Aliança Liberal? Nereu Ramos, Francisco Barreiros Fº, Oswaldo Mello e Gustavo Neves. Com a Revolução, os Ramos chegam ao poder, exercido até então pelos Konder Reis. Essa mudança substancial de estrutura de governo, é, segundo a professora, diferença visível em SC, depois de 30.

SC INVADIDA

SC é o primeiro Estado a ser invadido pelas Forças Revolucionárias, mas Florianópolis resiste até a Revolução triunfar em todo o país. De 1930 a 1945, o Estado foi governado por interventores federais. Nesses 15 anos, apenas de 1935 a 1937 o Poder Executivo de SC foi entregue ao governador eleito Nereu Ramos, mantido como interventor pelo Estado Novo. 
Nascido em Lages, Nereu Ramos foi ministro e senador. Morreu em desastre aéreo, domingo, 16.6.1958, em pleno exercício do mandato. Embarcara em avião da Cruzeiro do Sul em Florianópolis, com destino ao RJ. A aeronave preparava-se para escalar no aeroporto Afonso Pena de São José dos Pinhais, Grande Curitiba, quando sofreu problemas mecânicos e caiu. Morreram dezoito pessoas. Entre elas Nereu Ramos, ex-presidente da República, o go¬vernador catarinense Jorge Lacerda (PRP) e o deputado federal Leoberto Leal (PSD). Nereu e Lacerda eram as duas principais lideranças políticas de SC. A história da tragédia envolvendo avião Convair 440, voo 412 da Cruzeiro do Sul, prefixo PP-CEP, está magistralmente descrita no livro O Voo da Morte de Francisco José Pereira.  
Quintanista de Medicina, naquele domingo eu era plantonista no Pronto-Socorro Municipal do Hospital da Cruz Vermelha, Curitiba. Não trouxeram nenhuma vítima do sinistro aéreo ao Hospital. 

MAIS DEPOIMENTOS

Dona Luci Pacheco da Rosa, 92 anos, aposentada, memória privilegiada, residia ultimamente no Bairro do Estreito, Florianópolis. Era mocinha quando os revolucionários de 30 chegaram à cidade. Morava, então, em Ratones, interior da Ilha de SC. Na época, lembra, tudo era distante, informações eram poucas e o medo confrangia a população. 
– A gente trabalhava na roça. De noite, meus três irmãos fugiam para o mato para não serem levados. Avistávamos a luz forte (holofotes) dos navios; parecia que o coração ia sair pela boca. Muitas pessoas usavam barcos para se mudar. As casas ficavam fechadas e os animais, abandonados. Para ela, a cena mais triste era dos irmãos fugindo:
 – Tínhamos muito medo que, mesmo à noite, revolucionários aparecessem e levassem os rapazes. Não aconteceu, mas o medo ficou, como uma marca na gente.
Sob a Ponte Hercílio Luz, o aposentado Osman Noceti, 72 anos, recorda das escaramuças da Revolução de 30 na Capital. Ele ouviu dos mais velhos, relatos sobre a presença dos rebeldes no Estreito, especialmente quando a Divisão Litoral do general Ptolomeu de Assis Brasil ali estacionou. O bairro foi castigado pela artilharia dos navios de guerra fiéis ao governo. 
Entre 13 e 23/10, os bombardeios eram diários. Apesar de visados pela artilharia dos destroieres, revolucionários não sofreram uma só baixa. As granadas causaram estragos em propriedades de Palhoça, São José e Estreito. A ponte estaria eletrificada e a madeira do piso removida, impedindo a travessia para a Ilha. Finda a Revolução, Noceti, pescador por mais de 50 anos, ouviu:
 – Depois, casas de gente simpática à causa, foram demolidas e munição encontrada. 
Jutta Hagmann, quatro anos, quando os revolucionários chegaram a Joinville, o pai - funcionário do Banco do Brasil -, foi aconselhado a mudar-se para perto do Batalhão de Caçadores. 
Contava ter visto, certa manhã, passar caminhão com corpos de rebeldes e soldados do governo. A família não tinha envolvimento com os revolucionários, mas lembra da morte por afogamento do primo Laudelino Menezes, convocado para destacamento em Porto União. A tia passa, então, a odiar Vargas. 
Therezinha Wolff, assessora de Cultura em Porto União, autora de livros, cartilhas e artigos em jornais, reúne material fotográfico sobre a passagem dos revolucionários pela cidade. 
– A cor encarnada (vermelha) era moda, principalmente entre estudantes alinhados com as ideias revolucionários. A cidade ficou em polvorosa com a chegada do comboio trazendo Vargas, 16/10.
 O relógio da estação marcava 16h30min.  Vargas aclamado, recebeu flores. Discursou no Hotel Internacional, frente à praça. 
Muitas fotos, que guarda, foram entregues por moradores. Pensa que o assassinato de João Pessoa teria sido o maior motivo para eclosão do levante e ser necessário dar destaque maior ao fato.   
-Temos um obelisco em Porto União homenageando João Pessoa, deteriorado com o passar dos anos.
Francisco Karam, professor de Jornalismo da UFSC: “Muitos catarinenses apoiavam e engrossavam o contingente das Forças Revolucionárias. Vargas seguia pela ferrovia Marcelino Ramos (RS)-Porto União (SC). Os revolucionários, às vezes a cavalo ou de barco, alcançaram Joinville, Anitápolis, Blumenau e Florianópolis. 
- Na época, jornais transmitiam ideais. Uns engajados nas lutas revolucionárias, outros defensores da manutenção do poder e das elites. Bem antes dos anos 30, passamos por movimentos, com os jornais tendo grande engajamento, como a antimonarquia e abolição da escravatura. SC, distante do centro do país, recebia jornais com relativo atraso. Em média, publicações locais rodavam semanalmente. Alguns a cada 15, 30 dias. Muitas vezes, os fatos atropelavam o tempo. O jornal, ainda que pouco popular em razão do analfabetismo da população, teve seu destaque. Tiveram sua importância naquele momento”.

WASHINGTON LUÍS DEPOSTO

Os generais Tasso Fragoso e Mena Barreto, mais o almirante Isaías de Noronha, depuseram Washington Luís em 24/10 e formaram junta de governo. Jornais que apoiavam o governo deposto foram destruídos; Júlio Prestes, Washington Luís e outros políticos da República Velha foram exilados. Às 15h de 3.11.1930, a junta militar passa o poder a Vargas no Palácio do Catete, encerrando a República Velha; oligarquias estaduais caem, exceto a mineira e a gaúcha. A Revolução de 30 durou exatos 24 dias, de sexta-feira, 10/10, data do manifesto de Vargas, até sua posse no Palácio do Catete em 3/11, segunda-feira.

VARGAS E O RÁDIO 

Vargas era homem de rádio. Soube explorar como ninguém o veículo de grande massa, seus discursos incendiavam a nação. Mas, sobre a Revolução de 30 em SC, o rádio não teve grande papel divulgador. Ricardo Medeiros, doutor em Rádio pelo Departamento de História da Université du Maine (Lê Mans-França), disse: 
– Nossa primeira emissora de rádio é de Blumenau, 1937. Algumas famílias já tinham aparelhos e sintonizavam emissoras do Centro do país. Na época, rádio era coisa da elite e o analfabetismo grassava entre a população, moradora de lugares distantes, sem energia elétrica. Essa talvez a razão para a debilidade dos ecos Revolucionários em solo catarinense. 
Blumenau, cidade pioneira na área de comunicação em SC, nela surgiram: (1) a primeira emissora de rádio (Rádio Clube de Blumenau, 1931), (2) a primeira emissora de televisão (TV Coligadas, 1969), (3) o primeiro jornal offset (Jornal de Santa Catarina, 1971).
A história da Rádio Clube de Blumenau, primeira na cidade e no Estado, começa em 1929, com serviço de alto-falante instalado pelo radioamador João Medeiros Júnior. Em 1931, tais experiências passaram a utilizar transmissor de 150 watts e Medeiros Júnior fundou sociedade, captadora de recursos através de apólices, vendidas para amigos e conhecidos. Em 1935, a emissora entrou no ar em caráter definitivo. Quando das irradiações experimentais, Medeiros Júnior já conseguira junto ao governo federal a concessão do prefixo PRC-4. A Clube é a única emissora em SC com o prefixo PR, característico das mais antigas estações de rádio do país. Licença oficial para funcionamento definitivo da Clube saiu em 19.3.1936.  Neste período, a rádio estava mais potente, utilizando transmissor de 500 watts, instalado no alto do Morro dos Padres, enviando o sinal da emissora para toda a região. 

ESTE FINAL TEM A PRETENSÃO DE HOMENAGEAR DENIS LUCIANO QUE ELABORA AGUARDADA PUBLICAÇÃO SOBRE A HISTÓRIA DO RÁDIO EM CRICIÚMA.  OTTO FEUERSCHUETTE CONTINUA PRÓXIMA SEMANA