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Pioneiros médicos: Otto Frederico Feuerschuette

Por Dr. Henrique Packter 18/02/2019 - 06:00Atualizado em 18/02/2019 - 23:20

PARTEIRAS

A parteira Mariana da Silveira residia e trabalhava no Passo do Gado em Tubarão. O marido falecera de tétano ao espetar o pé num prego enferrujado da canoa. Viúva, quatro filhos para cuidar, desdobrava-se atendendo aos afazeres de dona de casa, mãe e parteira, além de costurar à noite até altas horas, com iluminação precária de lamparina, para equilibrar periclitante orçamento doméstico.
A coqueluche (tosse comprida) levou-lhe, quase simultaneamente, dois dos quatro filhos.
Sabe Deus como, matriculou os dois filhos que lhe restaram no Colégio São José, colégio particular, mensalidades honradas com grande sacrifício, às vezes completadas com produtos de seu sítio. 
Dona Mariana valia-se de OTTO quando o parto se anunciava difícil, tumultuado ou mesmo demorado. 
Pois foi num desses partos, realizado em casa modestíssima que Dona Mariana socorreu-se do experiente médico. Chovia copiosamente terminados os trabalhos. Demonstravam eles, mais uma vez, a perícia profissional de OTTO. Ele e a parteira lavavam as mãos e o instrumental quando o médico, cansado e sedento, pede água de beber. Na casinha não havia copos.
- Vai de caneca mesmo, e, se não for esmaltada, qualquer uma serve que a sede é grande!
Vem a informação de que a água utilizada pela família não era de boa qualidade.
- Então, pega da chuva que é a melhor água que existe!
Aliás, em se tratando de parteiras e parteiros, o jornal O LÁPIS, de 21.12.1919, noticiava:” DONA ANTONINA BÚRIGO CORBETTA, foi durante muitos anos a parteira da cidade. Inúmeros foram os tubaronenses que vieram a este mundo através de seu auxílio. Na época, as mulheres não se dirigiam ao hospital para o parto, mas davam à luz em casa e seus filhos nasciam sob olhares e orientação de parteiras que nada mais eram do que curiosas que haviam aprendido o ofício através de observação dos partos que assistiam, sem possuírem conhecimento técnico para tal finalidade além de, em sua maioria, serem analfabetas."
Dona Antonina é hoje nome de rua na Vila Moema, onde se localizam as principais clínicas e hospitais de Tubarão.
O jornal O FISCAL, também de Tubarão, registrava a excepcional conquista, Germano Bez Fontana em seu livro HISTÓRIAS DE MINHA VIDA, pág. 309, refere-se a Dona Antonina como a mestra das parteiras de Tubarão, devidamente orientada e treinada pelo Dr. OTTO.

JOÃO MANOEL FERNANDES, FERROVIÁRIO, BAGAGEIRO, POETA, DEFICIENTE FÍSICO
Trabalhou na ferrovia EFDTC de 1º.7.1911 a 15.6.1919, sendo readmitido em janeiro de 1923.
Na noite de 30.1.1924 sofreu grave acidente na estação de Esplanada. Removido para Tubarão foi operado por OTTO. Sofreu amputação do antebraço e mão direitos e de parte do membro superior esquerdo. Sobreviveu.
Mas, o poeta hoje está morto no seu túmulo e trinta anos depois, em 1954, descreveu em poema seu infortúnio:
“Colocaram-me e me levaram num vagão
Para virem me trazer 
Ao ponto de baldeação.
Quando no banhado cheguei
De trem fui transportado
Chegando o trem em Congonhas.”
...
Não cabendo no carro a cama,
No tênder fui colocado.
Ainda estava na Esplanada,
Ao Dr. OTTO foi telegrafado:
‘Venha urgente ao hospital
Que João Fernandes está machucado’.
...
E às 2 e meia da madrugada,
Estava na Estação o Dr. OTTO
Quando o trem chegou em Tubarão
...
Agradeço ao Tasso Reis
Que as providências tomou.
Chegando ao hospital 
Ao Dr. OTTO pedi:
Que me desse alguma coisa 
Pois não mais podia resistir.
A operação foi logo feita
E na cama me botaram.
Às seis horas da manhã
Meus parentes ali chegaram”.

Tudo muito bom. A descrição em versos livres é eficiente fornecendo boa ideia do ocorrido. O médico é tirado da cama na madrugada de janeiro de 1924 e, pressurosamente aguarda o acidentado na Estação da Estrada de Ferro, não no Hospital, como solicitado. A cirurgia é realizada sem mais delongas, porque, imagina-se, deveria ter havido grande perda de sangue se é que tal coisa ainda não estivesse ocorrendo.
O paciente sobreviveu ao terrível acidente e até continuou a versejar como demonstram os escritos mais acima. Tudo muito bom, tudo perfeito. O agradecimento a Tasso Reis que deve ter feito por merecer esses agradecimentos, está lá -, o registro da chegada dos parentes, também lá está. Faltaria alguma coisa?      
Sim, claro, faltou o principal. O agradecimento ao médico que o atendeu com presteza e competência, indo aguardá-lo às duas e meia da manhã na gare.  

AS VIDENTES        

Numa das entressafras de sua vida conjugal, amigo meu, namorava jovem versada em leitura de cartas que o levou a uma cigana húngara de terríveis olhos verdes. A cigana estendeu-lhe o baralho; que o misturasse à vontade. Arrumou-as depois sobre um sinistro pano preto. Depois de examiná-las veio a sentença:
- Trata-se de um caso perdido, ele não tem futuro, não vai dar pra nada.
A moça quis ouvir uma segunda opinião, de famosa cartomante baiana que atendia para os lados da Rocinha. Na entrada, abaixo da janela o cartaz:
Manicure e vidente
Meu amigo embaralhou vigorosamente as cartas. Não deu outra: não só viu confirmado o vaticínio da cigana húngara de terríveis olhos verdes, como a baiana acrescentou alguns relatos lúgubres, confidenciados em voz baixa à jovem acompanhante. Talvez por Isso o chá de sumiço que tomara, ao término da consulta.

AMPUTAÇÕES, ANTIGAMENTE

Hoje há menos. A cirurgia vascular, que talvez pudesse salvar alguns daqueles membros severamente traumatizados e atendidos por OTTO FEUERSCHUETTE e que já descrevemos, é especialidade relativamente nova entre as especialidades cirúrgicas. Tornou-se realidade mundial no final dos anos 40 e início da década de 50 do século 20. Marco maior da cirurgia vascular moderna ocorreu em 1902 com a publicação da técnica de sutura vascular por Alexis Carrel, vencedor do prêmio Nobel de Medicina por este feito (1912). Essa técnica, até hoje, é a base da maior parte das cirurgias vasculares abertas.
    
No século 20 a cirurgia vascular estabeleceu-se como especialidade médica com as técnicas cirúrgicas se aperfeiçoando. Em 1946 o professor português João Cid dos Santos descreveu a técnica da retirada das placas de gordura de dentro das artérias. Logo depois, Dubost realizou a primeira cirurgia de correção de aneurisma de aorta abdominal (1951).

Os primeiros estudos de artérias e veias, no início dos anos 20, usavam brometo de estrôncio e iodeto de sódio. Dois grandes avanços ocorreram nesses estudos no mesmo período. O primeiro: Egaz Moniz, em Lisboa, descreve a técnica de arteriografia cerebral por punção direta da artéria carótida (1928) e o segundo, quando Reynaldo dos Santos utilizou punção translombar para visualizar a aorta abdominal, 1929.

Marco de uma nova era na Cirurgia Vascular, Seldinger (1953) descreve uma nova técnica realizada por via percutânea que permite o cateterismo seletivo de todas as principais áreas vasculares do organismo.

Em 1974, Grünztzig desenvolveu cateter balão usado para angioplastia. Contudo, a consolidação de procedimentos minimamente invasivos para tratamento de doenças vasculares virá em 1988, com a utilização de stent metálico desenvolvido pelo professor argentino Julio Palmaz.
    
O início da década de 90 foi verdadeiro marco na evolução das técnicas minimamente invasivas. A chamada Cirurgia Endovascular teve início quando Dr. Juan Parodi, em Buenos Aires, demonstrou a possibilidade de tratar aneurismas da aorta, evitando cirurgia aberta, pela implantação de um stent revestido, introduzido através da artéria femoral. Esta prótese endovascular liberada na artéria aorta, expande-se para aderir à parede arterial, sem sutura.

O ENCANADOR E SUA APENDICITE

Eurides Flores Marcelo morava numa rua atrás do Hospital de Tubarão, prestando assistência na área hidráulica a quantos dela necessitassem, mais especialmente ao Hospital.
De família pobre, trabalhava desde os sete anos de idade auxiliando o pai no transporte de postes de madeira para as redes elétricas da região. Segundo de dez irmãos, Eurides fica órfão de pai aos 14 anos. O trabalho redobra, tendo de ajudar a mãe na criação de 8 irmãos menores. 
Em Areado, interior de Tubarão, transportava toras de árvores derrubadas, em carretão puxado por junta de boi. Carretão com eixo de madeira e duas rodas, as toras amarradas e arrastadas. Trabalho era muito, ganhando Eurides o suficiente para sobreviver modestamente e auxiliar no minguado orçamento doméstico.
Em 1951, o tubaronense Zeferino Menegaz era dono de pedreira em Londrina, norte do Paraná. Fez a Eurides tentadora proposta de trabalho, logo aceita.
Lá, após algum tempo, Eurides adoece: febre alta, náuseas, dores abdominais. Isso mesmo: apendicite aguda com necessidade de ser operado com urgência! Descobre que terá de despender nove mil cruzeiros pela cirurgia em terras paranaenses. Era muito dinheiro, do qual nem dispunha. Era 1952 e decide-se por voltar a Tubarão para ser operado. Desde 1950 Tubarão possuía o aeroporto Anita Garibaldi numa área em frente ao atual Farol Shopping. Na época, eram três voos por semana.  O aeroporto particular, de saibro, com pista de 1.100 metros de comprimento e 40 metros de largura, pertenceu ao extinto Aeroclube Cidade Azul. Atualmente a área total do aeroporto pertence à Força Aérea Brasileira, e como se encontra cercado por prédios e casas, encontra-se desativado. Serve, às vezes, de campo de treinamento para o Exército Brasileiro e para certos eventos de grande porte.
A viagem por avião: Londrina, Curitiba, Tubarão ficava em torno de 900 cruzeiros. Internado no HNSC foi operado pelo Dr. OTTO. A internação de vários dias, honorários médicos e todas as despesas hospitalares, curativos, medicamentos, alcançaram a cifra de 450 cruzeiros! Eurides permaneceu por dois meses em Tubarão. Depois retornou a Londrina onde trabalhou por mais dois anos. Em 1955 retorna a Tubarão para dedicar-se ao trabalho de encanador.  

O GRANDE ACIDENTE FERROVIÁRIO DE DEZEMBRO DE 1949

Fazia cerca de 3 meses que OTTO perdera a esposa Irma, quando sobreveio o acidente, próximo à localidade de Estiva, Capivari de Baixo. Foi rotulado como a maior catástrofe de todos os tempos envolvendo a Estrada de Ferro Dona Teres Cristina. O trem de passageiros saíra de Imbituba, devendo chegar a Tubarão cerca de 15,30 horas. A composição estaria desenvolvendo velocidade superior à usual e na curva do cem, a 2 km da Estação da Estiva, a locomotiva saltou dos trilhos. Esta curva já não mais existe, retificada pela ferrovia. Duas vítimas fatais, residentes em Capivari de Baixo: garoto de 15 anos e senhor de idade. Parece que o garoto viajava clandestinamente, equilibrando-se entre dois vagões da composição. Durante os procedimentos de socorro e resgate alguém teria colocado uma passagem no bolso do menino falecido o que permitiria aos seus responsáveis receberem indenização da seguradora. Foguista e maquinista, além dos outros acidentados, foram atendidos por OTTO com a colaboração de outros médicos da região. O maquinista Saul Estevão teve inúmeros ferimentos de pequena gravidade. Levado ao hospital pelo pessoal da CSN ficou internado sob os cuidados de OTTO. Ernesto Marcolino Antunes, o foguista, perdeu a perna esquerda, presa por 4 horas na manivela de manobras. A liberação da perna esquerda do foguista só foi possível por determinação do Dr. Mário Benjamin Baptista, engenheiro da CSN, utilizando maçarico o que permitiu a secção da ferragem. Após deixar a CSN, Baptista foi diretor da ELETROSUL em Tubarão. Quando das enchentes de março de 1974 era Secretário Geral do Ministério de Minas e Energia, governo do General-Presidente Ernesto Geisel, tendo prestado grande auxílio à gente tubaronense. 
Otto contava mais de 68 anos na ocasião, mas, dotado de grande vigor físico trabalhou por mais de 6 horas contínuas no atendimento às vítimas. 
A locomotiva, de número 101, ficou posicionada como se estivesse se dirigindo em direção contrária, para Imbituba. O foguista, Ernesto usou muletas para sempre por não dispor de recursos para adquirir perna mecânica. 

Próxima semana continua OTTO FEUERSCHUETTE