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Pioneiros médicos: Otto Frederico Feuerschuette

Por Dr. Henrique Packter 23/03/2019 - 06:00Atualizado em 23/03/2019 - 17:24

BARÃO DE ITARARÉ e OTTO FEUERSCHUETTE, homens de seu tempo, tinham diferença de pouco mais de uma década entre as datas de seus nascimentos, sendo OTTO o mais velho; tiveram currículos com episódios coincidentes. 

Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly (Apporelly, Barão de Itararé), jornalista, escritor, pioneiro no humorismo político brasileiro, nasceu no Rio Grande, RS, a 29.1.1895 e falece no RJ em 27.11.1971, 76 anos. OTTO nasce a 9.1.1881, 14 anos antes do nascimento de Apporelly, falecendo ambos em 1971. 

APPORELLY teria nascido no Uruguai numa carruagem, quando seus pais rumavam para fazenda da família materna. O político mineiro ITAMAR FRANCO pegou carona nessa história. Declarava-se nascido nas costas brasileiras quando a mãe pegara um Ita no norte, como na canção de Caymmi. Descobriu-se depois que era baiano, de Salvador. Na matrícula de ensino escolar, Apporelly foi registrado como nascido no Uruguai, enquanto seu título de eleitor sustenta naturalidade rio-grandense, sem menção de cidade. A mãe, Amélia, suicidou-se aos 18 anos, tendo ele 18 meses; seu pai matriculou-o mais tarde em internato jesuíta de São Leopoldo (RS). Coincidentemente, OTTO também estudou em São Leopoldo, no mesmo Colégio Jesuíta. 

Apparício Torelly iniciou-se no humorismo em jornalzinho de colégio, Capim Seco, satirizando a disciplina dos padres jesuítas de São Leopoldo (1908). OTTO está registrado como aluno interno do COLLEGIO de NOSSA SRA da CONCEIÇÃO, São Leopoldo, desde 1900, aos 19 anos, até 1904. O Colégio dos jesuítas, fundado em 1869, encerraria suas atividades em 1912. 

Em 1918, nas férias, Apporelly sofre AVC na fazenda do tio. Ele publicaria sonetos e artigos em revistas e jornais (Revista Kodak, A Máscara e Maneca). OTTO transfere-se para o RJ em 1905, outra coincidência na vida de ambos, que começaram o Curso de Medicina em POA, tendo Apporelly abandonado a faculdade (1919). 

A MANHA

Em 1925 APPORELLY ingressa no O Globo, de Irineu Marinho, e OTTO, em 1926, é reeleito prefeito de Tubarão. O jornal A PAZ (Tubarão, 10.10.1926) traz na primeira página grandiosa recepção prestada a OTTO que regressava de Florianópolis onde assistira à posse do governador Adolfo Konder, eleito a 1º.8.1926. Com a morte de Irineu, a convite de Mário Rodrigues (pai de Nelson Rodrigues), Apporelly colabora no jornal A MANHÃ.

Dezembro de 1925, Apparício Torelly estreava na primeira página com sonetos de humor, geralmente tendo como tema políticos da época. A coluna humorística fez sucesso e também na primeira página, em 1926, começou a escrever a coluna A Manhã tem mais… No mesmo ano criou semanário que se tornaria o maior e mais popular jornal de humor da nossa história. Bem ao seu estilo, o novo jornal do RJ chamava-se A MANHA. Usava a mesma tipologia do jornal A MANHÃ (sem o til), fazendo toda diferença, reforçada com a frase ladeando o título: "Quem não chora, não mama". Estreia tão libertadora não deixaria Apporelly perder a data: 13.5.1926.  

A BATALHA DE ITARARÉ 

APPORELLY passou à história como BARÃO DE ITARARÉ. Ele não era barão, é claro, mas deu-se o título de nobre e nobre se tornou. O primeiro nobre do humor no Brasil.

BIRRIEL NO RJ

De Santa Maria, Paulo Birriell, futuro líder estudantil em Santa Maria, RS, buscou tratamento para tuberculose pulmonar no RJ. Decidira matar-se após consultar alguns médicos. Procurou um outro médico ao acaso, um profissional sem nenhum prestígio, ele resolveu o caso e então vendeu com pequeno prejuízo o revólver que já comprara de segunda mão.

Em 24.10.1930, Birriel estava no RJ. Notou movimentação na Galeria Cruzeiro. Foi para lá: todo o mundo dizia que a Revolução vencera. Custou a acreditar, inclusive porque ele era meio contra a Aliança Liberal. Um conhecido convidou-o para ir até o Palácio Guanabara, onde diziam que o presidente já estava cercado. Preferiu ficar vagando pela avenida, que logo se encheu de povo; automóveis abertos passavam com gente de lenço vermelho a dar gritos de viva e morra.

Assistiram ao incêndio de O País. Viram a chegada dos bombeiros e gente do povo subindo em seus carros para impedir que eles trabalhassem. Quem saía da redação em chamas, trazia alguma coisa de lá; viu muitos carregando exemplares de dicionário português ilustrado, capa vermelha, parece que o Séguier.

Foram depois até o Monroe; um colega de faculdade, liberal exaltado, fazia discurso trepado num daqueles leões; todos pareciam ter prazer em pisar na grama, como se símbolo fosse de todas as liberdades que o povo iria desfrutar. Lembrava que era um dia nublado, às vezes caía chuvinha fraca, mas fazia calor e trouxera uma capa que comprara dias antes – a maior temeridade financeira que já praticara – nas Casas Leão, Rua do Ouvidor. 

Esqueceu-se da capa por um instante num banco da barca Rio - Niterói, e logo ela sumiu. Depois, Vargas adonou-se do país, todos riam-se felizes, mas até hoje não devolveram sua capa.

A BATALHA DE ITARARÉ

Na Revolução de 1930, partindo Vargas de trem rumo ao RJ, então capital federal, a imprensa propalou que haveria sangrenta batalha em Itararé. Batalha que ocorreria entre as tropas fiéis a Washington Luís e as da Aliança Liberal que, comandadas por Vargas, vinham do RS para o RJ a fim de tomar o poder. Itararé fica na divisa de SP com PR, mas, antes que houvesse a batalha mais sangrenta da América do Sul, acordos foram feitos. Uma junta governativa assumia o poder no RJ e conflito nenhum houve. Em outubro de 30, Apparício se autoproclamaria Duque nas páginas de A MANHA. O Barão de Itararé comentaria, depois:

“O Brasil é muito grande para tão poucos duques. Nós temos o quê por aqui? O Duque Amorim, que é o duque dançarino, que dança muito bem mas não briga e o Duque de Caxias que briga muito bem, mas não dança. E agora eu, que brigo e danço conforme a música. Mas, como prova de modéstia, passei de Duque a Barão”.

“Fizeram acordos. O Adolfo Bergamini pulou em cima da prefeitura do Rio, outro companheiro que nem revolucionário era ficou com os Correios e Telégrafos, outros patriotas menores foram exercer o seu patriotismo a tantos por mês em cargos de mando e desmando… e eu fiquei chupando o dedo. Foi então que resolvi conceder a mim mesmo uma carta de nobreza. Fosse eu esperar que alguém me reconhecesse o mérito, não arranjava nada. Então passei a Barão de Itararé, em homenagem à batalha que não houve”.    

Em 1934, fundou o Jornal do Povo. Nos seus escassos dez dias de vida, o jornal publicou em fascículos a história de João Cândido, um marinheiro da Revolta da Chibata, 1910. Em represália, o barão foi sequestrado e espancado por oficiais da Marinha, nunca identificados. Depois do affaire, voltou à redação do jornal e colocou placa na porta: Entre sem bater. 
A MANHA circulou até fins de 1935, quando o Barão foi preso, acusado de ligações com o PC Brasileiro, então clandestino. Libertado em dezembro de 1936, já exibia a robusta barba que passaria a cultivar. Retomou o jornal por curto período, novas interrupções ao longo de todo o Estado Novo, retornando em vascas espasmódicas até 1959, quando me formei e OTTO se aposentou.

Em 1º.3.1936, durante a ditadura e ano de eleições, Nereu Ramos interventor em SC, Marcolino Martins Cabral prefeito tubaronense nomeado em 1933, três eram os partidos políticos no país: Integralistas de Plínio Salgado, Republicanos alijados do poder por Vargas, Liberais, que apoiavam os revolucionários. Em Tubarão, liberais apoiavam Marcolino Cabral. OTTO, prefeito reeleito por duas vezes e deputado, médico na cidade desde 1910, era candidato independente. Marcolino venceu as eleições por 446 votos.  

As eleições de 1936 assinalam a primeira vez que Integralistas participam de pleito eleitoral no país. E não se saíram mal, conquistando 8 prefeituras e fazendo 72 vereadores em SC, tornado o terceiro estado brasileiro em número de integralistas, perdendo apenas para SP e BA. A eleição colocou 9 representantes do sul catarinense entre os 27 deputados estaduais.

Política

Candidato em 1947 a vereador do RJ, com o lema Mais leite! Mais água! Mas menos água no leite! Foi eleito com 3669 votos, o oitavo mais votado do PCB, que conquistou 18 das 50 cadeiras, ou 36% dos eleitos! Porém, em janeiro de 1948, seus vereadores foram cassados: Um dia é da caça... os outros da cassação, anunciou A MANHA.

Últimos anos

No final dos anos 1950 foi deixando o humor de lado, passa a interessar-se por ciência, e pelo esoterismo; estudou Filosofia, as pirâmides do Egito e astrologia. Neste último campo desenvolveu o horóscopo biônico. Faleceu, dormindo, no apartamento das Laranjeiras, mesmo ano em que residi no RJ.
Opositor ferrenho de Vargas, conheciam-se dos tempos de colégio em POA, quando vivia na mesma pensão que hospedava Benjamin, irmão de Getúlio. 
Obras 
Em 1985, a Editora Record publica Máximas e Mínimas do Barão de Itararé, seleção de textos de humor extraídos de A MANHÃ, em livro prefaciado por Jorge Amado. Máximas e Mínimas logo alcançou quatro edições.
Em 14.8.2011, o programa De lá pra cá, da TV Brasil, relembrou vida e obra do Barão de Itararé. Recentemente, seu espírito crítico influenciou a criação do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, que reúne ativistas e movimentos sociais comprometidos com a democratização da mídia no Brasil.
Em 2014, o segundo episódio da série Resistir é Preciso, exibida pela TV Brasil, estudou a trajetória de Apporelly. 

BIOGRAFIA

APPORELLY ganhou biografia alentada, Entre Sem Bater — A Vida de Apparício Torelly, o Barão de Itararé (Casa da Palavra, 480 páginas), de Cláudio Figueiredo. Criador do jornal A MANHA, o Barão ridicularizava ricos, classe média e pobres. Não perdoava ninguém, sobretudo políticos, donos de jornal e intelectuais. Debochava de tudo e de todos e costumava dizer que, quando pobre come frango, um dos dois está doente. 
Há muito que Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly (1895-1971) fazia por merecer biografia mais requintada. Em 2003, o filósofo Leandro Konder lançou Barão de Itararé — O Humorista da Democracia (Brasiliense, 72 páginas). Bom texto de Konder, mas trata-se de biografia reduzida, não dando conta inteiramente do personagem.
Quatro anos depois, o jornalista Mouzar Benedito lançou o ótimo, mas lacunar Barão de Itararé — Herói de Três Séculos (Expressão Popular, 104 páginas). Finaliza com coletânea das melhores máximas do humorista.

APPORELLY: MÁXIMAS E MÍNIMAS

O que se leva desta vida é a vida que a gente leva.
Criança diz o que faz, velho diz o que fez, o idiota o que vai fazer.
Dizes-me com quem andas e eu te direi se vou contigo.
A forca é o mais desagradável dos instrumentos de corda.
Não é triste mudar de ideias, triste é não ter ideias para mudar.
Mantenha a cabeça fria, se quiser ideias frescas.
O tambor faz muito barulho, mas é vazio por dentro.
De onde menos se espera, daí é que não sai nada.
Quem dá aos pobres, empresta, adeus. 
Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira os cinco dedos.
Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades.
Televisão: maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.
Este mundo é redondo, mas está ficando muito chato.
Precisa-se de boa datilógrafa. Se for boa mesmo não precisa ser datilógrafa.
O fígado faz muito mal à bebida.
Casamento é uma tragédia em dois atos: um civil e um religioso.
Eu Cavo, Tu Cavas, Ele Cava, Nós Cavamos, Vós Cavais, Eles Cavam. Não é bonito, nem rima, mas é profundo…
Tudo é relativo: o tempo que dura um minuto depende de que lado da porta do banheiro você está.
Nunca desista do seu sonho. Se acabou numa padaria, procure em outra!
Devo tanto que, se eu chamar alguém de meu bem, o banco toma!
Viva cada dia como se fosse o último. Um dia você acerta…
Tempo é dinheiro. Paguemos, portanto, as nossas dívidas com o tempo.
Todas as famílias têm sempre um imbecil. Terrível a situação do filho único.
Negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados.

Próxima semana continua OTTO FEUERSCHUETTE