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Pioneiros médicos: Otto Frederico Feuerschuette

Por Dr. Henrique Packter 02/03/2019 - 06:00

DESEJO AOS LEITORES DA TRIBUNA UM BOM, FELIZ e ANIMADO CARNAVAL!

RECORDE DE CIRURGIAS 

Hoje, na área da Oftalmologia, é comum o especialista realizar 20 a 30 cirurgias para remoção de Catarata e Implante de Lente Intraocular em mutirões do SUS, sob bloqueio anestésico ou anestesia tópica, em poucas horas. Realiza a operação através de pequena incisão ocular de menos de 3 mm. Não há suturas, curativo ocular permanece por um dia apenas com restabelecimento rápido da visão do paciente. Também é comum na oftalmologia o tratamento de certas doenças retinianas e do vítreo com injeções intraoculares de antiangiogênicos, executadas a cada 30 dias, geralmente três injeções, dependendo da severidade do problema. A execução não excede 5 minutos, sendo possível realizar elevado número de tratamentos numa movimentada manhã. 
OTTO atuava simultaneamente em várias especialidades. Num mesmo dia era Oftalmologista, ORL, Obstetra, Ginecologista, Clínico geral, Ortopedista. Naquela época o número de cirurgias que OTTO realizava às vezes assombrava médicos visitantes e leigos. Numa ocasião chega em casa extremamente fatigado, altas horas da noite, após executar doze cirurgias, auxiliado pelo Dr. Miguel Boabaid. Na época as anestesias eram realizadas por Irmãs da Divina Providência, da enfermagem do HNSC. ALVES DE BRITO, médico em Florianópolis, visitando o HNSC de Tubarão, presenciou cirurgias realizadas por OTTO. Foram seis cirurgias, o cirurgião nem mesmo deixando a sala-cirúrgica entre os atos operatórios. Alves de Brito escreveu e mandou publicar no Jornal A IMPRENSA, 9.9.1950, primeira página, artigo intitulado O CIRURGIÃO DE FERRO. OTTO já ultrapassara os sessenta anos.

OTTO FEUERSCHUETTE, OSVALDO DELLA GIUSTINA e UNISUL 

Todo mundo sabe quem é OSVALDO DELLA GIUSTINA, filho de Gregório e Elizabeth Bussolo Della Giustina, nascido em Orleans, SC, 21.7.1936. Bacharel em Filosofia pela PUC-RS, com pós-graduações em Planejamento Estratégico e Planejamento de Desenvolvimento e Segurança. Também formado em Jornalismo, foi deputado estadual à Assembleia Legislativa de SC (1963 — 1967), pelo Partido Democrata Cristão (PDC). Membro da Academia Catarinense de Letras, empossado em 26.10.1984, ocupa a cadeira 34.
Criou e dirigiu por 15 anos a Fundação Educacional do Sul de SC (FESSC), hoje Unisul. Implantou a Associação Catarinense das Fundações Educacionais (Acafe), que congrega as doze universidades regionais catarinenses. No Tocantins implantou a Fundação Universidade do Tocantins (Unitins), da qual foi Reitor. Foi também Secretário de Estado do Bem Estar Social em SC, Secretário de Ensino Superior e Chefe de Gabinete do Governo de Tocantins. Chefe em Brasília do Gabinete do MEC, do Conselho Federal de Educação e do Ministério do Meio Ambiente e da Amazônia Legal. Foi, ainda, Adjunto da Secretaria de Imprensa da Presidência da República. Publicou dezenas de livros, dentre os quais Reflexões sobre a Educação, A Revolução do Terceiro Milênio e Participação e Solidariedade. Escreveu Cícero Dias e seu Longo Processo de Morrer, finalista em concurso nacional de romances e A Menina dos Anjos que inspira um longa-metragem sobre o sentido da vida da heroína do romance.
Osvaldo, recém-nascido, amamentado pela mãe, foi ela acometida por sério problema de saúde, obrigando sua internação em Tubarão no HNSC, aos cuidados de OTTO. O Hospital Santa Otília de Orleans é de 4.10.1938 e Della Giustina nasceu em 21.7.1936.
Aos 33 anos de idade interna-se a mãe em 6.2.1937, alta ocorrendo a 3 de março, 26 dias depois, com diagnóstico de DIÁSTOLE, espécie de cardiopatia de alto risco. Quase diariamente o pai apanhava o trem para acompanhar a evolução da doença de Elizabeth. Certa ocasião o pai obrigou-se a permanecer por quase uma semana em Tubarão devido ao agravamento da doença. Felizmente, o quadro começou a apresentar melhoras, alcançando a paciente, cura. Enquanto isso, o menino Osvaldo foi amamentado pela irmã da mãe e devido a alguma incompatibilidade láctea seu peso regrediu ocorrendo declínio da saúde. Parecia difícil a sobrevivência do lactente.   
Costume da época, foi velado, procedimento reservado a quem estivesse prestes a morrer. Consistia na colocação de uma vela acesa nas mãos do moribundo enquanto os presentes rezavam o terço. Antes da conclusão deste ritual da morte, Osvaldo passou a apresentar melhoras e assim foi até o retorno da mãe, de Tubarão. Voltando ao seio materno, mãe e filho recuperam-se. Osvaldo revela que deve a vida de sua mãe e a sua a Deus e ao Dr. OTTO.  

CTGs

Irmoto José Feuerschuette, autor da biografia Doutor Otto, o Sacerdote da Medicina, pág. 93, faz relato de episódio da vida de Itamar Mattos, Tio Preto ou Preto Velho, proprietário do CTG PRETO VELHO, Pescaria Brava, SC.
Apresentado como importante figura nos meios tradicionalistas gaúchos e catarinenses e ex-Presidente da Federação Catarinense de Tradicionalismo Gaúcho, durante anos. Sua mãe exercia o magistério em São José do Cerrito, SC, mudando-se em 1930 para Gravatal. Não existindo estradas transitáveis, a mudança foi realizada por comboio de 16 mulas que desceram do planalto serrano para o litoral através da Serra do Rio do Rastro, percurso que demandou 16 dias. A mãe, Elvira Moraes Mattos, estava grávida de Itamar, seu segundo filho, nascido em 23.11.1930, 16 dias após a chegada da família.
Férias escolares eram em dezembro e janeiro, quando professores procuravam Florianópolis para receber os vencimentos. 
A mãe seguiu a cavalo para a capital. Os animais utilizados nas lides caseiras não eram afeitos a extenuante cavalgar. Onde hoje se situa o Morro dos Cavalos, na Palhoça, era possível alugar animais substitutos descansados, restituídos aos proprietários no retorno. O nome do local talvez se deva a esse comércio. 
Preto Velho, 17 anos, 1947, foi vítima de disparo acidental de arma de fogo, revólver calibre 32. Atingido no lado direito do tórax, pouco abaixo da clavícula, o projétil transfixou o tórax.  Tossindo muito e eliminando sangue pela boca, foi atendido e internado no HNSC por OTTO. Preto Velho relata que era visitado pelo médico na enfermaria todos os dias, próximo às 13h, quando o médico costumava encerrar as cirurgias do dia. Às vezes era acompanhado nessas visitas pela esposa, vestindo luto cerrado pela morte do pai, Martinho Ghizzo. 
Conforme já relatei, OTTO casou-se com Carlota Rosa, ainda estudante no RJ, 1909. O primeiro filho, Ruy Cezar, nasceu no RJ em 22.2.1912. Carlota faleceu em 28.1.1929. OTTO voltou a casar-se, desta feita com Ida Wendhausen Ávila em 1929. Ida veio a falecer em 15.2.1940. Otto casa-se, então, com Irma Ghizzo, filha do amigo e político Martinho Ghizzo, seu subprefeito de 1928 a 1930. IRMOTO é fruto deste casamento que termina em 11.8.1949 com OTTO viúvo pela terceira vez. Aos 68 anos, pai de 11 filhos, OTTO desposa Verônica Kuhnen. 

EPÍLOGO PARA PRETO VELHO

Como vinha escrevendo antes de entrar em divagações matrimoniais, Preto Velho, baleado acidentalmente, estava para receber alta hospitalar por OTTO.
Internado por 31 dias, sem recursos para honrar as despesas médico-hospitalares, deixou seu relógio para as Irmãs. Quanto a OTTO, este já se habituara a nada receber nesses casos.

AINDA OS CTGs  

Tradicionalismo gaúcho ou movimento tradicionalista rio-grandense, é ação cívico-cultural que valoriza e preserva tradições gauchescas do RS. João Cezimbra Jacques ambicionava criar movimento capaz de unir e congregar a família gaúcha em torno de ideais comuns. Fundou em POA, a 22.5.1898, o Grêmio Gaúcho.
Transferido para o RJ, Cezimbra Jacques vem a morrer alguns anos mais tarde, sem retornar aos pagos. A União Gaúcha resiste vários anos, mas paralisa suas atividades. Do Centro Gaúcho (Bagé) e do Grêmio Gaúcho (Santa Maria), depois da festa de fundação, sumiram. O Grêmio Gaúcho de POA abandona sua missão pioneira e, apesar do vasto e valioso patrimônio em imóveis que ainda hoje tem, é só um clube suburbano, fechado, na mão de poucos, inestimável em função do seu valor histórico.

TRADICIONALISMO FRACASSA NA PRIMEIRA TENTATIVA

A ida de Cezimbra Jacques para o Rio esfriou o impulso inicial. O gaúcho, seus usos e costumes eram uma realidade próxima. Ninguém sente saudade do que está perto, nem defende o que não está ameaçado. Quem buscava o Grêmio Gaúcho para ver cavalhadas, carreiras de cancha reta, fandangos, churrascos ou trajes gauchescos? Isso, no RS da virada do século, era coisa de todos os dias e de todos os lugares. 
A 31.1.1938, grupo de moços que falavam português com forte sotaque alemão fundou em Lomba Grande a Sociedade Gaúcha Lombagrandense, entidade forte, rica, respeitada - ainda existente. A princípio hostilizada, chamavam-na Clube da Alfafa. 
A 19.10.1943, o Capitão gaúcho Laureano Medeiros fundou o Clube Farroupilha, que funciona sem interrupções por todos esses anos, exclusivamente para o culto das tradições gauchescas. Ijuí foi cidade cenário desse acontecimento histórico e pioneiro, cidade onde nasceu Dunga, aquele da seleção... 
Em 1937 Getúlio Vargas proibira o uso de símbolos estaduais: hino, bandeira, brasão. Finda a guerra (1945), com a queda de Vargas há um retorno à democracia, tardando, no entanto, a reaparecerem os símbolos estaduais gaúchos.

TRADIÇÃO

Do latim traditio, traditions, significa trazer até, entregar. Em Direito, tradição significa entrega. Em sentido mais amplo é o culto dos valores legados pelos antepassados. Todo grupo social, toda nação tem sua própria escala de valores e é essa escala que distingue os povos. Gaúchos distinguem-se de outros brasileiros – e de outras nacionalidades – porque têm característica escala de valores, cultuando princípios bem definidos.

NATIVISMO

O amor que a pessoa tem pelo chão onde nasceu. Os valores do culto à Tradição mais característicos do RS são nativismo, hospitalidade, honra, respeito à palavra empenhada, cavalheirismo, coragem, além de outros. No vocabulário gaúcho há duas palavras ligadas ao Nativismo: pago (onde se nasceu) e querência (onde se vive). Às vezes se confundem, pois pessoas podem nascer e viver no mesmo lugar. 
- De onde tu és cria, vivente? 
- Sou dos pagos do Alegrete, mas estou aquerenciado em Irai. 
Considerar Bairrismo como caricatura do Nativismo. Existem rivalidades bairristas entre cidades gaúchas: Alegrete x Uruguaiana, Rio Grande x Pelotas, Caxias x Bento Gonçalves e por aí vai. E apelidos: alegretenses são café-com-leite que chamam uruguaianenses de farinheiros e os quaraienses de barbicachos. Moradores de Tupanciretã são repolhos que chamam castilhenses de fincão e papudos os de Quevedos. Moradores de Rio Grande são papa-areias, ou bicuíras e mergulhões os de Santa Vitória do Palmar. Difícil existir povo tão nativista como o gaúcho. 
Em 1947, João Carlos D'Ávila Paixão Côrtes, do Livramento, estudante do Júlio de Castilhos, o JULINHO, soube que o governo estadual ia trazer de Santana do Livramento os restos mortais do herói farroupilha David Canabarro. Paixão Cortes, mais sete companheiros, todos com montaria e arreios, forneceram escolta gauchesca de honra aos despojos. 
Na Praça da Alfândega, onde fizeram alto para cerimônia, conhecem Luiz Carlos Barbosa Lessa, de Piratini, também do Julinho. Ele e Glaucus Saraiva juntam-se ao grupo. Este é mais velho, de óculos, poeta conhecido. Assim meio por acaso, reuniu-se a Santíssima Trindade do Tradicionalismo Gaúcho: Paixão (dínamo propulsor), Lessa (estudioso, teórico), Glaucus Saraiva (organizador). Iniciativa de Paixão, realizam no JULINHO a primeira Ronda Crioula do Tradicionalismo. Mais longa de todas, dura 12 dias. Piquete de cinco cavalarianos recolhe no Altar da Pátria, zero hora de 8.9.1947, mudinha da chama simbólica. Galope rápido, queimando as mãos, levam a chama para inflamar o Candeeiro Crioulo, armado no Julinho. Ardeu até 20.9.1947, Dia do Gaúcho, data maior do RS. 
Durante essa primeira Ronda Crioula houve festa com música, poesia, fandango, concursos e discursos. Êxito enorme, auxiliado pelos convidados dos rapazes: Manoelito de Ornellas, Amândio Bicca e Valdomiro Souza. Resolvem fundar entidade para defesa das tradições gauchescas.
Era pensamento fundar entidade exclusivamente masculina, com 35 sócios (evocando o ano inicial do Decênio Heroico), cuja sede seria rancho no Parque da Redenção. 
Em 24.4.1948, porão do solar da família Simch, Rua Duque de Caxias (hoje moderno edifício), após muita discussão, sai o 35 – Centro de Tradições Gaúchas, nome proposto por Barbosa Lessa. Flávio Ramos cria o lema: Em qualquer chão – sempre gaúcho! Guido Mondin desenha o símbolo: número 35 atravessado por lança de cavalaria. Glaucus Saraiva desenvolve nomenclatura campeira para cargos de diretoria e repartições do novo centro. Acaba eleito seu primeiro Patrão.

Continua na próxima semana OTTO FEUERSCHUETTE